sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Adeus, Michael" e adeus, Steve Carell

O último episódio da estrela de “The Office” foi um episódio de despedida, tratando sobre episódios de despedida, com lágrimas reais. Atenção: contém menção a cenas do episódio 22 da sétima temporada (S07E22).





Episódios de despedida são tão difíceis quanto despedidas na vida real: não importa o quão divertidas, doces ou sentimentais elas sejam, nos deixam, por definição, insatisfeitos. Afinal, alguém que você gosta está indo embora. Ou, neste caso, alguém mesquinho, narcisista, patético, exagerado, causador-de-vergonha-alheia e que você gosta está indo embora. Procure no dicionário pela definição de “Michael Scott”.

Como resolver um problema tão grande quanto a saída de Michael? O melhor seria retomar as origens da série (contrariando à evolução natural do roteiro, que vem tornando os personagens mais profundos e acolhedores), mostrando Michael em seu melhor estilo: egoísta, dramalhão e sem-noção? Ou seguir no curso do desenvolvimento lógico dos fatos, com um final bem sentimental (ou, ao menos, tão sentimental quanto pode ser “The Office”, sem deixar de ser “The Office”)?

Os produtores, roteiristas e o próprio elenco escolheram a segunda opção. E foi uma jogada inteligente.


O programa passou sete temporadas construindo uma saga para Michael, na qual ele (muito) lentamente passa de um pequeno ditador narcisista, com algumas poucas qualidades, para um ser humano reconhecedor de suas próprias falhas, dotado de empatia e honestidade. Em alguns momentos, até mesmo introspectivo. Não é uma história que todos aprovam, já que a graça do personagem está justamente em suas piores características. Mas foi o que, pouco a pouco, os criadores do show implementaram. E foi o que se tornou a realidade do Michael.


Metaforicamente, a gente pode ver essa evolução na cena em que Michael joga no lixo a caneca estampada “Melhor Chefe do Mundo”, que ele mesmo comprou para si, e coloca no lugar um “Dundie Award” de melhor chefe, supostamente entregue pelos funcionários do escritório. Obviamente, mais à frente as coisas voltam ao normal, com Michael resgatando a caneca do lixo.


Ao mesmo tempo em que é um episódio comum, este tem uma outra dimensão, um pouquinho mais complicada. “The Office” faz parte de um estilo de comédia conhecida nos Estados Unidos como “mockumentary”, que seria um falso documentário. Uma série que, de forma propositalmente desajeitada, imita o formato de um documentário real, debochando do estilo. Nesse episódio em especial, por trás da graça de se imitar um documentário, a série adicionou o coração dos verdadeiros envolvidos no programa: temos a impressão de assistir uma gravação real sobre pessoas e fatos, em vez das peripécias improvisadas pelos atores e atrizes.


Um aspecto muito interessante são as repetidas referências ao filme “O Mágico de Oz”, durante o episódio, que nos fazem lembrar da famosa e enigmática frase, dita por Oz a Dorothy, no fim do filme: “Não preste atenção naquele homem por trás da cortina”. (http://youtu.be/YWyCCJ6B2WE) A beleza da frase está justamente no fato de que, quando o mágico a disse, ele já havia sido exposto como o próprio homem por trás da cortina. Todo mundo já tinha matado a charada, ele não tinha mais o que fazer. A listinha de nomes que Michael risca, enquanto distribui presentes (e momentos) esdrúxulos aos seus funcionários, o coloca na posição do próprio mágico. Além disso, uma boa parte de “Adeus, Michael” foi escrita, dirigida e interpretada no espírito dessa cena do filme. O episódio nos deixa ver o artifício por trás da falsa realidade de documentário. Por vezes, chega a deixar transparecer que estamos assistindo a um programa estrelado por um aclamado ator profissional, bastante famoso e que, infelizmente, precisou sair para se concentrar em sua carreira no cinema.


O episódio especial de uma hora ainda vai mais além, deixando claro que uma boa parte da emoção que estamos experimentando vem do fato de ter permitido, desde o começo, que Steve Carell e todos os outros atores entrassem em nossos lares, pelo menos uma vez por semana, nos últimos sete anos; e além disso, nos mostra que essa nossa consciência, ou auto-consciência, não diminui em nada a melancolia que sentimos.


Os fãs da série já tiveram oportunidade de ler várias matérias sobre “The Office”, contando como foram os bastidores da saída de Carell: com bastante dificuldade, aparentemente, já que Carell é conhecido como um cara amável, na maior parte das vezes sentimental, com quem seria bastante divertido de trabalhar. E, em vez de empurrar esse sentimento para os bastidores, “Adeus, Michael” fez questão de abraçá-lo. Durante vários pontos, os personagens – principalmente Michael – experimentam sentimentos fortes, e muitas vezes confusos, que chegam a destoar das cenas que devem ser interpretadas. Considerando o quanto a série é franca, de qualquer forma, foi um elemento que só acrescentou e contribuiu para a vibração triste e doce do episódio.


O close maravilhoso de Michael na copa – olhos marejados, enquanto escuta seus funcionários na outra mesa, reclamando de bobagens – foi um dos closes mais penetrantes de Steve, em todos esses anos do seriado. E quando o diretor Paul Feig cortou para uma entrevista com o próprio Michael, ele também estava chorando lá. Ou deveríamos dizer que Carell estava chorando? Considerando o contexto, não faz a menor diferença. Afinal de contas, não se tratava apenas de um escritório dizendo adeus ao seu chefe, mas também a atores e atrizes dizendo adeus a um colega com quem trabalharam desde o início de 2005.


Embora a relação entre Jim e Michael tenha mudado bastante durante todos esses anos, ainda é difícil encontrar elementos para explicarem a luta daquele contra as lágrimas, na conversa final entre os dois. Dois terços das irritações pelas quais Jim passou, em todas as temporadas, foram por causa da idiotice ou da covardia de Michael. E, ainda assim, lá estava ele, com os olhos molhados, em frente a um Michael também emocionado, dizendo-lhe que ele foi o melhor chefe que já teve. Soa muito mais como uma expressão de amor e respeito entre atores colegas do que entre funcionários de um escritório mas, no contexto, a ambiguidade funcionou perfeitamente.


As múltiplas cenas de Michael tentando (e falhando) acertar os três pontos na cesta de basquete, no depósito, também tiveram uma carga dramática adicional. Intercaladas durante a narrativa do episódio, ficamos sem saber se é Michael ou o próprio Carell brincando com a bola. Simultaneamente, enquanto vemos Michael falando do pequeno espantalho que deu de presente a Oscar, não sabemos se é um chefe rindo do presente que deu a seu funcionário, ou se é uma entrevista de bastidor, na qual o próprio ator, Steve Carell, ri da reação de seu colega Oscar Nunez. “Meu espantalho”, fala Michael/Steve, engasgando com a própria gargalhada, “pareceu que foi feito por um macaco de 2 anos de idade! E, mesmo assim, ele aceitou! Acho que ele tem o pior conceito sobre mim, de todos eles!”. Cenas que deixam transparecer, de certa forma, o homem por trás da cortina. Ou, pelo menos, acrescentam uma ambiguidade interessantíssima ao episódio.


Até mesmo Dwight teve um momento sentimental, embora não tenha derramado tantas lágrimas. Aconteceu na cena de entrevista em que ele lê uma carta de recomendação escrita por Michael. Na hora, Dwight estava com muita raiva por Michael não tê-lo indicado como seu substituto no escritório. E a carta, elogiando-o e enchendo-o de adjetivos, o amoleceu.


As cenas finais, no aeroporto, são fantásticas. Ao passar pela segurança do embarque, os últimos atos de Michael como participante no documentário fictício foi perguntar à equipe de produção fictícia quando é que as gravações iriam ao ar. E então, depois, remove seu microfone sem fio e o entrega ao cara do som, antes de rumar para o portão de embarque. A câmera não para de rodar. No caminho rumo ao corredor de embarque, Michael é surpreendido pela Pam, que aparece correndo e lhe dá um último abraço. A única funcionária da qual não conseguira se despedir fora ela. E essa cena afasta, por alguns instantes, a dimensão de “documentário fictício”.


Isso porque o abraço entre Michael/Steve e Pam/Jeena Fischer ocorreu a uma distância discreta, longe da captação dos microfones. Essa ausência de som e a posição dos atores torna impossível descobrir o que eles estão conversando. E torna o fim platônico. Pam foi o espantalho real, comparativamente ao “Mágico de Oz”: aquela que deu o adeus final. E por ser um adeus silencioso, de certa forma representa a despedida a todos os telespectadores – silenciosos a assistir, do outro lado da tela – a um personagem que, durante tanto tempo, os entreteve.


Baseado no texto original de Matt Zoller Seitz, disponível em: <http://www.salon.com/entertainment/tv/feature/2011/04/28/office_steve_carell_farewell>

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