terça-feira, 19 de julho de 2011

Californikowski




Bukowski é o lado mal-humorado do rock'n'roll. Lendo um de seus livros, outro dia, me caiu a ficha: É ele quem está por trás de Californication. Aquela série do Tom Kapinos, da Showtime, com o David Duchovny protagonizando.

Charles Henry Bukowski

Charles Henry Bukowski foi um escritor nascido alemão, radicado nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles. Apesar de quase nunca tê-lo dito expressamente, era um fã ardoroso de L.A., tanto é que a cidade figura como personagem secundária em grande parte de sua obra literária.

O sucesso tardio alcançado por Bukowski (após os 40 anos de idade), advindo da publicação de suas ideias violentas e obscenas, rendeu-lhe o apelido de “velho safado”. E é o que imaginamos quando se fala no velho Buk: um cara ranzinza cheio de histórias absurdas sobre sua vida de bebedeiras.

Nesse ponto, podemos até compará-lo a Hunter S. Thompson, escritor americano ícone do chamado jornalismo “gonzo” e famoso pelo livro “Medo e delírio em Las Vegas”. Nesse estilo, frequentemente o próprio autor se junta aos personagens, numa mistura indistinguível entre realidade e delírio. É o que Bukowski faz, por exemplo, na série “Crônicas de um Amor Louco”.

Hunter S. Thompson

E o que Hank Moody tem a ver com isso? Além do próprio nome – Hank é um apelido frequente para Henry e “Moody”, numa tradução literal, significa “mal-humorado” -, basta assistirmos a alguns episódios de Californication para identificarmos o amor a Los Angeles, as obscenidades e confusões associadas a Bukowski e o tipo de “humor mal-humorado” que permeia as falas do Hank da vida real. A vinheta de abertura do programa, inclusive, é uma ode às tentações oferecidas por uma Los Angeles de excessos.

Há quem diga, inclusive, que o romance “Women”, publicado por Bukowski, traduza uma literalidade ainda maior entre seu protagonista, Henry Charles “Hank” Chinaski e o próprio Hank Moody.

E, a meu ver, é esse lado “gonzo” de Californication que hipnotiza as pessoas. Conviver com um personagem com um pé na realidade e que flerta com delírios obscenos e absurdos nos leva, ao mesmo tempo, a questionar os modos de vida instituídos como "padrão" pela sociedade atual, bem como a passear por esse mundo absurdo, para descansar um pouco de nossas vidas certinhas, sem ameaçá-la e sem ter que abdicar de nossa moral construída (e, muitas vezes, instituída).

Hank Moody

Eu não invejo Charlie Harper, um personagem (?) milionário, esbanjador, vazio, fruto do estilo hiper consumista norte-americano. Invejo Hank Moody, o escritor meio pobretão que se enrola em seus dramas pessoais e cria confusão para todo mundo mas que, inevitavelmente, carrega o lado rock'n'roll da vida no bolso, para quando as coisas estiverem chatas demais. E, frequentemente, elas estão.

3 comentários:

  1. Bom não sei se você vai chegar a ler este comentário, pois bem, a começar parabéns essa foi a melhor analise de Californication, que eu vi, ao menos sobre esse respeito, genial também o titulo Californikowski não sei como nunca pensei nisso antes. A Minha opinião tanto como leitor de Bukowski quanto fã assíduo de californication é que os Hanks são bastante parecidos sim em certos pontos enquanto totalmente diferente em outros, a começar que o Hank de Californication é menos amargo que o Hank da literatura, ele é tão triste ou amargurado quanto só que Hank em californication tem a Karen, que o mantém com os pés no chão, ele é só um cara tenta fazer as coisas certas enquanto cai em tentações pelo caminho, um cara que disse não, que não se rendeu a ideia de acordar todas as manhas e por um terno para trabalhar, um cara que realmente leva o lado do Rock consigo e que no final tem um grande coração, as pessoas admiram o Hank Moody (ao menos as que gostam de Californication) porque elas sentem que querem as vezes só dizer foda-se e se render a as tentações viver a vida como Rock'N'Roll quando sabem que não podem ou não tem coragem pra isso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado, primeiramente! Concordo com você. Em vários aspectos, os "Hanks" são bem diferentes. O lance de o Moody ter uma filha e um amor na vida acabou puxando ele pra um destino menos sombrio que o do Chinaski. E o Moody não aposta em cavalos hehe. De qualquer forma, acho que esse foi um artifício para tornar a série mais "digerível". Imagine as aventuras do Chinaski cru, sem filtro, entrando na casa dos americanos médios hahahaaha. Quanto a mim, continuo fã dos dois! Abraço!

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir