segunda-feira, 21 de julho de 2014

Uma História de Duas Cidades



É engraçado como, assim como pessoas, também cidades que param no tempo parecem carregar o peso dos anos. As agonias de questões mal resolvidas, dramas, melancolia e tudo mais... As "poleis" respiram como nós.

Voltei a Anicuns há uns meses atrás, onde morei quando tinha uns 11 ou 12 anos de idade. Saí de lá triste, melancólico, porque a cidade parecia abandonada! Não abandonada de gente, mas abandonada das pessoas que moravam lá quando eu também morava. Os prédios e casas eram os mesmos de 18 anos atrás, mas sem escolas funcionando, academias, vizinhos, vendedores, professores. Eram fantasmas de concreto. Pouca coisa mudou em todo esse tempo - talvez pela proximidade de Goiânia (cerca de 1 hora de carro). Não sei.

E essa semana, voltei a Posse, onde morei quando tinha 10 anos. Apesar de todos os dramas pessoais de conhecidos meus que viviam aqui, a cidade não parou. Dá pra reconhecer muita coisa de 19 anos atrás, mas as vendinhas viraram supermercados! As escolas se desenvolveram! Ruas novas, praças novas, prédios novos! Lotes antes baldios agora ostentam pizzarias, escritórios. Existe gente crescendo e fazendo as coisas diferentes por aqui. A cidade parece jovem, atlética, bem disposta! É uma cidade com personalidade própria, que não precisa da minha infância para existir - talvez, ao contrário de Anicuns. Eu moraria aqui hoje, tranquilamente (exceto pela distância de quase 600 km de Goiânia). Pelo meu sentimento quando fui a Anicuns, imaginei que, quando voltasse a Posse, me sentiria bem pra baixo. Pelo contrário! Bate uma saudade boa da infância - bicicleta, goiaba, acampamentos, futebol, a sequencia mágica da TV Cultura (Os Anjinhos, Castelo Rá-Tim-Bum, O Mundo de Beakman e Doug/Tim Tim). Mas não vi fantasmas.

Ainda bem porque, pelo "timing", não seria uma boa hora para se apegar ao passado.

domingo, 13 de julho de 2014

Dia Brasileiro do Rock







13 de Julho, Dia Mundial do Rock. 

Combinaram esse dia porque o primeiro Live Aid foi organizado em Londres nessa data, em 1985, com o objetivo de arrecadar fundos para o combate à fome na Etiópia. Mas deu tanta gente bacana, tanta banda foderástica, que o significado foi ampliado. Elvis Costelo, Sting, Bryan Ferry e David Gilmour, U2, Dire Straits, Queen, The Who, Zeppelin, Clapton, B.B. King, Elton John, Paul McCartney, Keith, Mick e Ronnie dos Stones... O Phill Collins lançou que a coisa deu tão certo, que aquele poderia até ser considerado como o dia mundial do rock. Deu a dica.

Junta-se a isso o fato de que a primeira apresentação dos Rolling Stones, no n. 90 da Wardour Street de Londres (o lendário Marquee Club), foi realizada na madrugada do dia 12 para o dia 13 de julho de 1962. Depois da deixa do Phill Collins, a galera toda não achou nenhum pouco ruim cravar a bandeira na data. Peso não faltava.

Agora, o interessante é que quem decidiu isso tudo não foi o Phill Collins, nem ninguém dos Rolling Stones. Ali no início de 1990, duas rádios do segmento rock paulistano (a 89 FM e a 97 FM - esta última, nos dizeres absolutamente fundamentados do Kid Vinil, atualmente traidora do movimento) resolveram jogar as palavras do Collins na pista pra divulgar suas programações e a coisa pegou!

Sim, senhoras e senhores! O Dia Mundial do Rock é criação brasileira! O "contra" disso é que só é comemorado no Brasil, hehe. A maioria dos outros países simplesmente ignora a data e não separa qualquer ocasião para celebrar os nossos heróis. 

----------------

Nessa mesma data, comemora-se o primeiro gol na história das Copas do Mundo, pelo jogador francês Lucien Laurent, o primeiro álbum do Sinatra e a segunda brasileira Miss Universo. No Brasil, ainda celebra-se nessa data o dia do Engenheiro de Saneamento, o nascimento do Estatuto da Criança e do Adolescente e do João Bosco.

Dia cheio!

=>  Kid Vinil no Whiplash: http://whiplash.net/materias/news_861/111549-kidvinil.html

quinta-feira, 10 de julho de 2014

AC/DC sem o Malcom... será que dá liga?




Quando eu ouvia falar em AC/DC, há uns 10 anos atrás, a única coisa que vinha na minha cabeça eram as calças atochadas do Bon Scott. Eu não conhecia quase nada - não sabia nem que Highway To Hell era deles, para ser bem sincero. Já conhecia uma boa parte da obra dos Rolling Stones, Led Zeppelin, Guns, Iron, Black Sabbath, e etc e tal... mas minha virgindade com esses australianos durou mais do que o recomendável.
Dai que nem fiquei constrangido quando, algum tempo depois, meu amigo Daniel Rodrigues me corrigiu, dizendo que quem tinha criado todos aqueles riffs fabulosos era o Malcom, não o Angus (eu achava que o Angus fazia tudo na banda). A gente fica de olho só no baixinho vestido de colegial, DESTRUÍNDO a Gibson SG, e esquece de reparar no outro baixinho tímido, mas com um potencial de destruição tão grande quanto. Tire o Malcom, e você tira os trilhos onde a Locomotiva Angus apita.
Daí que o AC/DC oficialmente declarou essa semana que finalizou os trabalhos de gravação do próximo álbum, ainda sem nome definido. Sem o Malcom.
Já é um pouco intrigante a banda ter conseguido continuar suas atividades desde que ele anunciou seu afastamento, no início do ano... Pra falar bem a verdade, nessa bagunça de informações desencontradas - de um lado, a imprensa decretando o fim do AC/DC, de outro, alguns membros da equipe deixando vazar a possibilidade de uma nova turnê em 2014 - o que eu consigo ver é Angus, Cliff e Phil totalmente silenciosos, imersos nesse clima melancólico pós-Malcom. Não é como se ele tivesse morrido, mas pôxa! Pro cara ter pedido demissão daquilo que foi seu projeto de vida, podemos temer por algo ruim.
Enquanto isso, Brian Johnson parece ser o único empolgado. Talvez um pouco além da conta. Vai saber.
Todo mundo sabe que quando Bon Scott (vocalista original) morreu, a contratação do Brian pareceu loucura - até que o quinteto ressurgiu com o excepcional "Back In Black". Estavam de volta, mas vestidos de preto. Os sinos batendo de modo fúnebre na abertura de Hells Bells, como num cortejo, finalizavam a homenagem a Bon. Mas dai agora o Brian aparece todo empolgado, dizendo que quer colocar o nome do novo álbum de "Man Down"? De um mau gosto tremendo. E, a meu ver, deixa a dúvida sobre as reais intenções do Johnson.
Não que o AC/DC tenha que parar. Dizem que o Steve Young, sobrinho dos irmãos Young, conseguiu suprir um pouco a lacuna deixada nas guitarras base. Mas daí para querer explorar a dor da família Young, criando essa pseudo-homenagem de mau gosto, como se o cara já estivesse morto? Vamos ver o quê que vira.
Torço para que o AC/DC não vire o projeto de um cara só, e que o Brian não contraia a famigerada LSD - Lead Singer`s Disease. Poucos se salvaram até aqui.



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Sobre "I Want You (She's So Heavy)", dos Beatles




Depois que o rótulo de "Reis do iê-iê-iê" pegou, os Beatles poderiam muito bem ter vivido e sobrevivido o resto de suas vidas apresentando suas baladas marcantes, suaves, inocentes, com pouca variação instrumental. Se hoje existe uma galera que faz isso, sobrevivendo de beijos no ombro, camaros amarelos e a porcaria toda, imagina no caso deles, que haviam criado o suficiente para refazer o curso da história musical - ainda que, analisados hoje, hits como "Love me Do" e "She loves you" pareçam fracas em letras e arranjos. Eram figurinha batida nos #1 de rádios do mundo todo.

Mas o mais legal é que, rebelando-se contra a própria tendência que criaram, o quarteto de Liverpool se reinventou por diversas vezes. Em 1969 , a dupla Lennon-McCartney lançou essa coisa maravilhosa chamada "I Want You (She's So Heavy)", última faixa do Lado A (ou, como dizem alguns, 'Lado Lennon' - em contraposição ao Lado B/McCartney) do disco "Abbey Road", que ainda tinha "Come Together", "Something" e "Here Comes The Sun" (para não mencionar "Golden Slumbers" "Carry That Weight" e "The End"). Imagina gravar um disco desses!!


Essa canção abriu os trabalhos de gravação do disco que marcaria a última vez em que John, Paul, George e Ringo estiveram juntos em um estúdio.

Especificamente sobre "I Want You", existe, implícito na letra, forte influência de Yoko Ono e de heroína - ambas em início de relação com John Lennon. O resultado é considerado como a primeira música de heavy metal de todos os tempos - mas dá pra sacar também um bom punhado de rock progressivo e até uns fiapos de grunge à la Pearl Jam.

Escutando até o fim, incomoda muito a parada abrupta antes do fim. Incomoda mesmo! Tipo, "parou por quê, meu?" Causou polêmica na época, mas a edição final foi feita assim de propósito pelo Lennon (Ele teria pedido pra cortarem exatamente aos 7 minutos e 44 de música. Mas há quem diga que o rolo de gravação acabou, e ficou por isso mesmo), o que de certa forma reflete as ideias meio esquisitonas e inovadoras que pairavam.

Slash incluiu os riffs dessa música entre os 10 melhores de todos os tempos, segundo suas influências.

Lennon nos vocais principais. The Beatles, ladies and gentlemen.




I Want You (She's So Heavy)
Lennon / McCartney

I want you 
I want you so bad 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

I want you 
I want you so bad, babe 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

I want you 
I want you so bad 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

I want you 
I want you so bad, babe 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

She's so heavy 
heavy, heavy, heavy, heavy 

I want you 
I want you so bad 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

I want you 
I want you so bad, babe 
I want you 
You know I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

Yeah, she's so heavy 
heavy, heavy, heavy, heavy 

I want you 
I want you so bad 
I want you 
I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

I want you 
I want you so bad, babe 
I want you 
You know I want you so bad 
It's driving me mad 
It's driving me mad 

She's so"




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pois é... Pra quê?





A Copa do Mundo chegou e, com ela, conforme previsto, a onda de protestos. Uma das poucas coisas em que não houve atraso. É engraçado notar que o brasileiro geralmente protesta da mesma forma que torce. Como o futebol é o esporte com mais força no país, acaba identificando-se, em cada manifestante, um torcedor apaixonado. De longe, ouvimos gritos de “ÔÔÔ, o Joaquim julgou! O Joaquim julgou!” ou “Arranja outro deputado pra votar na nossa linha”, “Fulano Ladrão! Porrada é a Solução!”. Rimas pobres, entrosamento momentâneo, ausência de profundidade. No fim, claro, xingam o juiz - ou a Presidenta - mandando-o ir para algum lugar obsceno.

Mais do que falta de criatividade e desrespeito, isso evidencia um ato falho desconcertante.

A mentalidade brasileira, quando se trata de discussão política, ainda beira o infantil. Não é à toa que o Romário hoje é deputado, o Sílvio Santos cogitou a carreira política (e, de acordo com as pesquisas da época, prometia dar trabalho na disputa presidencial) e que Ayrton Senna ganharia qualquer eleição fácil, para qualquer coisa a que se candidatasse. Ou que, mais recentemente, muita gente queria ver o Ministro Joaquim Barbosa como chefe do Executivo – sem perceber que ele já era um dos três maiores líderes da nação. Somos o país da novela e do futebol. Nossos pontos de vista se dividem entre os a favor do herói e os contra o vilão. Time nosso, contra time adversário. E se resume a isso: um “maniqueísmo jardim de infância”. O lado bom é santo e deve ser presidente do país (seja ele carteiro, escritor, jogador de futebol, piloto de F-1 ou apresentador de programa de auditório). O lado mau é o de quem discorda (nunca é o seu!), e deve morrer, ir para o inferno, ir tomar em algum lugar (ou ser xingado de reacionário, esquerdinha, coxinha, “direitona”, marginal, vândalo, etc – o que quer que essas palavras signifiquem, na cabeça de quem xinga). Não existe meio termo e isso, infelizmente, acaba com qualquer discussão.

Não que não existam motivos para críticas e manifestações. Principalmente em se tratando de Copa do Mundo. Análises superficiais sobre todo o processo que envolveu desde a escolha do Brasil como sede até a festa de abertura, no dia 12 de junho, em São Paulo (e, muito provavelmente, englobará a festa de encerramento também), já escancaram uma série de amadorismos por parte do governo - em todas as esferas - e de entidades privadas responsáveis pelo evento. O protesto é sempre cabível. Mas existe um milhão formas de se protestar. E exatamente por isso, acho grave o ato falho do povo brasileiro: dentre um milhão de formas, escolheram os gritos do futebol. Tá na cara que, se for só assim, não vai dar em nada.

No jogo de estreia da Copa, por exemplo, escolheram xingar a Presidenta. O jeito mais chulo, sem-razão e abarrotado de senso comum que existe: a falta de educação. Num estádio superfaturado, onde morreram 8 operários por falta de segurança no desempenho dos trabalhos – segurança essa que faltou por ganância ou comodismo de empresas privadas – centenas de pessoas que provavelmente sonegam seus impostos, defendem a violência contra fiscais de trânsito e trombadinhas e cortaram fila pra entrar mais cedo no estádio gritam, estapafurdiamente, desaforos inócuos a uma pessoa que, independentemente de partido, classe social ou sexo é um semelhante. Mais do que isso, xingaram a Chefe do Poder Executivo do nosso próprio país. A questão esbarra em aspectos institucionais que passam muito longe da percepção de quem xingou: existe, disfarçado no ato, uma insubordinação à própria organização política do país, uma ofensa a princípios democráticos conquistados à muitas custas. E o fato de as mesmas bocas que cantaram o hino nacional apaixonadamente alguns minutos atrás, chorando junto com Júlio César e David Luiz, serem protagonistas de tais impropérios escancara o quanto estamos perdidos em nossas reivindicações.

O brasileiro não sabe, ainda, distinguir um argumento racional e verossímil da birra clássica do “quero e não posso ter”. Um comportamento infantil, de quem ainda precisa aprender a lidar com a frustração eventual, inerente a processos democráticos, para tentar influir de maneira positiva – ainda que radical, vez ou outra – na vida política do país. Por enquanto, o que vimos foi um chilique maciço de pessoas vergonhosamente mandando a chefe do executivo ir tomar em algum lugar, do mesmo jeito que fazem os torcedores de um time de futebol que sofre pênalti. Enquanto for assim, estaremos sempre na atitude passiva de torcedores sem educação e o juiz vai continuar mandando no jogo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Para encerrar o assunto sobre MÚSICA SERTANEJA (parte final)






É interessante como não existe um estilo musical mais maltratado do que o sertanejo, no Brasil.

Um pseudo-sertanejo, falso, raso e mal feito foi desajeitadamente colocado como continuação daquele antigo, tradicional, ofuscando-o.

Se formos parar para pensar, de certa forma aconteceu isso com todos os estilos, no decorrer dos tempos. Porcarias sempre existiram, sempre vão existir, dentro de qualquer gênero musical que seja. Mas, a meu ver, a situação da música sertaneja é um pouco pior. Minha preferência é o rock, de maneira que me doem os ouvidos quando ouço uma banda como o Restart aparecer na televisão, dizer que tem influência de Black Sabbath, ganhar um prêmio qualquer de “Revelação Rock” e sair gritando “O rock não morreu” no microfone (Nessa hora, o Lobão parece ter acertado... O rock errou. E feio!). Mas ninguém acredita nessa baboseira – vendam eles quantos milhões de discos quiserem. O rock praticamente nunca foi marginalizado – sempre teve uma atitude rebelde, anti-sistema, o que é diferente. Mas, em qualquer lugar do mundo, o rock tem o seu espaço garantido.
Já com o sertanejo, a situação é diferente. O estilo sempre brigou com gêneros urbanos. Nunca teve o devido reconhecimento e, por vezes, foi taxado de brega, antiquado (porque, sejamos honestos: na maior parte das vezes era mesmo). Enfim, brigou bastante para conquistar seu espaço e, quando estava em vias de conseguir, foi ofuscado por uma farsa. Playboys apropriaram-se do palco e o crescimento do gênero autêntico ficou estagnado – ou foi desviado de modo bem troncho.

Veja a linha de evolução das coisas, a meu ver:

1. Anos 1920 - Começou com as Folias de Reis, depois Cornélio Pires oficializou a entrada no mercado.
Tonico e Tinoco - Pioneiros
2. Anos 1940 - Passa Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho e a consolidação das grandes duplas de raíz. Lá com a turma do Tião Carreiro, a coisa deu uma profissionalizada, com a melhoria das vozes e adição de mais instrumentos.
3. Anos 1960 - Milionário e José Rico deram uma “embregada” na coisa, exaltando o lado “dor de cotovelo”, dando ares de música mariachi com bolero (aqui, aparece uma curva suave na trajetória do estilo). Vêm Mato Grosso e Mathias, João Mineiro e Marciano, etc.
4. Anos 1970 – O sertanejo adota uma postura mais moderna. Sérgio Reis, Renato Teixeira e Léo Canhoto e Robertinho trazem influências do MPB e do rock, metaforizando, de certa forma, a inserção do homem do campo na cidade.
5. Anos 1980 – Chitãozinho e Xororó, no início dos anos 80, pegam carona no lado brega e deixam a marca inevitável das vozes em falsete (aquele alarido que incomoda o ouvido em “Evidências”). Começamos a ver o aumento da separação entre cantores e compositores, bem como a supervalorização das regravações. Pela primeira vez, a segunda voz se torna efetivamente secundária (na música caipira de raiz, dupla era dupla. Não havia distinção de importância de vozes).
6. 1985 - Metade dos anos 80, entra Leandro e Leonardo, com novos falsetes e a supervalorização da dor de cotovelo (curva acentuada nos trilhos da evolução). Inauguração da arena do “Os Independentes”, em Barretos, e a explosão da cultura western/country no meio sertanejo.
7. Anos 1990 - Inicio dos anos 90, vem a turma o Zezé di Camargo e Luciano e Chrystian e Ralf, pra eternizar os “Amigos” e marcar de vez, em nossas almas e ouvidos, o poder das vozes em falsete. Entram as calças jeans atochadas. O Sertanejo ganha de vez a Globo.
8. 1995 - Metade dos anos 90, o estilo “embrega” de vez. Aparecem as primeiras músicas “zoeira”, com César e Paulino, Guilherme e Santiago, “Enrosca, enrosca” e o tira e põe de carros nas garagens das vizinhas. O estilo, que já era marginalizado, toca praticamente só nas rádios AM de ônibus coletivos e vira sinônimo de decadência. (ladeira abaixo na evolução. O sertanejo respira por aparelhos).
9. 1999 - Fim dos anos 90, Bruno e Marrone começa a tocar no carro dos playboys. As orelhas dos empresários do ramo se levantam. O estilo volta a parecer economicamente viável. A mudança do público gera um rebuliço enorme. Os nomes de dupla antigos saem de moda e as duplas começam a adotar nomes urbanos. A Festa do Peão de Barretos começa a voltar a ficar chique.
10. Anos 2000 - Victor e Léo, Edson e Hudson, Fernando e Sorocaba, João Neto e Frederico, dentre diversos outros, consolidam a música sertaneja entre faixas etárias mais jovens, inserindo o gênero como obrigatório nas baladas. Existe uma explosão de duplas pelo Brasil afora. A temática das músicas é praticamente sobre relações amorosas. A criatividade some, e tanto as músicas quanto os nomes de duplas começam a se repetir, em combinações óbvias (Victor e Neto, Léo e Frederico, etc). O quadradinho mágico das trastes do violão (Bm, G, D, A e derivações) entra de cabeça para o circuito. O público cada vez mais jovem inspira a denominação de “sertanejo universitário” ao estilo – em contraposição ao “sertanejo tradicional” ou “de raiz”.
11. 2008 - Luan Santana aparece como uma mistura de Sandy & Júnior com Amado Batista: a quebra efetiva no padrão de duplas, demonstrando a viabilidade do cantor solo. Acompanhado por Gusttavo Lima, Eduardo Costa, Cristiano Araújo, Paula Fernandes, Michel Teló, dentre outros. O público abrange idades ainda mais precoces.
12. Atualidade - A falta de criatividade chega ao ápice. A temática aborda festas, esbórnia, cachaça e um sem número de onomatopéias (tchu tchu, tchererê, parapapá, etc). Exceto pela sanfona, não existe mais nenhum elemento em comum com o antigo gênero. As regravações são apenas de excertos das antigas canções – falta paciência para cantar tudo.

Logicamente que os movimentos paralelos sempre existiram. Sérgio Reis, que saiu da Jovem Guarda para se dedicar à musica sertaneja, continua gravando e fazendo shows. Almir Sater e Renato Teixeira, apesar de meio sumidos, continuam na ativa (o filho do Renato, Chico Teixeira, inclusive, se lançou no mercado em 2011, com a proposta de resgatar o sertanejo de raiz). Milionário e José Rico e os sertanejos urbanos também.

Mas percebe-se que todos eles estão à margem de todo o processo. Foram endeusados e engessados na parede do tempo. Os sertanejos da atual geração possuem verdadeira devoção a esses antigos ícones, desde que estes não se intrometam. Ou, quando interagem, a sensação é a de que pertencem a categorias distintas. Chitãozinho e Xororó cantando com Luan Santana, é como Roberto Carlos cantando com Jorge Aragão, ou como Dinho Ouro Preto dividindo o palco com Mart'nália. Guardadas as devidas proporções e o devido respeito a quem merece, claro.

Villa Mix - o Templo "Sertanejo"

O sertanejo definitivamente não é um gênero que eu aprecio. Mas sempre respeitei os artistas e as obras pertencentes a esse estilo. Sem dúvida nenhuma, fazem parte da cultura nacional, da nossa identidade. Mas é fácil constatar que o que hoje se produz em larga escala não passa de um embuste. É necessário respeitar sempre a liberdade de escolha de quem gosta. Mas não venha me empurrar como sertanejo, que eu não compraria nem se fosse mesmo.

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 06)


Atualmente – Gusttavo Lima



O Pedro Henrique, amigo meu que tem certas informações privilegiadas, um dia me disse: “Anota ai, o próximo nome de sucesso da música sertaneja vai ser Gustavo Lima”. Acho que, no início, escrevia com um “t” só (o que já escancara a intenção de que colocou essa letra extra ai). Dai ele ofereceu cds grátis do tal Gustavo e de outros tais Humberto e Ronaldo. Cds estes que recusei, educadamente. Menos de 6 meses depois, Gustavo Lima e Humberto e Ronaldo eram a sensação no Faustão.

Na época, o sertanejo universitário já estava bombando, o cenário parecia abarrotado de artistas meia-boca. A afirmação dele me soou pretensiosa, principalmente porque eu achava que não cabia mais tanta coisa ruim no mundo. Mas coube.

Nem existe muita coisa a ser dita sobre esses artistas da nova geração. Exceto que são fruto pura e simplesmente de artimanhas mercadológicas de empresários do ramo. Tudo bem que os caras são até talentosos, mas a verdade é que isso não conta muito para ganhar dinheiro, nesse caso. Em poucos meses, qualquer dupla (ou artista) que contrate um bom empresário pode estourar nas rádios – vide o tal Israel Novaes, uma verdadeira LÁSTIMA (inclusive de talento). 
Diz que é sertanejo

Por esse motivo, a velocidade de produção de hits tem que ser alta. Afinal, o importante é chegar logo na mídia. Ter música pronta pra ser lançada no Carnaval, no Caldas Country, no Villa Mix. Não interessa se é boa ou ruim. Entra ai, inclusive, a importância das onomatopéias: fáceis de fazer, mais fáceis ainda de decorar.

Nem precisa lembrar que, a essa altura, a temática e o instrumental já estão totalmente dissociados da música caipira de raiz. Aliás, esses caras que estão ai nem se interessam tanto pelas raízes assim. Não fazem questão de usar as roupas características, de tocar viola e sanfona, de falar sobre elementos do campo. Nem de cantar fazem questão – sobram playbacks. A segunda voz, geralmente, é fraca – está ali só para caracterizar a configuração visual de “dupla”.Quando existe.

Dá uma olhada na beleza que é essa letra:

Balada Boa (Tchê Tchê Rê Rê)
(Gusttavo Lima)

Eu já lavei o meu carro
Regulei o som
Já tá tudo preparado
Vem que o reggae é bom

Menina fique à vontade
Entre e faça a festa
Me liga mais tarde,
Vou adorar, vamo nessa

Gata me liga
Mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Até o sol raiar

Gata me liga mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Que hoje vai rolar

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

(Repete)
Se você me olhar vou querer te pegar
E depois namorar, curtição
Que hoje vai rolar

Gata me liga
Mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Até o sol raiar
(2x)

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você


Cara, não adianta. Não me convence.


Principais artistas do período: Gusttavo Lima, Luan Santana, Paula Fernandes, Michel Teló, Humberto e Ronaldo, Maria Cecília & Rodolfo, Thiago Brava, Lucas Lucco, Israel Novaes

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 05)


 

2000 – Bruno e Marrone



No meu universo, o sertanejo universitário começou com um professor do ensino médio. Não foram os estudantes, muito menos universitários. Esse professor meu de física da oitava série estava desenvolvendo um trabalho de laboratório e precisava de alunos que se voluntariassem a ajudá-lo durante as aulas. Eu era um desses. Um dia, quando fui colocar os materiais das aulas no porta malas do carro dele – pipetas, beckers, calculadoras científicas e toda essa parafernália - o professor soltou essa: “Sei que você é do rock, então vou colocar um som especialmente pra você”. E bombou um Bruno e Marrone, no último volume.

Confesso que aquilo me causou certa vergonha. Alheia e própria. Mas me chamou a atenção o fato de ele ouvir aquilo sem constrangimento. Quer dizer, Zezé, Chitão e Leonardo ainda eram bregas. Mas Bruno e Marrone, não! O sertanejo havia começado uma invasão abrupta e devastadora nos carros de playboy (inclusive nos professores playboys)!

Exatamente! Bruno e Marrone são os culpados pelo sertanejo universitário. Se tiver que jogar pedra na casa de alguém, é na deles. As grandes produções sertanejas, com músicos de primeira linha e orçamentos altíssimos já existiam, claro – os chitões que começaram. Mas, de maneira bem interessante, a elitização do sertanejo foi iniciada com a gravação do "Acústico Ao Vivo" do Bruno e Marrone, em 2001 - justamente o que meu professor colocou pra tocar. (Vale uma menção honrosa, também, a dupla Rio Negro & Solimões, que em 1998 inseriu a batida tecno na música “De São Paulo a Belém” e instalou a ambiguidade em nossos ouvidos.).

Aliás, ressalte-se que antes desse acústico, os próprios Bruno e Marrone só faziam sucesso entre as classes mais baixas, desde 1994. São eles os responsáveis por um fenônemo até então inédito: ficaram famosos antes de saírem na mídia de massas. Os primeiros álbuns que gravaram se tornaram bastante populares entre os vendedores de disco pirata. A pirataria foi a grande aliada da dupla – que vendia milhares de álbuns sem nunca ter ido sequer no programa do Túlio Isac (Ganhooooouuuuuuu!).

Esse foi o vírus
Para coroar, em 1999, a dupla participou de um especial para uma rádio em Goiânia. Esse especial vazou e foi comercializado clandestinamente como “Bruno e Marrone Acústico”. Vendeu milhões em todo o Brasil. O sucesso foi tamanho que a gravadora resolveu oficializar o disco, e o lançou com uma qualidade superior no mesmo ano. Vendeu outras mais de 500.000 cópias.

No ano seguinte, veio o Acústico Ao Vivo, com o lançamento do DVD do show. E, com ele, a consagração definitiva, porque paralelamente, surgiam os primeiros aparelhos de DVD automotivo – apenas nos carros dos playboys. Como não era moda o lançamento de shows em vídeo, a única coisa que a playboyzada tinha para ouvir e ver nos carros era o som do momento – Bruno e Marrone Acústico (tá, esse fim foi por minha conta – mas explica muita coisa).

O fato é que, depois disso, a coisa se espalhou igual a notícia ruim. Surgiram diversas duplas novas, a maioria lançando a carreira com discos acústicos e ao vivo, acompanhadas de DVD. Inclusive hoje é fácil achar na rua propagandas de duplas totalmente desconhecidas convidando para a gravação do DVD oficial. O modelo de mercado foi mudado e essa nova estratégia se tornou comum. Afinal, o custo de se gravar um show e lançá-lo como disco é infinitamente menor do que a produção do álbum em estúdio, já que a própria plateia, ao pagar ingresso, financia a obra.


A Saudade é o Prego
(Nilma Pinóchio)

Deu um arrocho no peito
Eu fiquei apavorado
São Paulo ficou pequena
Um lugarzinho abafado
Peguei a Via Anhanguera
E a coisa ficou pior
Quando passei em Campinas a
Dava pena dava dó
No trevo de Americana
Pensei, não vou agüentar
De Limeira até Araras
Fui chorando sem parar
Uma parada em Leme
Dei um alô a platéia
Foi lá em Pirassununga
Que eu tive uma boa idéia
E parar em Ribeirão
Tomar um chopp gelado
E lá eu passei em Franca
Comprei uma bota invocada
E na festa de Barretos
Cheguei muito apaixonado

A saudade é um prego
Coração é um martelo
Fere o peito e dói na alma
E vai virando um flagelo (4x)

De Uberaba à Uberlândia
Fui contemplando a beleza
Dando um tapa na saudade
Ouvindo moda sertaneja
Cidade de Araguari
O meu pranto era prova
Fui curar minha ressaca
Nas águas de Caldas Novas
Tem coisas que a gente pensa
Coração fica doente
Pensei na Lua-de-mel
Na Pousada do Rio Quente
E no Trevo de Morrinhos
Chorando igual criança
Se encontra-la em Goiânia
Eu vou cheio de esperança
E se na linda Goiânia
Eu não encontrar niguém
Amanhã bem cedo eu sigo
Com destino à Belém
Vou até no fim do mundo
Mas quero encontar meu bem

A saudade é o prego
Coração é o martelo
Fere o peito e dói na alma
E vai virando flagelo (4x)



Principais artistas do período: Bruno e Marrone, Rio Negro e Solimões, Guilherme e Santiago, Marcos e Léo, João Bosco e Vinícius, César Menotti e Fabiano, Jorge e Mateus, Victor e Léo, Fernando e Sorocaba, Marcos e Belutti, João Neto e Frederico, Cristiano Araújo, Eduardo Costa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 04)



1980 e 1990 – Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Chrystian & Ralf


Fivelas sobrando
Eu me lembro da primeira vez em que vi o Leandro e Leonardo. No Faustão. Aliás, bem provavelmente, era a primeira vez em que ELES FORAM ao Faustão. Eu devia ter uns... sei lá... 4 ou 5 anos. A memória é bem vaga. Mas me lembro da sensação estranha de pensar: “espera ai! Esses caras não são a dupla sertaneja. A dupla é aquela do cara de cabelo esquisito e voz fina”. No auge da minha ignorância infantil, a única dupla que existia era Chitãozinho e Xororó – e só podia ter uma dupla. Depois que ouvi os novatos cantando, me conformei: “Ah bom, também tem voz fina”.

Os falsetes desesperados (aquelas vozes esganiçadas) entraram para o hall da fama do sertanejo no início dos anos 80, com o José e Durval (aliás, só fui descobrir que esse era o verdadeiro nome dos chitões em um filme dos Trapalhões – claro que passei a meia hora seguinte rachando de rir). Até então, existiam vozes finas e bem postadas, mas essa voz esganiçada (e que só faz sucesso desse jeito aqui no Brasil) era novidade até então. Iniciava-se a era dos 'mullets' também... esse tipo de cabelo que o McGyver, Daniel-San e mais um monte de personagens oitentistas colocaram em voga – e que a turma do sertanejo abraçou com entusiasmo.

Chitãozinho e Xororó foram a dupla de vanguarda na televisão brasileira. Foram os grandes responsáveis pela popularização maciça da música sertaneja – mas de uma forma que, já nessa época, deveria deixar de se chamar “música caipira”. Foram eles os primeiros a virar arroz de festa na Globo, principalmente como cantores nas músicas tema de novela. Também foram os principais responsáveis por começar a utilizar a guitarra com solos, no maior estilo heavy metal, na introdução das músicas – o que resultou numa mistura pra lá de cafona, bastante comum até a metade dos anos 90. Ouça a introdução de “Wasting Love”, do Iron Maiden, e a de “Toma Juízo”, do Zezé Di Camargo, ou “Entre Tapas e Beijos”, do Leandro e Leonardo. A premissa é a mesma: notas de guitarra em dueto, com intervalos musicais de terça. Não sei quem pensou nisso primeiro, mas a ideia definitivamente não foi boa.

Depois dos pais da Sandy e Júnior (hahaha, high five!), vieram Leandro e Leonardo, lá pra 1985, aproximadamente. Se a temática anterior já havia aproximado de modo bem meloso das estórias românticas, os irmãos plantadores de tomate do interior de Goiás terminaram de empurrar o carro pela ribanceira. Introduziram certo elemento erótico/sensual, com músicas de teor levemente picante. De qualquer forma, letras como “Tira essa roupa molhada / quero ser sua toalha /e o seu cobertor” ainda estavam bem longe do que hoje é considerado sexy (meu amigo, pega um Mr. Catra pra ouvir... Ou melhor, não!).

Olha a cabeleira do Zezé
Logo em seguida, no início dos anos 90, veio a onda Zezé Di Camargo e Luciano (ele, o Zezé, já havia tentado o sucesso com vários irmãos – Camargo e Camarguinho, Zazá e Zezé – e até carreira solo). Em relação à dupla de tomateiros, houve um sensível aumento de qualidade, tanto em conteúdo quanto musicalmente. O bolero entrou de sola, e a dupla dos camargos chegou a gravar com Julio Inglesias – e em espanhol!
Pasmem.

Interessante notar que, mesmo após a regravação da Maria Bethânia para o hit “É o amor”, do Zezé e Luciano, o estilo sertanejo remodelado à cidade ainda manteve-se à margem da sociedade. Nem mesmo o drama das mortes de João Paulo (1997), da dupla João Paulo e Daniel e de Leandro (1998), acompanhados em rede nacional, alavancaram o sucesso sertanejo às elites. Aliás, a Globo chegou a criar um especial - “AMIGOS” - somente com apresentações sertanejas, mas ainda assim as duplas conseguiam atingir, majoritariamente, apenas as classes C e D. Estive presente em um show do Zezé (não me pergunte o porquê) na Praça do Trabalhador, em Goiânia, e deu bem para reparar isso. Um público gigantesco! Mas pouca (ou nenhuma) gente das classes mais altas. Sertanejo, até metade pro fim dos anos 90, ainda era considerado “música de empregada” ou “de cabaré”. De certa forma, bom para a indústria fonográfica, claro! Mas isso não significava, necessariamente, a inclusão definitiva do gênero. (Pergunte a qualquer um o que achava do “Sabadão Sertanejo”, do SBT. Decadência total.)

Nessa época, “música caipira”, “sertanejo de raiz” e “moda de viola” já eram termos bem comuns para diferenciar os 'sertanejos-falsete' daqueles que foram a raiz do gênero.

Menção honrosa para Chrystian e Ralf – que terminaram de consolidar a moda country no sertanejo urbano – e Sandy e Junior, uma tentativa solitária e bem sucedida de inserir os elementos do gênero no meio infantil.


Desculpe, mas eu vou chorar
(Gabriel César Augusto)

As luzes da cidade acesas
Clareando a foto sobre a mesa
E eu comigo aqui trancado
nesse apartamento
Olhando o brilho dos faróis
Eu me pego a pensar em nós
voando na velocidade
do meu pensamento

E saio a te procurar
nas esquinas
em qualquer lugar
e as vezes chego a te encontrar
num gole de cerveja
E quando vem a lucidez
estou sozinho outra vez
E então volto a conversar
com minha tristeza

Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
Não ligue, se eu não te ligar
Faz parte dessa solidão
Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
Na hora em que você voltar
Perdoe o meu coração.

Tinha uma vizinha, lá no Parque das Laranjeiras, que atormentava a gente todo santo dia, encerando o chão da casa (no século passado, passavam cêra no chão das casas para brilhar mais!) e cantando essas preciosidades ai. Trauma até hoje.



Principais artistas do período: Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chrystian e Ralf, Gian e Giovani, João Paulo e Daniel, Rick e Renner, Roberta Miranda, Chico Rey e Paraná, João Mineiro e Marciano, Gilberto e Gilmar, Nalva Aguiar, Trio Parada Dura, Almir Sater.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 03)




1970 – Sérgio Reis


Serjão cantando "Coração de Papel"
Se você escutar a música “Coração de Papel” (que já foi até música tema de novela da Globo), vai achar que é sertaneja. Talvez pelo tema. Mas, inegavelmente, pela voz do Sérgio Reis. Essa música
foi um estouro na época da Jovem Guarda, em 1967. Música de ricos, anti-comunistas. Mainstream total, por incrível que pareça.

E o Serjão veio a mudar de gênero no início dos anos 70, passando para o time dos caipiras. E mudando de estilo, a meu ver, mudou a própria evolução da música também. Imortalizou canções como “Menino da Porteira”, “Chalana”, “Pinga Ni Mim” e trouxe um ar de modernidade para as músicas. De repente, ouvir sertanejo não era tão fim de carreira assim. Afinal, há pouco tempo atrás, torcia-se por duetos do Sérgio com Roberto Carlos, Vanderléia.

Com a ascensão de Milionário e José Rico e outras duplas mais melódicas, o estilo sertanejo tornou-se um pouco mais audível, menos repetitivo. Sérgio Reis e os artistas da época investiam em novos instrumentos, novas técnicas, nova temática. Saiam as violas, entravam sanfonas, teclados, percussão. A dupla Léo Canhoto e Robertinho chegou a introduzir a guitarra elétrica em suas músicas, no final da década de 1960. Tudo isso ocasionou uma grande popularização do cancioneiro caipira.

Renato Teixeira e Sérgio Reis, 2010
Com a popularização, novos artistas tiveram espaço. Artistas com propostas diferentes, mantendo a ligação com o campo. Surgiu Renato Teixeira, por exemplo. Artista mais refinado que, frequentemente, flertava com a MPB. Influenciou Almir Sater, que nessa época tomava lições de viola com Tião Carreiro e se lançaria na década seguinte. (Sater e Teixeira acabaram virando grandes parceiros musicais).

Em entrevista à Revista da RBA (Rede Brasil Atual - SP), em 2011, Renato conta:

"Até 1970, a música brasileira era bem dividida. Bossa nova, samba, nordestina, boleros. E a música caipira estava encerrando um ciclo genial. Nesse momento, o Sérgio Reis, a dupla Léo Canhoto e Robertinho e eu começamos a mexer com essa música. Minha influência do caipira vem de Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Guimarães Rosa. E Léo Canhoto e Robertinho mostraram que a dupla não precisava ser só aquele modelo tradicional, que podia ser o que vemos e ouvimos hoje com Chitãozinho e Xororó. Aí o terreno ficou fértil."

 A questão que ficou escancarada na época e que deveria se tornar mais clara nos dias de hoje era uma só: é possível fazer música caipira de qualidade e com viabilidade comercial.
 
Romaria
(Renato Teixeira)

É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló,
dessa vida cumprida a só

Refrão
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida 2x

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Curiosidade: “Romaria” se destacou tanto que diversos artistas de estilos variados já a regravaram. A versão da Elis Regina, de 1977, ganhou projeção internacional.


Principais artistas do período: Sérgio Reis, Milionário e José Rico, Rolando Boldrin, Leo Canhoto e Robertinho, Renato Teixeira, Gino e Geno

Referência: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/63/entrevista


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 02)




1960 – Tião Carreiro e Pardinho

A primeira vez que eu vi a imagem do Tião Carreiro, fiquei totalmente surpreendido. Foi numa capa de CD pirata, comprado nesses postos de beira de estrada, quando eu tinha uns 14 anos. Eu já conhecia várias músicas desde muito pequeno, já que meu pai e o tio Jomar sempre foram fãs e só trocaram as fitas K-7 pelos CDs (e hoje, pelo iPod). Mesmo assim, era estranho ver que aquele vozeirão pertencia ao cara de Black Power e bigodão mariachi.

E é estranho que, até atualmente, na era do You Tube, eu ainda não tenha visto um vídeo decente sequer de uma performance dele com o Pardinho. O cara é um ícone do gênero. Junto com Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, e outros ícones, são a Elis Regina, o Cazuza do sertanejo. A dupla com o Pardinho lançou mais de 300 músicas. E é muito raro vermos homenagens, reportagens ou programas especiais dedicados a eles na televisão ou mesmo na internet. O que me leva a crer que não se trata de artistas: trata-se do gênero.

É evidente que o sertanejo é um gênero musical desprezado, marginalizado. Ainda que Luans Santanas e Cesar Menottis apareçam no Faustão todo domingo e disputem o Medida Certa no Fantástico, o fato é que, para ganharem acesso às massas, os artistas atualmente tidos como sertanejos se distanciaram bastante das raízes. E, a meu ver, nada confirma mais essa marginalização ao estilo do que a completa ausência de menção a Tião Carreiro e Pardinho na nossa cultura popular – ainda que suas vozes continuem presentes nos churrascos de família e no som dos automóveis de nossos tios. Ainda que exaustivamente regravados pela pleiboizada que ocupa espaço na TV e no rádio.

Cara de Mau
Tião Carreiro entra numa época em que a música caipira começa a sofrer suas primeiras adaptações para entrar, de maneira tímida, no circuito de massas. Antes acompanhados apenas por violas, tocadas pelos próprios cantores, artistas como Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão e, um pouco mais à frente, Milionário e José Rico dedicam um pouco mais de atenção à qualidade de suas vozes. Permitem-se serem acompanhados por percussões discretas e violões. No auge do brega, alguns incorporam trompetes e teclados. A figura dos cantores também é valorizada, incorporando ares da cultura western e country americana - chapéus escandalosos, cintos, espora e fivelas nada discretos.


Apesar de se tornarem mais conhecidos, a música caipira (e, nessa época, ainda era considerada “sertanejo de raiz”) ainda estava à margem. A temática ainda era a vida no campo, as estórias de amor e de morte, porém com uma leve tendência ao romantismo e aos elementos da cidade.

Destaque para “Boneca Cobiçada”, de Palmeira e Biá, com letra bastante ousada para a época (“Teu corpo não tem dono / Teus lábios têm veneno”). Aliás, a esse respeito, é importante dizer que ainda se dava bastante valor aos autores da música, originalmente. Via de regra, quem criava, cantava.


A Vaca Já Foi Pro Brejo
(Tião Carreiro/Lourival dos Santos/Vicente P. Machado)

Mundo velho está perdido
Já não endireita mais
Os filhos de hoje em dia já não obedece os pais
É o começo do fim
Já estou vendo sinais
Metade da mocidade estão virando marginais
É um bando de serpente
Os mocinhos vão na frente, as mocinhas vão atrás

Pobre pai e pobre mãe
Morrendo de trabalhar
Deixa o coro no serviço pra fazer filho estudar
Compra carro a prestação
Para o filho passear
Os filhos vivem rodando fazendo pneu cantar
Ouvi um filho dizer
O meu pai tem que gemer, não mandei ninguém casar

O filho parece rei
Filha parece rainha
Eles que mandam na casa e ninguém tira farinha
Manda a mãe calar a boca
Coitada fica quietinha
O pai é um zero à esquerda, é um trem fora da linha
Cantando agora eu falo
Terreiro que não tem galo, quem canta é frango e franguinha

Pra ver a filha formada
Um grande amigo meu
O pão que o diabo amassou o pobre homem comeu
Quando a filha se formou
Foi só desgosto que deu
Ela disse assim pro pai: “quem vai embora sou eu”
Pobre pai banhado em pranto
O seu desgosto foi tanto que o pobre velho morreu

Meu mestre é Deus nas alturasO mundo é meu colégio
Eu sei criticar cantando, Deus me deu o privilégio
Mato a cobra e mostro o pau
Eu mato e não apedrejo
Dragão de sete cabeças também mato e não alejo
Estamos no fim do respeito
Mundo velho não tem jeito, a vaca já foi pro brejo



Principais artistas do período: Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão, Irmãs Castro, Sulino e Marrueiro, Palmeira e Biá, o trio Luzinho, Limeira e Zezinha, José Fortuna, Pena Branca e Xavantinho, Milionário e José Rico (no início de carreira), Liu e Léo, Jacó e Jacozinho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 01)

 

1929 – Cornélio Pires

Cornélio Pires é considerado como o criador da música caipira. O interessante é que ele não era cantor, nem caipira! Tinha formação em jornalismo, era escritor e pesquisador da cultura folclórica brasileira – primo do Orígenes Lessa.

Cornélio Pires
Seu foco, durante muito tempo, foi a “cultura caipira”, e chegou a escrever mais de vinte livros sobre o tema. Peregrinava pelo interior de São Paulo para sorver dessa fonte. Nessas andanças, apaixonou-se pela música caipira original, ligada às tradições circenses e à religião.

Sim, religião!! Como uma boa parte dos elementos da cultura brasileira, também a música sertaneja teve sua origem aí. As primeiras “modas de viola” surgiram nos grupos das Folias de Reis – pequenos grupos que visitavam as casas das pessoas para rezar e cantar, na véspera de natal. As músicas, acompanhadas de viola, tinha rimas e evocavam trechos da bíblia, bençãos aos donos da casa e de abrigo ou comida.

E o Cornélio conseguiu, em 1928, que a indústria fonográfica registrasse essas canções, com suas devidas adaptações (como a redução do número de pessoas e a diversificação da temática).

Com a possibilidade de exploração comercial, o gênero iniciou sua expansão. Geralmente, as modas (palavra portuguesa que designa “canto” ou “melodia”) eram cantadas em duas vozes (em intervalos musicais de terças), acompanhadas por viola (tocada ou ponteada/solada). As duplas criavam estórias de amor e de morte, críticas ao governo e à sociedade, chegavam a esboçar certo engajamento social – ainda que instaladas no campo (por exemplo, "A Revolução Getúlio Vargas" e "A Morte de João Pessoa", composições gravadas por Zico Dias e Ferrinho, em 1930). Os “causos” famosos invariavelmente ganhavam sua versão musical. Nessa época, surgiram os “desafios”, em que as duplas, tal qual repentistas, revezavam-se com outras duplas na criação das letras. Quem não conseguisse, perdia o desafio. O foco era totalmente no conteúdo das músicas. A qualidade das vozes ou diversificação de instrumentos ficavam totalmente em segundo plano.


Peito Sadio
(Zé Carreiro e Carreirinho)

Foi as quatro horas da manhã, meu cachorro de guarda latiu
Levantei para ver o que era, e vesti meu casaco de frio
Então vi que chegou um mensageiro, amuntado num burro turdio
Apiou e me disse bom dia ! E o bolso da baldrana ele abriu
Uma carta o rapaz me entregou e de novo amuntou e na estrada sumiu.

Dei a carta pro meu irmão ler, ele leu e me olhando sorriu,
“É convite pra nós ir na festa, vai haver um grande desafio”.
O meu pai já correu no vizinho, foi chamar o vovô e o titio
Nós cheguemo a pular de contente, lá em casa ninguém mais dormiu.
Pra quebrar aqueles campeonato nem com sindicato ninguém conseguiu.

Violeiro que mandou o convite, moram lá do outro lado do rio
Eles pensa que nós não vai lá, mais nós semo cabôco de brio
A peteca aqui do nosso lado, por enquanto no chão não caiu
Quando nós cheguemo no catira, os mais fraco na hora sumiu
Só cantemo moda de campeão e os tal que era bom nem se quer reagiu.

Perguntei para o dono da festa “onde foi que o senhor conseguiu
Esses tal violeiro famoso, que as moda de nós engoliu?”
O festeiro ficou pensativo, e mordeu no cigarro e cuspiu.
“Vocês são dois cabôco batuta, quem falou, pode crer, não mentiu”
Teve algum que cantar experimentou, mais o peito faiô e a voz não saiu.

As viola nós faz de encomenda, nosso peito é tratado e sadio,
Já cantemo três noite seguida e as moda nós não repetiu.
Quem repete é relógio de igreja e o triste cantar do tiziu
E agora com essa vitória, inda mais nossa fama subiu.
E vocês não deve discutir, se viemos aqui, foi vocês quem pediu. 



(Essa, com meu tio Marquinho cantando, é uma pérola! Hahaha) 
 
...