sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

FAITH NO MORE

Bandas que você não pode deixar de conhecer
Mike Patton, meio Bossa Nova, meio Rock'n'Roll
(Houve quem dissesse que era Pai de Santo)


Na verdade, eu estava acordado até meia-noite de uma segunda-feira (14/11/2011) esperando a transmissão do show do Alice in Chains, ao vivo do Festival SWU, pela Multishow. Estava curioso para saber como o novo vocalista, Willian DuVall, conseguiria segurar a barra em “Would?” e “Rooster”, no lugar de Layne Staley, vocalista original falecido em 2002.

Dai o Henricão (@henriqueBSA) me disse, pelo twitter: “Bicho, continua acordado e assiste ao próximo show! Faith No More! Você não vai se arrepender!”. Começou a chover em Goiânia bem no começo do show, o sinal da TV do Henricão sumiu e ele perdeu o show inteirinho. Eu não perdi nem um segundo. E, realmente, não me arrependi.

O Faith No More é considerado como uma das bandas de rock mais famosas dos anos 90. Antes disso, entretanto, em 1981, a banda se chamava Faith No Man e era liderada pelo guitarrista Mike Morris, o qual todo mundo conhecia por “The Man”. Os outros integrantes, Roddy Bottum, Mike Bordin e Billy Gould, perderam a paciência com o the man e resolveram partir pra outra. Como a banda praticamente era do Morris e não dava para despedi-lo, resolveram o problema fundando outra banda: o Faith No More. O próprio nome era significativo, já que mencionava explicitamente (e de forma bem-humorada) que o “The Man” vazara. “No More The Man”. Isso, em 1982.

Entra Jim Martin para assumir as guitarras. Faltava ainda um vocalista imponente e, depois de tentarem centenas de nomes (até Courtney Love fez teste!!), escolheram Chuck Mosley. Nessa formação, lançaram dois álbuns (We Care a Lot, de 1985 e Introduce Yourself, de 1987). Mas a banda não decolou.

A verdade era que Roddy, Billy e Mike (o Bordin) não estavam satisfeitos com a performance de Chuck Mosley. Dai aproveitaram que o cara era alcoólatra e dava muito trabalho no palco para dar um pé na bunda (providencial!) no cara.

Nessa hora, abre-se um capítulo totalmente novo na história do Faith No More. Na busca por um novo vocalista, Jim Martin ouviu uma demotape da banda Mr. Bungle e acabou sugerindo o nome de Mike Patton. Esse, sim, deveria ser apelidado de “The Man”.

Na história do rock, a coisa mais comum que vemos é um cara visionário e carismático que, seguindo seus instintos, reúne 3 ou 4 amigos e funda uma banda de rock foderástica (ex.: Dave Ghrol e Foo Fighters; Lars Ulrich e Metallica; Chris Cornell e Soundgarden, etc). Com a entrada de Mike Patton para o Faith No More, entretanto, a banda passou a figurar numa categoria rara: a das bandas que, assim como Pearl Jam (com Eddie Vedder), já existiam antes do cara visionário, mas esperavam ansiosamente que ele desse as caras. E só se transformaram em foderásticas com o toque pessoal dele.

Patton chegou no Faith No More a tempo de entrar para o estúdio e ajudar na finalização do álbum The Real Thing (1989). E este álbum lançou a banda para a imortalidade, transformando-a num dos principais ícones do rock'n'roll.

Parecia milagre. O carisma de Patton e a profundidade das novas músicas conferiu um sucesso comercial jamais imaginado pelos caras. “Epic”, o grande hit da banda, tocava de meia em meia hora na MTV brasileira, que começava a se firmar. Era a música do momento. A cara dos anos 90. Claro, não podemos deixar de lado outras faixas excelentes como From Out of Nowhere (excelente para abrir shows!), Falling To Pieces, Zombie Eaters e a faixa-título, The Real Thing.

Em 1991, na segunda edição do Rock In Rio, o Faith No More tocou para um Maracanã lotado, que cantou várias das músicas do começo ao fim. Patton apaixonou-se pelo Brasil e, desde então, sempre trata nosso país de maneira especial.

Patton pode ser considerado um hiperativo cultural. O cara não pára, no palco ou fora dele. Assim, ao produzirem o segundo álbum, Angel Dust, o vocalista teve oportunidade de extravasar todo o seu experimentalismo, usando e abusando de batidas eletrônicas, funk e teclados. De certa forma, todos os integrantes queriam se distanciar um pouco do lado pop estigmatizado por “Epic”, o que resultou num disco bem diferente do anterior. Desagradou a crítica (principalmente americana). Mas os fãs foram ao delírio (no começo).

O álbum deu início a uma turnê gigantesca pelo mundo, na qual o Faith No More tocou exaustivamente em diversos festivais, abriu shows do Metallica e do Guns N'Roses (que, na época, desfilava seu Use Your Illusion).

Ao fim da tour, Patton exagerava no seu desprezo ao pop e à devoção dos fãs mais fiéis, chegando ao ponto de provocar a platéia em diversos shows. A parte do público que, tradicionalmente, tinha conhecimento superficial da banda (só conheciam “Epic”) tomou desprezo pelo grupo. Por outro lado, fãs radicais consolidaram seu culto ao FNM.

O terceiro álbum, King for a Day... Fool for a lifetime, surgiu em 1995, com uma musicalidade mais crua. O clima na banda, entretanto, não era dos melhores, já que a necessidade de Patton em explorar novas tendências musicais o afastava cada vez mais dos outros integrantes.

Esse clima afetou absurdamente a gravação do novo disco. Os teclados foram atenuados, e o som terminou se firmando como metal comum, sem muito da originalidade da banda. A falta de empolgação do público, inclusive, gerou o cancelamento da turnê européia pela metade.

Com o clima cada vez pior, os integrantes passaram a priorizar seus projetos solos. E, quando todos esperavam o anúncio do fim da banda, o FNM entra uma vez mais em estúdio, em 1997, para gravar seu último álbum: Album of the year.

Apesar de conter verdadeiras pérolas como Stripsearch, Last Cup of Sorrow e Ashes to Ashes, o disco teve uma recepção bastante fria de crítica e público. As músicas surgiam sem uma linha de união, sem nexo, como se fosse uma coletânea de B-sides, gerando um álbum inconsistente, se considerado coletivamente.

No mesmo ano, apesar de a banda estar em seu auge de experiência, proporcionando apresentações ao vivo verdadeiramente memoráveis, disputadas a tapa em território europeu, foi anunciada a separação do grupo.

Enquanto os demais membros do FNM se dedicavam a projetos (artísticos ou não) de pouca expressão, Mike Patton aproveitou a liberdade da carreira solo para engatilhar diversos projetos bastante consistentes, todos guiados pela despreocupação comercial e falta de apego à popularidade. Nessa época, reafirmou a genialidade que possui como artista.

Depois de mais de 10 anos separados, em 2009 o Faith No More anunciou sua volta para alguns shows ao redor do mundo. Inclusive no Brasil. E em 2011, marcou presença mais uma vez em solo brasileiro, no Festival SWU. Numa apresentação memorável, não faltaram demonstrações de reverência à cultura brasileira por parte da banda.

Pra começar, o garoto Cacau Gomes, de Recife, declamou poemas no início e no meio da apresentação. Após, todos tocaram vestidos de branco, em menção ao candomblé. Patton entrou no palco de chapéu panamá, bengala e charuto, no melhor estilo Bossa Nova carioca. Sem contar que Mike conversou praticamente o tempo todo em português, executando a música “Evidence” na já tradicional versão brasileira. Por fim, a música Just a Man contou com a participação discreta (mas da mais alta sensibilidade) das meninas do coral de Heliópolis.

Não se sabe se a banda voltará definitivamente, com um calendário mais extenso de apresentações para 2012 e Mike Patton garante que não existem planos para o lançamento de um novo álbum. O legado do Faith No More, entretanto, é inegável, tendo influenciado centenas de bandas dos anos 90 e até do novo milênio. A principal força do FNM é seu caráter desafiador. Surgida no momento em que bandas dos anos 80 se arrastavam em cima de velhos sucessos, e num cenário onde o Pop tomava conta da cena musical e o rap conquistava as paradas mais altas de sucesso, o rock autêntico (e ousado - em conteúdo e em técnica) produzido por Patton e companhia é, sem dúvida alguma, atemporal (ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, virou a cara boa dos anos 90).

O show do Faith No More no SWU foi um dos shows mais loucos que eu não fui na vida (infelizmente). Mas a banda, definitivamente, é de conhecimento obrigatório para quem quer estar em contato com a boa música (e o excelente rock'n'roll). "Porra, caralho!"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Sorriso do Palhaço


Quem é que faz rir aquele que faz rir? (atenção, pode conter spoilers)

Selton Melo, no significativo cartaz de "O Palhaço"

Em seu mais novo filme, “O Palhaço”, Selton Melo nos conduz ao mundo mágico e ao lado realista do circo, sem apelar para pieguismos ou saudosismos exagerados. Com uma sensibilidade emocionante, nos apresenta a rotina de um grupo mambembe nos anos 70, que segue por cidadezinhas do interior do país buscando espectadores cada vez mais escassos.

Benjamin, personagem vivido por Selton, é o administrador do circo Esperança, juntamente com seu pai, Valdemar, interpretado magistralmente pelo ator Paulo José. No picadeiro, os dois atuam como a dupla de palhaços Pangaré e Puro-Sangue, em meio a outras atrações inusitadas como a dupla de malabaristas “russos”, o levantador de peso sentimental, o contorcionista, o anão, a dupla de músicos, a mulher-coragem, a gorda do sutiã e o apresentador.

Benjamin não está satisfeito com os rumos que sua vida leva. Faz graça para entreter seus espectadores, mas não vê mais graça na vida que tem. Não se acha engraçado. E as circunstâncias o levam, meio que sem querer, a buscar mudanças.

O interessante é notar que, apesar de Selton Melo estar por trás de Benjamin, também está por trás das câmeras e do roteiro do filme. Assim, mesmo que Benjamin se veja como desinteressante e repetitivo, sua vida não o deixa perder a graça. Benjamin é um palhaço porque nasceu palhaço. Sua vida o faz rir (e a nós também). Com a direção, Selton perpetua a comédia que vemos no picadeiro, fazendo-a transcender às lonas. Ainda que a vida real por trás das maquiagens seja dura e pouco chamativa (o que fica evidente nos diferentes tipos de fotografia, responsabilidade de Adrian Teijido, usados durante os esquetes no picadeiro e nos bastidores das apresentações do grupo), a comicidade continua pelo tipo de direção escolhida por Selton.

O estilo contemplativo de filmagem, que muitas vezes se funde com o olhar curioso da única criança do grupo circense, dá equilíbrio ao clima cômico da obra. Aliás, é legal notar que a criança representa uma infância sóbria, sem o excesso de fantasia, que ao mesmo tempo que se diverte vendo as palhaçadas de Pangaré e Sangue-Puro, tem maturidade para identificar os problemas da vida real, dos bastidores. E que, em todo caso, será a responsável pela perpetuação da arte e do grupo.

Um dos aspectos mais bacanas do filme é que, para contar os dramas de um palhaço, Selton Melo escolheu compor o elenco por comediantes da velha guarda. Jorge Loredo, Ferrugem, Tonico Pereira e Moacyr Franco, antigos “palhaços”, conhecidos de todos os brasileiros. E, justamente por isso, o filme acaba se tornando uma singela homenagem a todos eles, com seus dramas pessoais, suas dificuldades, mas que nunca os impediu de nos fazer rir. E, ao contrário de filmes pura e explicitamente comerciais (como “Muita Calma Nessa Hora”, por exemplo), que reúnem elencos recheados de celebridades para faturar alguns tostões (e, talvez por isso mesmo, se utilizem de roteiros mal feitos, cheios de recortes, para acomodar todos esses nomes), os palhaços de Selton Melo nos brindam com um show de atuação, confirmando o peso que seus nomes possuem na comédia e, muito mais do que isso, na dramaturgia brasileira.

E, nesse ponto, imprescindível abrir parênteses para falarmos de Moacyr Franco. O ator e cantor encarna a figura de um austero delegado interiorano, que aparece em uma sequência de pouco mais de 3 minutos. Foi o suficiente para lhe garantir o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, no Festival de Cinema de Paulínia. Durante a exibição do filme no Festival, a atuação foi maciçamente aplaudida, a cena aberta. E, dizem, durante as filmagens, logo após o estalo da claquete, elenco e produção aplaudiram emocionadamente Moacyr. Foi a estreia dele nos cinemas.

Pois bem, mas, de repente, em sua busca por um sentido maior na vida, Benjamin nos apresenta a questão: Quem é que faz o palhaço rir? Quem faz rir aquele que faz rir? O próprio roteiro nos dá a resposta. No picadeiro, Pangaré e Puro-Sangue são o motivo da graça. Fora do circo, a própria vida proporciona a graça que Benjamin busca, frequentemente se surpreendendo com os outros palhaços – o delegado (Moacyr Franco), Jorge Loredo (chefe da repartição pública), Tonico Pereira (excelente, no papel de gêmeos, donos de uma oficina mecânica de beira de estrada) e Ferrugem (funcionário público).

No fim das contas, o filme é um ensaio sobre a comédia, de forma geral. Acostumados que estamos com a comédia nordestina, principalmente pela riqueza cultural dessa região do Brasil (que nos proporcionou talentos como Ariano Suassuna, Chico Anísio, Renato Aragão, Falcão, Tiririca, Regina Casé, dentre tantos outros), nos acomodamos a esperar que a comédia venha só de lá. Selton nos mostra a comédia mineira. O estilo de vida do interior de Minas Gerais é pano de fundo para o drama cômico pelo qual passam os personagens.

E esse lado da comédia vem com um outro aspecto interessantíssimo.

A atividade circense privou Benjamin de ter documentos civis. Não tem RG, CPF, nem comprovante de endereço. Só a certidão de nascimento. Ele é mais um cidadão brasileiro que apenas “nasceu”, não tem registros civis. E, por motivos diversos, precisou voltar à sua cidade natal para regularizar sua situação. Precisou regressar à sua cidade natal para assumir, integralmente, sua identidade. E, coincidentemente (mas, muito provavelmente, não), a cidade natal de Benjamin é Passos (Minas Gerais), cidade natal também de Selton Melo. Lá chegando, Benjamin recupera muito mais do que sua identidade de cidadão. Recupera o sentido da sua vida.

Em entrevistas recentes, Selton Melo tem indicado cada vez mais sua busca em aprofundar-se por outros ramos da dramaturgia e do cinema, revelando insatisfação em assumir apenas papéis de humor em filmes populares. Em “O Palhaço”, além de dirigir e atuar, ele é corroteirista, coprodutor e coeditor. Como os grandes diretores, ocupou-se de todos os principais aspectos. E, por ironia do destino (ou do roteiro mesmo), assim como Benjamin, ao regressar à sua cidade natal talvez tenha encontrado um pouco mais do que vem buscando em sua carreira. Sem dúvida alguma, deu um passo importantíssimo na consolidação de sua identidade como diretor. Podemos esperar muita coisa boa ainda pela frente!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

De intenções, a Rouanet está cheia!



Num país onde cada vez se critica mais sobre o que cada vez se sabe menos, um tópico favorito é: Lei Rouanet. A aplicação dela é correta, no modo como se faz atualmente?

Vemos eventos de grande porte como o Rock in Rio e obras ambiciosas como Tropa de Elite beneficiadas por uma lei que, teoricamente, deveria contemplar apenas pequenos artistas. É justo reclamarmos?

ORIGEM E JUSTIFICATIVA DA LEI

Em 1991, a inflação brasileira era monstruosa. A economia estava de mal a pior, os salários eram baixos (e estagnados!) e o nepotismo e a corrupção eram doenças crônicas que infestavam, visceralmente, alguns órgãos públicos. Diante disso, medidas tendentes à descentralização governamental foram tomadas, dentre elas a extinção da Embrafilmes – um dos órgãos  responsáveis pela gestão cultural da sociedade brasileira.

Nesse contexto, o presidente Fernando Collor sancionou a Lei nº. 8.313, batizada com o nome do então Ministro da Cultura, Sérgio Paulo Rouanet, conferindo um caráter pouco mais privado à gestão cultural.

Atingia-se dois objetivos com uma só medida: primeiramente, transferia-se a responsabilidade de parte dos subsídios culturais ao setor empresarial e, de quebra, protegia a cultura nacional, atacada pela invasão cultural do exterior, consequência da política neoliberal.

A Lei funciona em três frentes: através do Mecenato; do PRONAC via Fundo Nacional de Cultura; e do PRONAC via incentivos fiscais aleatórios.

No Mecenato, que é a forma mais conhecida de aplicação da Lei Rouanet, o investimento na cultura  ocorre no âmbito privado, de maneira direta. Antes, com a Embrafilmes, o governo federal arrecadava recursos e depois os destinava ao órgão para aplicação discricionária. Com a Rouanet, o recurso sai diretamente das empresas para aplicação em projetos aprovados pelo Ministério da Cultura, procedendo-se, após, ao abate no pagamento do imposto de renda da empresa financiadora.

Pelo Fundo Nacional de Cultura, o governo investe verbas diretamente na concessão de prêmios, financiamento de intercâmbios culturais e apoios diversos a projetos que não se enquadrem nas outras hipóteses, mas que tenham relevância cultural.

E pelos incentivos fiscais diversos, projetos que não se encaixem nas outras hipóteses, mas que possuam relevância e consistência, ficam autorizados a buscar apoio financeiro junto a empresas, com o posterior desconto no imposto de renda dos investidores.

Todas as hipóteses devem ser examinadas e autorizadas pelo Ministro da Cultura. Reformas recentes, no sentido de ampliar estes mecanismos, têm sido frequentemente discutidos.

A POLÊMICA

Esclarecidos de forma rápida os mecanismos e objetivos da lei, podemos partir para a questão principal: é justo que a Lei seja aplicável a projetos de grande porte, como os filmes produzidos pela Globo Filmes, artistas consagrados como Caetano Veloso, Alcione e Capital Inicial, e festivais de grandes proporções, como o Rock in Rio?

A lei não estabelece limites. Desde que seja um projeto cultural de relevância, viabilidade econômica e consistência, está ao alcance da lei Rouanet.

Mas a questão que se discute vai um pouco além da mera legalidade, para longe dos requisitos puramente objetivos. Quando se discute a eficácia e adequação na aplicação da lei, deve se buscar os reflexos sociais e o impacto da interpretação dos objetivos da lei.

Primeiramente, fica mais do que claro que, aos grandes projetos, restaria vedada a incidência da Rouanet pela via do Fundo Nacional de Cultura. Os próprios requisitos objetivos já definem as hipóteses cabíveis. Ademais, incentivos e privilégios concedidos pelo Estado devem sempre, em toda e qualquer situação, estar embasados em justificativas reais de desigualdade. É o famoso lema: para que todos sejam tratados como iguais perante a lei, os desiguais devem ser tratados de maneira desigual, na medida de sua desigualdade. E, no caso, não há desigualdade prejudicando os grandes projetos que justifiquem o privilégio concedido.

Logo de cara, já descaracteriza-se a grande crítica feita pela maioria dos críticos de plantão: dinheiro público não deve financiar artistas já consolidados, que ganham milhões. E não financiam.

Restariam as outras modalidades.

O Mecenato é um dos mais utilizados pelas grandes produções. E é o menos conhecido pelo grande público. Profissões como a de produtor cultural ou a de captador de recursos dependem desse tipo de procedimento. E foi ele o responsável pela origem do ramo do marketing cultural – que nada mais é que o esforço dispendido por produtores e captadores para convencer os departamentos financeiros e de marketing das empresas a investirem em seus projetos. A empresa, convencida do retorno comercial, investe no projeto apresentado e, em contra partida, “ganha” a publicidade da marca. Além, claro, de seu imposto de renda parcialmente abatido. Cabe aos produtores e captadores convencerem à empresa investidora de que o negócio compensa.

E o grande problema da Lei Rouanet reside ai: o tal do “compensa”. Não sejamos inocentes, claro, em achar que todos são movidos apenas por interesses angelicais! Mas, nesse caso, o interesse puramente econômico minou o objetivo inicial da Rouanet de estimular a produção cultural nacional, priorizar nosso produto cultural interno e reforçar a regionalização das manifestações culturais. Virou tudo um grande negócio.

A Rouanet virou refém das grandes empresas e dos grandes artistas. Ou dos que têm condição de estabelecer um bom departamento de marketing cultural. Afinal, dificilmente uma empresa deixará de investir em artistas consagrados, com visibilidade nacional, para estimular o regionalismo, bancando um projeto com repercussão local. A verba, no fim das contas, acaba bastante mal distribuída. Talvez até mais do que se fosse administrada por um órgão estatal, como era antes.

Num país utópico, onde empresas bem intencionadas se desenvolvem apegadas aos objetivos fundamentais da República, a lei daria certo. Mas no nível de desenvolvimento atual, o que acontece é que as grandes empresas se aproveitam da necessidade de patrocínio que grandes eventos possuem para divulgar suas marcas com um custo/benefício tentador. Tentação esta, obviamente, irresistível quando se trate de filmes fortemente produzidos, álbuns de artistas consagrados e festivais de visibilidade internacional.

Assim, ao tratar da questão, não devemos olhar os projetos, festivais, obras, discos e artistas que se beneficiam da Lei Rouanet como vilões. São eles apenas beneficiários de uma lei que não impôs mecanismos de contenção de interesses puramente comerciais de grandes empresas – estas sim as vilãs – deixando interesses regionais, artistas de pouca visibilidade e projetos de pouco alcance de público em segundo plano, sem ter a quem recorrer.

E, falsos moralismos à parte, poderíamos julgar tão duramente empresas capitalistas que lutam para obter suas parcelas de lucro, quando a lei oferece brechas tão facilmente aproveitáveis? A única culpada é a própria lei.

Desvios na aplicação dos recursos obtidos, concessões irregulares ou em desacordo com o que estabelece a legislação, obviamente, não entram nessa análise por serem manifestamente ilegais (caso recente observado no Rock in Rio).

A conclusão a que se chega é que não existe nada de errado, ou de ilegal, em grandes projetos se beneficiarem da Lei Rouanet. O que não quer dizer que não exista injustiça.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira



4. A origem da nobreza

Depois de pouco tempo no Brasil, a corte começou a enfrentar as consequências do exagero e da esbórnia da nobreza. Os suprimentos começaram a faltar, e a riqueza não circulava. Para não depender de empréstimos contraídos junto a outras nações, D. João VI teve uma ideia que, durante um bom tempo, funcionou: criou o Banco do Brasil.

Assim, com uma moeda própria e a circulação interna das riquezas, a economia fluiria de forma mais eficiente. E, melhor, o banco seria como uma fábrica de dinheiro particular do rei. Apesar de ser dinheiro sem lastro econômico, serviria por certo período. Deu certo por, aproximadamente, dez anos.

Inicialmente, para a implementação do banco, seu capital seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Capital este a ser implementado por acionistas, obviamente. A responsabilidade do rei era apenas criar o banco. E emitir o papel-moeda posteriormente.

Para tanto, a monarquia criou um mecanismo de compensação. Aqueles que corajosamente investiram no banco, receberam em troca títulos de nobreza, cargos na corte, dentre outras compensações. Nesse período, muita gente ficou rica do dia para a noite ou, se não chegou a ficar rico, pelo menos nobre virou.

O banco não deu certo, porque em 1820 a reserva de ouro que garantia a moeda representava apenas 20% do dinheiro em circulação. Os outros 80% eram dinheiro sem lastro. E, logo, o banco estava arruinado.

Os títulos e cargos, entretanto, continuaram. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, estima-se que, nesse período, foram distribuídas 4048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes da Ordem de Cristo, 1422 comendas da Ordem de São Bento de Avis e 590 comendas da Ordem de São Tiago.

Nos dizeres do historiador John Armitage, citado por Laurentino Gomes em seu livro, “indivíduos que nunca usaram esporas foram crismados cavaleiros, enquanto outros que ignoravam as doutrinas mais triviais do Evangelho foram transformados em comendadores da Ordem de Cristo”. Uma situação ridícula aos olhos de europeus e que, por um bom tempo, virou piada pelas ruas de Portugal.

Mais uma vez, temos uma pista de como nossa sociedade se formou. Títulos de nobreza falsos, sem lastro, que nada significavam, senão troca de benefícios econômicos foram distribuídos como panfletos no sinaleiro. O governo beneficiava aqueles que lhe favoreciam, criando uma sociedade inteira de falsos nobres.

Enquanto nos antigos e tradicionais reinos da Europa os nobres realmente mereciam os títulos adquiridos, aqui pelo Brasil, por mais grossos e rústicos fossem os cidadãos, viravam nobres apenas por alimentar a ganância e as regalias do rei.

Alguma semelhança com os dias atuais?

Fonte:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira

Palácio de São Cristóvão
 
  1. A casa do traficante negreiro

Assim que a família real portuguesa chegou ao Brasil, viu-se livre da ameaça de Napoleão Bonaparte. Mas, de repente, pegou-se num problema tão grande quanto: onde estamos?
Apesar de os planos para vir ao Brasil e, quem sabe, transferir a sede do poder português, não serem propriamente de última hora, o planejamento foi precário. Assim, a estrutura brasileira de forma alguma estava preparada para receber os únicos reis e rainhas que já pisaram em solo americano.
Não havia um palácio esperando a realeza.

Elias Antônio Lopes, um traficante de escravos da época, aproveitou-se da situação e doou seu palácio particular ao rei, juntamente com as terras da chácara de São Cristóvão, a ele vinculadas. Era 1808.

O palácio foi, posteriormente, batizado de Quinta da Boa Vista e se transformou em residência oficial do monarca durante todo o período em que permaneceu em solo brasileiro.

Como recompensa, Elias Antônio Lopes foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Cristo e nomeado tabelião e escrivão da Vila de Parati.

Não bastasse isso, em 1810, Elias foi condecorado como cavaleiro da Casa Real e agraciado como alcaide-mor e senhor perpétuo da Vila de São José del-Rei. Também foi nomeado corretor e provedor da Casa de Seguros da Corte.

Todos esses títulos de nobreza foram decorrentes, direta ou indiretamente, do presente dado a Dom João VI. Ou seja, foi um investimento acertadíssimo por parte do traficante.

Por fim, foi designado responsável pela arrecadação de impostos em diversas localidades da corte. O que, por si só, já evidencia quanto dinheiro ele conseguiu ganhar depois de feita a doação do palácio.

Esse é mais um episódio que nos leva a questionar sobre nossas origens. A primeira morada do rei, em solo brasileiro, foi doado por um traficante, contrariando uma infinidade de princípios administrativos de que temos conhecimento (impessoalidade, moralidade, dentre outros). O governo brasileiro (ainda que vinculado a Portugal) já começou de rabos presos com um traficante. De escravos, não de drogas. O que é pior.

A política “rabo preso” da realeza luso-brasileira ficou tão evidente que, durante todo o resto de sua vida, o traficante Elias (que não é o Maluco) ganhou presentes, títulos e riquezas sem muito esforço.

A questão dos títulos de nobreza, a gente vê no próximo post.

Fonte:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira



2. Polícia para quem precisa

Um fato interessante sobre o período colonial está relacionado à escravidão.
Depois de anos acostumados com a mão-de-obra barata vinda dos milhares de escravos negros africanos, a sociedade brasileira colonial achava esse tipo de relação de trabalho mais do que comum. Aliás, mais do que um simples costume, ter escravos era sinal de status. Fazia parte da estrutura social, de forma visceral.

Dessa forma, era normal passear com escravos, depender deles, maltratá-los e castigá-los. As punições, inclusive, eram feitas em qualquer lugar. Nas praças, na porta de casa, nos quintais, enfim, em qualquer canto. Os açoites ou chibatadas, punições mais severas, eram feitas nos troncos, em praça pública.

Quando D. João VI veio para o Brasil, fugindo de Napoleão, trouxe consigo toda a sua corte. Nobres, funcionários, familiares, enfim. Muita gente que nunca tinha vindo ao Brasil (inclusive o próprio rei) deparou-se com um mundo totalmente novo nas terras além-mar.

Naturalmente que o nível de desenvolvimento social da colônia era diversas vezes mais baixo que o da metrópole e o do resto da sociedade européia. Assim, toda essa gente portuguesa estranhou muito o que encontrou por aqui, principalmente no que tange à educação e ao refinamento dos colonos.

Uma das primeiras atitudes do rei quando se instalou no Brasil foi, imediatamente, cuidar dos modos da colônia. Já que iria morar no Rio de Janeiro por um bom tempo, que fosse em uma cidade digna. Que estivesse em um patamar pelo menos próximo do de sua cidade natal.

Estabeleceu, então, a Intendência Geral de Polícia da Corte, que era uma espécie de prefeitura misturada com Secretaria de Segurança Pública, nomeando Paulo Fernandes Viana como o “agente civilizador”. Seria ele responsável por melhorar a qualidade das ruas da colônia, providenciar iluminação, aterrar pântanos, cuidar do suprimento de água e comida na cidade, dentre outros.

Nessa perspectiva, o açoite de escravos em vias pública foi considerado bárbaro, não condizente com uma cidade de nível europeu, tida como civilizada. E para combater isso, o “prefeito-delegado” passou a proibir essa prática. Determinou, inicialmente, que o castigo a escravos deveria ser feito no interior das residências, longe dos olhos do resto da população. E, posteriormente, estatizou esse tipo de punição.

Assim, foi instituído um “carrasco” ou “executor” das punições, funcionário público, responsável por cumprir com os castigos determinados pelos donos dos escravos. O direito de dar chibatadas passou a ser exclusividade do Estado. E longe dos olhos do público. Familiar?

Quem é que sabe o que acontece nos porões das Delegacias, atualmente? A maioria das pessoas aceita ou até defende a tortura como fim de obtenção de confissões. Ou de castigo a criminosos. O sentido é o mesmo. Todos acham necessário. Desde que longe dos olhos do público. Talvez o costume atual esteja tão arraigado justamente por ter raízes tão antigas. Somos escravistas até hoje.

Fontes de pesquisa:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira


  1. 1. Nosso nome de batismo

O Pau-Brasil, cujo nome científico é Caesalpinia echinata, é um tipo de árvore nativa da Mata Atlântica. Recebeu esse nome em razão da resina cor de brasa que tinge sua madeira. Antes de receber esse nome em português, entretanto, seu nome em tupi já era ibira pitanga, ou "madeira vermelha".

Após a descoberta do Brasil, a primeira grande atividade econômica explorada pelos portugueses na então Terra de Santa Cruz era a extração da madeira e da resina de Pau-Brasil para uso como tintura em manufaturas de tecidos de alto luxo. Com o crescimento da importância dessa atividade e a abundância da matéria-prima, em pouco tempo a colônia portuguesa passou a se chamar Brasil.

A extração desenfreada e sem qualquer fiscalização do Pau-Brasil levou à sua drástica diminuição em território brasileiro, chegando às beiras da extinção. Devido a isso, a metrópole passou a exercer fiscalização intensa sobre a atividade na colônia. Não só devido ao risco para a espécie, mas, sobretudo, para evitar o contrabando e a exploração por estrangeiros.

Especula-se que o nome correto da pessoa nascida no Brasil, de acordo com as origens dos nomes de nacionalidade de outros países, deveria ser “brasiliense” ou então “brasiliano”. Não é à toa que, em outras línguas, nosso nome seja traduzido como “brazilian” (inglês, irlandês, latim), “brasilianer” (alemão), “brasiliano” (italiano), dentre outros. Mas nosso nome não segue à lógica padrão, porque não está ligado, originariamente, ao nome de nosso país.

Brasileiro, em sua origem, é definido como “aquele que transporta/produz/extrai pau-brasil”. E, posteriormente, de maneira ainda mais forte, passou a significar “aquele que trafica pau-brasil”.

Apenas depois de dado o nome ao país – Brasil – e de plantada a semente do patriotismo é que buscou-se um cuidado maior com a designação de nossa nacionalidade, vinculando a palavra única e definitivamente.

Nossa maldição já começa de nossos nomes. Somos, originariamente, traficantes. Nascemos de uma atividade ilegal. Dai como temos responsabilidade ainda maior em nadar contra a corrente da História e modificar nossos costumes, buscando verdadeiramente os objetivos traçados por nossas leis.



Fonte de pesquisa:

Site - http://pt.wikipedia.org

Origens sombrias da cultura brasileira




Depois de boiar por muito tempo, decidi ler o livro 1808, do Laurentino Gomes. Está entre os mais vendidos no Brasil, durante muito tempo.

Livros, filmes e álbuns best-seller não costumam me chamar a atenção simplesmente por estarem nessa condição. Mas é sempre bom dar uma olhada para saber do que se trata.

A linguagem é excelente. E a pesquisa realizada pelo autor para escrever o livro foi muito bem feita e bastante profunda. Recomendo muito.

Entretanto, como eu sei que muita gente não vai animar pegar para ler – seja por falta de tempo, falta de costume, ou falta de interesse no assunto – eu decidi escrever alguns posts sobre fatos históricos interessantes que eu vi no livro, jogando algumas análises e pesquisas que eu fiz na internet. Ressalto que as opiniões são só minhas e não do Laurentino! Apenas citei os fatos e curiosidades históricas que o autor mencionou.

São fatos importantes para a gente perceber nosso papel na História, nossa responsabilidade como brasileiros e os desdobramentos disso tudo. No mínimo, ajudam a explicar o porquê disso tudo que anda acontecendo no nosso país (corrupção, violência, pobreza, etc).

Espero que todo mundo ache tão interessante quanto eu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Estranha Democracia Brasileira

Parte 01 – A fila do estádio e o político

Outro dia, eu estava na fila de entrada das arquibancadas do Estádio Serra Dourada, esperando para assistir a um dos jogos do Goiás. A fila era enorme, mal organizada e ninguém estava se importando muito com isso. Todo mundo só queria entrar.

Quando eu estava próximo das catracas, um sujeito de, aparentemente, uns 50 anos, aproximou-se de mim e disse: “Posso encostar aqui, irmão?”. Pego de surpresa, eu não soube o que responder de imediato. A Marina, minha namorada, que estava do lado, pensou mais rápido e lançou “Isso aqui é fila! Vai lá para trás!”. A minha ficha caiu e eu ajudei: “Não vai cortar fila aqui não”.

Ao redor, as pessoas ouviam, mas não diziam absolutamente nada. E o homem respondeu: “Calma! Tá tudo tranquilo! É fila mesmo, por isso estou te pedindo pra entrar! Fila é para ser cortada”. Dai eu respondi: “Aqui o senhor não vai entrar não”. E ele, já entrando: “Tranquilo! Não vamos brigar por isso não! Fila é isso ai mesmo!”. Ele não entrou perto de mim. Mas as pessoas atrás deixaram ele entrar, sem problemas.


A coisa mais clichê que existe é brasileiro reclamando de político. Via de regra, com razão, já que a maioria deles parece se esquecer de que foi eleito para representar o povo. Cuidam de seus próprios interesses, ou o de seus partidos e o interesse da nação, que se lasque. A situação é quase idêntica à de tirar os controles e câmeras do operador do caixa no banco. E deixá-lo sozinho cuidando do dinheiro. Que, teoricamente, não é de ninguém. E seus colegas caixas ainda o incentivam: “Pega só 40%, ninguém vai notar. Qualquer coisa, esconde na cueca”. E o brasileiro não perdoa no twitter. Xinga muito! Ir para a rua, ninguém quer.

E quando chega na fila do estádio, dá aquela encostadinha: “Fila é isso ai mesmo! É para ser furada. Ninguém vai reclamar não, irmão! Tá na paz!”

A questão é que, ficou tão clichê reclamar de político, que qualquer coisa que eles façam é digna de crítica. Ninguém quer ler a lei pra saber o quê ela fala. Ninguém quer saber a conjuntura econômica, política, social para saber a natureza do ato do político. Ele que fez? Então, ferro!

A questão dos aumentos dos salários mesmo. Deputados federais e uma porção dos estaduais foram duramente criticados (e até hoje são!) por votarem seus próprios salários, aumentando-os, em alguns casos, em mais de 70%. E o que ninguém sabe é que eles precisavam fazer isso. Queriam, claro, acharam maravilhoso! Mas o sistema democrático adotado pela República Federativa do Brasil exigiu isso. A liberdade, a igualdade, a Justiça pelos quais todos clamam exigiu isso.

O que aconteceu foi que os salários do Executivo e do Judiciário estavam muito acima dos salários do Legislativo. E já que os Poderes instituídos são iguais, absolutamente necessário que os salários dos cargos equivalentes, em cada Poder, seja igual. Grosso modo, o salário do Governador deve ser igual ao salário dos Desembargadores, que deve ser igual ao salário dos Deputados Estaduais e assim por diante. E no nosso país, só se pode aumentar salário, no caso do funcionalismo público, através de lei. E quem faz a lei? A Assembleia Legislativa, no âmbito estadual e o Congresso Nacional, no âmbito federal. Não é juiz quem faz e vota lei. Não é governador. Não é Ministério Público. Nesse caso, portanto, os deputados, senadores, etc, etc, estão agindo dentro da mais absoluta legalidade. É dever deles fazer isso, se quiserem manter a isonomia e equilíbrio entre os três Poderes. Obviamente, nesse caso, todos eles acharam o máximo. Afinal, uma vez na vida, o dever (e a vontade) deles bateu direitinho com o que o Sistema Democrático demandava.

O que se deve questionar é o valor alto dos salários de todo mundo! Dos deputados, dos desembargadores, dos governadores. De todo mundo! O valor dessa equiparação, de modo geral, é que não condiz com a realidade brasileira. E não a atitude tomada pelos deputados.

E dai, no dia seguinte, todo mundo mete o pau sem entender porcaria nenhuma do que tá acontecendo e, de noite, vai pro estádio tentar furar fila.

Parte 02 – Eu posso. Você, não. Isso é democracia.

Acontece que o músico Tonho Crocco (@tonhocrocco), sem estar muito por dentro do que estava acontecendo mas, de forma absolutamente correta, exercitando seu direito (e dever!) de protestar, veiculou na internet, aproximadamente no dia 22 de dezembro, um vídeo chamado “Gangue da Matriz” (disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=SukPLNWgY7M ), no qual expõe todo o seu inconformismo contra a atitude dos deputados da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Tonho Crocco, no rap "Gangue da Matriz"
Aparentemente (a gente nunca sabe as motivações políticas que existem nos bastidores), os deputados se sentiram ofendidos e, por meio de iniciativa do presidente da Assembleia, encaminharam pedido de providências ao Ministério Público. Resumo: deu num processo contra o Tonho Crocco, por crime contra a honra.

A partir dai, o brasileiro xingou muito no twitter. O nome do músico figurou entre as palavras mais mencionadas (trending topics), pessoas do Brasil inteiro xingaram, extravasaram sua raiva, seu inconformismo. As torcidas de Grêmio e Internacional e até alguns artistas famosos deram seu apoio à causa, como o também músico Tico Santa Cruz (@ticostacruz), vocalista do Detonautas e, de forma mais tímida, Humberto Gessinger (@1bertoGessinger), dos Engenheiros do Hawaii e Pouca Vogal.

Todos declarando seu repúdio à censura, à falta de vergonha na cara dos políticos. Muitos explicitaram o atraso do país, outros apoiando a luta por um país mais justo. E, no meio desse turbilhão, a meu ver, ninguém entendendo porcaria nenhuma do que tá acontecendo. Opinião minha.

De forma irresponsável e radical, estão condenando o exercício de um direito constitucionalmente garantido. Não estou falando do direito de liberdade de expressão, de Tonho Crocco. Esse, ele já exercitou. Estou falando do direito de acesso à Justiça, legitimamente exercitado pelos deputados.

O que estão defendendo é poder falar o que quiser, sem ouvir o que não quer. Até agora, não houve censura. Não houve truculência. Não houve inconstitucionalidade! Cada parte está expressando sua opinião (um, contra o aumento salarial dos deputados. Outro, contra a ofensa supostamente sofrida com o vídeo na internet. Outros, boiando, contra a situação como um todo.). Censura seria prender o Tonho pelo que ele disse. Jogar a polícia em cima dele. Ou coibir os deputados de acionar a Justiça. Em ambos os casos, a censura estaria estabelecida.

O músico Tonho Crocco protestou.
O que estão pregando é a ditadura. “Eu posso falar o que eu quiser. Quem é contra mim, não!”. Os brasileiros, ao contrário do resto do mundo, devem aprender que o “direito de ação” é diferente e autônomo ao “direito material”. Uma coisa é ter o direito de ir mostrar seu problema pro juiz. Outra coisa é o juiz conceder esse direito.

Então, nobres brasileiros que xingam muito no Twitter, um recado: aguardem a decisão judicial! Até agora, o que estamos presenciando é um exercício da democracia, tão legítimo quanto uma eleição. Se quisermos evoluir para a condição de “país de primeiro mundo”, temos de acostumar com isso. E, caso seja negado o direito de livre expressão ao Tonho, numa decisão judicial viciada, ai sim, devemos despregar essas bundas gordas de nossas cadeiras e ir às ruas protestar. Ai, sim, haverá censura.

Por enquanto, discutam o caso. Façam barulho. Chamem a atenção. Mas entendam que isso é a tão cultuada democracia! Democracia tem que existir para os dois lados.

E parem de furar fila nos estádios (e em qualquer outro canto), que é a mesma porcaria que um político esconder dinheiro na cueca.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Goiás, Vila Nova e Atlético Goianiense





Uma discussão freqüente entre as torcidas de times de todo o país é em relação a qual o melhor time, qual a maior torcida. Nessa hora, entram os títulos, os confrontos, números, estatísticas, episódios isolados e tudo mais. Aqui vai mais uma mãozada de ingredientes para apimentar a questão. Principalmente porque Vilanovenses se gabam de ter a maior e mais apaixonada torcida do centro-oeste. E Atleticanos usufruem de uma confortável posição de participante do Campeonato Brasileiro série A – ainda que, na tabela, encontrem-se entre os 4 piores times (a famosa “zona da degola”).

O maior público do campeonato brasileiro série B desse ano foi registrado no jogo entre Goiás x Paraná, dia 14 de junho de 2011, com público pagante de 21.754 pessoas.
O Goiás tem a terceira maior média de público no brasileirão série B 2011, com 11.264. Só perde para o Sport (em primeiro com média de 16.976 pagantes) e para o Grêmio Barueri (média de 13.061 pagantes).

São esperadas 30 mil pessoas para Goiás x Sport, dia 26/07/2011, já que o jogo é entre os times que registram os maiores públicos pagantes do campeonato (Goiás em primeiro, Sport em segundo). Mas foram disponibilizados 40 mil bilhetes.

O Vilinha ocupa a distante oitava posição em média de público, com 6.061 pagantes. (Cadê a "maior torcida do centro-oeste"?). E não figura entre nenhum dos 10 jogos de maior público do campeonato. O Goiás ocupa a primeira, a quarta e a décima marca dos dez jogos com maior público registrado. As outras sete vagas são de Sport, com 6 posições, e 1 do clássico Ponte Preta x Guarani.

O Atlético-GO, na série A, está na zona de rebaixamento. A média de público é de 8.317 pagantes. Bem menor que a do Goiás. Mas, ainda assim, maior que a do Vila.

Sobre as torcidas, a Revista Placar divulgou pesquisa, estabelecendo um Ranking Nacional e um Ranking Regional. Os dados são o seguintes:

NACIONAL

1º Flamengo: 15,34%
2º Corinthians: 14,83%
3º São Paulo: 11,89%
4º Palmeiras: 8,58%
5º Vasco: 4,47%
6º Santos: 3,80%
7º Cruzeiro: 3,38%
8º Atlético-MG: 3,04%
9º Botafogo: 2,12%
10º Fluminense: 1,66%
11º Grêmio: 1,19%
12º Bahia: 0,77%
13º Sport: 0,70%
14º Atlético-PR: 0,62%
15º Vitória: 0,57%
16º Internacional: 0,55%
17º Goiás: 0,38%
18º Coritiba: 0,35%
19º Santa Cruz: 0,27%
20º Náutico: 0,22%
21º Paraná: 0,09%

Outros: 25,19%

REGIONAL - Em Goiânia-GO:

1º Goias - 23,7 %
2º São Paulo - 17,1 %
3º Seleção - 17,1 %
4º Outros - 11.8 %
5º Palmeiras - 10.5 %
6º Corinthians - 7,9 %
7º Vila Nova - 6,6 %
8º Flamengo - 5,3 %

Numa pesquisa divulgada em 07/07/2011, realizada pela SERPES apenas em Goiânia, eliminando os times de fora e comparando apenas os times goianos, temos as seguintes porcentagens:

Goiás – 26,73%
Vila Nova – 14,62%
Atlético – 9,40%
Outros – 7,70%
Não torcem/Não quiseram responder – 40,88%

Vale dizer que, no interior, a quantidade de Atleticanos é mínima, já que os torcedores deste estão ligados, basicamente, à região de Campinas. Os Vilanovenses também são muito poucos, devido à identificação do clube com a região do bairro da Vila Nova. De forma que, se formos considerar o Estado todo, e não apenas a capital, essa diferença de porcentagem se amplia ainda mais.

Outro aspecto interessante é se compararmos os times em si, independentemente de torcida. Num apanhado geral dos maiores clássicos do país, como Atlético-MG x Cruzeiro, Flamengo x Botafogo, São Paulo x Corinthians, etc. temos que o clássico entre Goiás x Vila Nova é o que ostenta as maiores diferenças. Dos jogos disputados, o Goiás venceu 165 e o Vila, apenas 65. A diferença é a maior do país – 70 vitórias a mais para o Goiás – estabelecendo o que se chamou de “A Maior Freguesia do Brasil”.


Fontes:

- http://pt.wikipedia.org/wiki/Campeonato_Brasileiro_de_Futebol_de_2011_-_S%C3%A9rie_A
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Campeonato_Brasileiro_de_Futebol_de_2011_-_S%C3%A9rie_B
- http://www.forumch.com.br/index.php?showtopic=3806
- http://www.serpes.com.br/pesquisa.aspx?ID=301

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Feeds





Um lance que eu curto bastante é poder acompanhar os blogs e podcasts que eu sigo diretamente do meu celular, no trânsito, ou num lugar chato onde eu esteja.

Para isso, é imprescindível um bom serviço de distribuição e um bom leitor de feeds. Para saber mais sobre isso, procure no Google. Vale à pena.

Para quem também curte e segue o blog, depois de muito trabalho, consegui estabelecer o link de feeds das postagens que rolam aqui. É só clicar no botão do íconezinho de RSS na barra ao lado.

Paralelamente, estou testando a publicação de podcast. De início, será apenas a versão em áudio dos artigos aqui publicados. Para quem se interessar, o link para subscrever (assinar) o feed do podcast também está no menu ao lado, já consertado.

Aguardo as críticas e sugestões!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Californikowski




Bukowski é o lado mal-humorado do rock'n'roll. Lendo um de seus livros, outro dia, me caiu a ficha: É ele quem está por trás de Californication. Aquela série do Tom Kapinos, da Showtime, com o David Duchovny protagonizando.

Charles Henry Bukowski

Charles Henry Bukowski foi um escritor nascido alemão, radicado nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles. Apesar de quase nunca tê-lo dito expressamente, era um fã ardoroso de L.A., tanto é que a cidade figura como personagem secundária em grande parte de sua obra literária.

O sucesso tardio alcançado por Bukowski (após os 40 anos de idade), advindo da publicação de suas ideias violentas e obscenas, rendeu-lhe o apelido de “velho safado”. E é o que imaginamos quando se fala no velho Buk: um cara ranzinza cheio de histórias absurdas sobre sua vida de bebedeiras.

Nesse ponto, podemos até compará-lo a Hunter S. Thompson, escritor americano ícone do chamado jornalismo “gonzo” e famoso pelo livro “Medo e delírio em Las Vegas”. Nesse estilo, frequentemente o próprio autor se junta aos personagens, numa mistura indistinguível entre realidade e delírio. É o que Bukowski faz, por exemplo, na série “Crônicas de um Amor Louco”.

Hunter S. Thompson

E o que Hank Moody tem a ver com isso? Além do próprio nome – Hank é um apelido frequente para Henry e “Moody”, numa tradução literal, significa “mal-humorado” -, basta assistirmos a alguns episódios de Californication para identificarmos o amor a Los Angeles, as obscenidades e confusões associadas a Bukowski e o tipo de “humor mal-humorado” que permeia as falas do Hank da vida real. A vinheta de abertura do programa, inclusive, é uma ode às tentações oferecidas por uma Los Angeles de excessos.

Há quem diga, inclusive, que o romance “Women”, publicado por Bukowski, traduza uma literalidade ainda maior entre seu protagonista, Henry Charles “Hank” Chinaski e o próprio Hank Moody.

E, a meu ver, é esse lado “gonzo” de Californication que hipnotiza as pessoas. Conviver com um personagem com um pé na realidade e que flerta com delírios obscenos e absurdos nos leva, ao mesmo tempo, a questionar os modos de vida instituídos como "padrão" pela sociedade atual, bem como a passear por esse mundo absurdo, para descansar um pouco de nossas vidas certinhas, sem ameaçá-la e sem ter que abdicar de nossa moral construída (e, muitas vezes, instituída).

Hank Moody

Eu não invejo Charlie Harper, um personagem (?) milionário, esbanjador, vazio, fruto do estilo hiper consumista norte-americano. Invejo Hank Moody, o escritor meio pobretão que se enrola em seus dramas pessoais e cria confusão para todo mundo mas que, inevitavelmente, carrega o lado rock'n'roll da vida no bolso, para quando as coisas estiverem chatas demais. E, frequentemente, elas estão.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O filho de político e a escola pública


Outro dia, o Senador Cristovam Buarque lançou em seu twitter oficial a indicação de uma notícia veiculada pelo Jornal do Brasil (disponível nesse link – http://bit.ly/jiOSq1). A notícia, assinada pelo repórter Júlio César Cardoso, dispõe sobre o projeto de lei 480/2007, de autoria do Senador, que tramita atualmente na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.


Em linhas gerais, o projeto propõe a obrigatoriedade de que os filhos de políticos brasileiros estudem em escolas da rede pública de ensino.


O pensamento do Senador é o seguinte: gasta-se milhões todos os anos com mordomias despudoradas dos parlamentares; a corrupção é cada vez maior, e nada se faz para combatê-la; a pouca verba destinada à cultura e educação é impiedosamente desviada. E, enquanto isso, a população pobre e o resto da nação sofrem com a falta de educação de qualidade. A solução seria fazer a classe política responsável por esta bagunça provar as consequências de seus próprios atos, obrigando seus filhos a estudarem em escolas públicas.


Os motivos apresentados são mais do que justos. Todos deveriam lutar pela melhoria das condições do ensino público que é, sem dúvida nenhuma, um lixo. O que se questiona é a medida que ele escolheu para combater todos esses obstáculos e atingir seu fim. Finalidade nobre, claro, mas passando o rolo compressor em cima do interesse público, como se fora o melhor aluno da classe em que leciona Maquiavel.


Dai você me pergunta: Mas o que ele está querendo não é justamente preservar o interesse público? Isso. Essa é a finalidade! O que eu estou questionando são os meios! Por mais nobre que sejam seus motivos, deve haver o cuidado com a preservação de outros interesses públicos. Afinal, a educação pública não é o único interesse público. Ainda existem a saúde, a segurança, a cultura e, principalmente, a liberdade.


Vamos falar um pouco sobre essa tal Liberdade.


Segundo Rousseau, depois que o primeiro homem cercou um punhadinho de terra e passou a chamá-lo de seu, os problemas sociais começaram. Antes, o “bom selvagem” convivia pacificamente com seus iguais, num sistema totalmente anárquico. Com o surgimento da propriedade privada, o convívio social tornou-se inviável. Era cada um brigando pelo seu. A figura do Estado surge nesse momento. Todos abrem mão de parte de suas liberdades em prol de um ser superior que, gerindo as liberdades individuais, atuaria em prol da liberdade coletiva. É o chamado Contrato Social.
Essa uma metaforização sobre como é possível a existência de um Estado a governar nossas vidas, sem que tudo desmorone. Ninguém gosta de bagunça. Dai o Estado organiza a vida social, com nossa concordância (ao elegermos nossos representantes, ao seguirmos as leis, etc...), desde que não ultrapasse um determinado limite e passe a entrar em nossas vidas (na minha casa, eu faço o que eu quiser, por exemplo). Pagamos impostos porque dependemos do Estado. Porque dependemos do convívio social pacífico. Porque o Estado precisa de receita para pagar seus funcionários, sua máquina, seus programas. E nós não só concordamos com isso, como queremos, somos dependentes disso.


Só para frisar: estou falando de vontade pública, não individual. Não é você, enquanto serzinho individual, que vai ditar a vida do país. Então, não adianta você dizer que é obrigado a pagar imposto contra a sua vontade e que não tem escolha. É o povo brasileiro quem diz que quer, ao continuar pagando, ao continuar obedecendo a esse tipo de sistema e a crescer dentro dele.


Dai, quando eu critico o projeto de lei do Senador não é porque sou contra o ensino público de qualidade. Acho importantíssima a preocupação do parlamentar com essa parte do interesse público e acho que, se mais pessoas estivessem, como ele, comprometidos, as coisas já seriam bem diferentes. Entretanto, o meio como ele quer atingir sua finalidade é, como mencionado no próprio artigo do Jornal do Brasil, inconstitucional por natureza. Isso porque ele passa por cima do Contrato Social. Ao defendermos esse tipo de projeto, estamos dizendo: “Estado! Nesse caso, você está autorizado a entrar na vida particular de um grupo de pessoas e tirar sua liberdade individual de escolha”. É o mesmo caso combatido arduamente pelos manifestantes da Marcha da Maconha, por exemplo. “O Estado não pode dizer o que eu faço ou não faço com minha própria vida”. Não podemos tolerar esses tipos de exceção, porque abrir precedentes é perigoso! Abrimos essa concessão agora e amanhã não conseguiremos argumentar contra outras invasões do Estado.


Por outro lado, o que é que o filho do político tem a ver com a estória? Considera-se que o ensino público é um lixo e ai, para penalizar o político, jogam os filhos deles lá. Que beleza de pensamento, hein? O político continua lá, com sua vida cheia de regalias, andando de TupperWare com ar-condicionado. E o filho dele, que não tem absolutamente nada a ver com o jeito eventualmente escroto do pai dele, leva na cabeça.


E ainda tem isso!! Já estamos incluindo todo mundo no mesmo bolo. Todo político é ladrão. Todo político não presta. E dai vamos penalizar todo mundo com a supressão de seus direitos de escolha. Inclusive o sr. Cristovam Buarque, apesar de toda a sua luta pela educação no Brasil.


A grande questão é que as pessoas querem combater uma injustiça social com uma injustiça política, ou constitucional, ou legislativa, que seja. Dizem que a população pobre não tem direito de escolha, já que não têm condições financeiras para estudarem em escolas particulares, então devemos suprimir o direito de escolha dos políticos também. Se você é rico, mas não é político, está perdoado. Ou seja: misturaram o problema social da pobreza com o problema social da corrupção!! E querem combater os dois com uma aberração legislativa contra a liberdade individual. Medida esta que não vai nem contribuir com a redistribuição de renda, nem com o combate à corrupção. Verbas continuarão a ser desviadas em outros cantos, pessoas continuarão a ser pobres noutro canto.


Pelo contrário, querem aproveitar o sentimento egoístico dos parlamentares para forçá-los a investir na educação pública. Em vez de combatermos nossa mentalidade mesquinha de querer puxar a sardinha para a própria brasa, NÃO! Vamos reforçá-la. Não queremos políticos que pensem no interesse social. Queremos políticos que pensem nos próprios umbigos mas que, coincidentemente, tenham os umbigos nos lugares que queremos.


De outra forma, acredito que ainda que seja implementado esse modelo, brasileiro que é brasileiro sempre dá um jeitinho. Quando discutiam-se as cotas para entrada nas universidades, um dos modelos seria privilegiar estudantes da rede pública. Quem estudasse em escola pública teria direito a entrar por cotas. Ouvi de um professor: “Legal. Vou colocar meu filho numa escola pública e pagar cursinho pra ele, paralelamente. Dai ele entra pelas cotas com vantagem ainda!”. E ai? Além de obrigar o filho do político a estudar na escola pública, também vão proibi-los de estudar em cursinho, de frequentar ensino superior público e outras coisas mais também? Político que é político coloca o filho na escola pública e paga um cursinho paralelamente. Ou outra medida maliciosa que resolva o caso da forma mais fácil.


O projeto do Senador Cristovam Buarque tem motivações nobres, mas não merece prosperar. E temos que ter essa consciência. A luta por melhorias deve ser feita todos os dias, por todos nós, ao escolhermos nossos candidatos nas eleições, ao lutarmos contra nossas pequenas corrupções, ao fiscalizarmos os parlamentares eleitos. Medidas como a do projeto são paliativas. Muito tentadoras, mas com poucos resultados práticos. Servem mais para desvirtuar um Sistema que luta para ser coeso (mas que tenta!) do que para atuar na raiz do problema.


A discussão está aberta (ainda bem!)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Tecla que falta no Teclado Brasileiro



O complicado da internet é a preguiça de se comunicar direito. Ao meu ver, é só isso. As pessoas realmente têm um pouco de preguiça de pesquisar, ir atrás e tudo mais. Mas ao mesmo tempo, temos preguiça de digitar, explicar direitinho o que queremos ou o que estamos respondendo. Isso, infelizmente, gera uma série de ambiguidades.

Imagine uma situação: Você está no MSN com alguém, dai essa pessoa te pergunta: “Onde eu acho um McDonald's aqui perto de casa?”. Dai você responde: “Se você googlear você acha”.


Dá para saber que tipo de humor você usou? Pode ser tanto de ajuda quanto de sarcasmo! E isso é uma peculiaridade da linguística brasileira. Me lembro da primeira vez que meu professor de inglês disse que, no exterior, as pessoas se comunicam por palavras. No Brasil, nos comunicamos com palavras e com tons de voz. Lá fora, é fundamental que saibamos utilizar todas as expressões idiomáticas “educadas”, porque não existe o jeitinho de pedir. O jeitinho de falar. Aqui, uma mesma frase pode ser dita com jeitinho, numa entonação simpática e agradável e também pode ser dita num tom extremamente rude e mal-humorado.


Na internet, não tem como ouvirmos o tom que a pessoa quis transmitir. E dai, a maioria interpreta como sendo o tom negativo. No caso do MSN, que eu citei ali em cima, o interlocutor pode interpretar sua resposta tanto como uma ajuda, quanto como sarcasmo. Ele pode entender a resposta: 1- “Olha, não sei, mas se você jogar no Google, com certeza vai achar um McDonalds perto de você.” ou então como 2- “Tá me achando com cara de lista telefônica? De guardinha de metrô? Já ouviu falar de um lance chamado Gúgou? SE VIRA!”.


No exterior, palavras bastariam. Mas, no Brasil, quando inventarem teclas para digitar frases com “jeitinhos” de falar, a comunicação vai ficar bem mais fácil!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre a Liberdade de Expressão





Um dia, Voltaire disse: “Não concordo com uma só palavra do que dizes. Mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. E, desde então, as pessoas vêm repetindo essas palavras incansavelmente, no decorrer dos séculos e séculos, muitas vezes sem entender o real sentido da expressão. É uma das frases mais pesquisadas e citadas no Google.

Na época em que a expressão foi usada pela primeira vez, a França enfrentava o auge do absolutismo. As pessoas comuns (leia-se, que não tinham nenhum título de nobreza, nem riqueza) viviam espremidas entre o cetro do rei e o peso da bíblia. De um lado, as espadas da guarda real, do outro, a ira divina. Era obedecer ou morrer e ir para o inferno. E Voltaire cunhou a expressão, defendendo a submissão à lei e o desapego às tradições e superstições. Todos, sem exceção, deveriam agir nos critérios impostos por uma lei anteriormente apresentada. Se o mais alto dos reis a desobedecesse, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'", nos dizeres do próprio iluminista.

Essa semana, o Supremo Tribunal Federal se pronunciou sobre a polêmica “Marcha da Maconha”. Depois de muito se discutir sobre a legalidade ou não do movimento, os reais e falsos objetivos, os envolvidos - e toda a poeira que se levanta sempre que alguém menciona a palavra “Maconha”- chegou-se à conclusão de que o movimento é legítimo e legal. No fim de todo o rebuliço, o STF se pronunciou respeitando o bom-senso: a “Marcha da Maconha” está em perfeita consonância com os ditames Constitucionais. E ai veio a chuva de críticas.

A primeira falha, ao meu ver, é no nome do movimento. "Marcha da Maconha"? Dá para entender errado mesmo. Tinha que ser "Marcha pela Regulamentação do Uso da Maconha", ou algo do gênero.

A nossa Constituição Federal, promulgada em 1988, logo após o regime ditatorial, é considerada por muitos como uma das maiores conquistas do povo brasileiro. Tem o apelido de Constituição Cidadã. E lá, está disposto de forma clara que é livre a manifestação de pensamento (art. 5º, inciso IV), bem como que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (art. 5º, inciso XVI). Ou seja, direito de livre expressão e livre reunião.

Inicialmente, cabe esclarecimentos de que as pessoas envolvidas na discussão de forma séria dividem-se em dois grupos: os que acreditam que problemas como o tráfico de drogas e de armas, a violência e a corrupção não estão sendo satisfatoriamente resolvidos de acordo com os sistemas de combate atualmente adotados. Assim, uma ampla discussão deve ser feita no sentido de se achar novas maneiras de combate e, uma dessas formas, seria a regulamentação do uso da maconha, seja para uso medicinal, seja para o controle efetivo do governo (meios de produção, distribuição, tributação, etc). O outro grupo defende que qualquer manifestação acerca da regulamentação da maconha, em qualquer circunstância, seria apologia ao crime, já que o uso de drogas está previsto como crime em lei específica. E defendem, obviamente, que a situação deve permanecer assim, já que consideram o uso da maconha como prejudicial à sociedade, à saúde e aos bons costumes.

No meio dessa salada toda, bagunçando, estão as opiniões preconceituosas e as oportunistas. Movimento de maconheiro de um lado. Movimento para a liberação da diversão do outro. Uns aproveitam para defender suas famílias, apontando o fim do mundo que desfila das ruas. Outros aproveitam para abastecer seus carregamentos e fumar em paz no meio da muvuca do calçadão de Ipanema.

Cada um pensando no seu próprio umbigo.

É como a Marina diz: O que não podemos esquecer é que os baderneiros (tá, grude seu rótulo, chame de “maconheiros”, “marginais”, se quiser. Que seja!) existem em qualquer movimento social e são seu calcanhar de Aquiles. Seja no MST, na Marcha da Maconha, nas torcidas organizadas, sempre vão existir pessoas desvirtuando esses movimentos. É onde surge o ponto fácil de ser criticado. E a opinião pública é manipulada (e, muitas vezes, manipuladora) em cima desses pontos fracos. Quem não se aprofunda no tema pode se apegar facilmente a essas “alças” de discussão e pré-fabricar sua opinião.

Enquanto isso, os verdadeiros problemas persistem.

O STF fez muito bem. Não estamos adentrando no mérito da questão: Legaliza ou não? Libera ou não? Discriminaliza ou não? A questão não é essa. O fato é que, sendo um movimento pacífico, que prega a discussão de um problema social grave, em perfeita consonância com a Constituição, todo mundo deveria defender até a morte o direito das pessoas em participar ou não da manifestação, mesmo que não concorde de maneira alguma com o que está sendo dito. Ou você faz isso, ou então para de ficar citando Voltaire, pelo amor de Deus, já que você não concorda com ele.

SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA: A dificuldade em se cumprir a lei, pelo Estado, está na mentalidade absolutista dos administradores. Mas por parte da população, está na submissão a tradições, superstições, fanatismos e costumes, muitas vezes arcaicos. Não basta que a lei evolua. A mentalidade das pessoas, suas crenças e tradições, também devem crescer. Não adianta termos a legislação mais avançada do mundo, se as pessoas continuam se esquivando dos problemas para andar em suas Tupperwares (lê-se Táper Uéres! HeuEHUe) com ar-condicionado, vivendo em suas penitenciárias privadas. Levando um susto toda vez que alguém fala “Maconha”, ou “Força Jovem” ou “MST”. Era exatamente contra isso que Voltaire lutava, lá na França do século XVIII – e enfrentaria dificuldades até hoje, talvez maiores ainda!

É fácil empurrar a sujeira para baixo do carpete. É confortável não tocar na ferida, quando a parte ruim do problema não te atinge. E é fácil citar Voltaire pra cima e pra baixo, achar bonito, colocar na folha de rosto do trabalho de conclusão de curso. Realmente acreditar no que está dizendo e colocar em prática, é outra história. Falar e não fazer se chama preguiça. Ou hipocrisia. Você escolhe.

Aposto que, depois de ler esse texto, vai ter gente me chamando de maconheiro. Mesmo eu nunca tendo usado qualquer tipo de droga. Nem pretendendo fazê-lo. Pra você ver como funciona a coisa.