quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pois é... Pra quê?





A Copa do Mundo chegou e, com ela, conforme previsto, a onda de protestos. Uma das poucas coisas em que não houve atraso. É engraçado notar que o brasileiro geralmente protesta da mesma forma que torce. Como o futebol é o esporte com mais força no país, acaba identificando-se, em cada manifestante, um torcedor apaixonado. De longe, ouvimos gritos de “ÔÔÔ, o Joaquim julgou! O Joaquim julgou!” ou “Arranja outro deputado pra votar na nossa linha”, “Fulano Ladrão! Porrada é a Solução!”. Rimas pobres, entrosamento momentâneo, ausência de profundidade. No fim, claro, xingam o juiz - ou a Presidenta - mandando-o ir para algum lugar obsceno.

Mais do que falta de criatividade e desrespeito, isso evidencia um ato falho desconcertante.

A mentalidade brasileira, quando se trata de discussão política, ainda beira o infantil. Não é à toa que o Romário hoje é deputado, o Sílvio Santos cogitou a carreira política (e, de acordo com as pesquisas da época, prometia dar trabalho na disputa presidencial) e que Ayrton Senna ganharia qualquer eleição fácil, para qualquer coisa a que se candidatasse. Ou que, mais recentemente, muita gente queria ver o Ministro Joaquim Barbosa como chefe do Executivo – sem perceber que ele já era um dos três maiores líderes da nação. Somos o país da novela e do futebol. Nossos pontos de vista se dividem entre os a favor do herói e os contra o vilão. Time nosso, contra time adversário. E se resume a isso: um “maniqueísmo jardim de infância”. O lado bom é santo e deve ser presidente do país (seja ele carteiro, escritor, jogador de futebol, piloto de F-1 ou apresentador de programa de auditório). O lado mau é o de quem discorda (nunca é o seu!), e deve morrer, ir para o inferno, ir tomar em algum lugar (ou ser xingado de reacionário, esquerdinha, coxinha, “direitona”, marginal, vândalo, etc – o que quer que essas palavras signifiquem, na cabeça de quem xinga). Não existe meio termo e isso, infelizmente, acaba com qualquer discussão.

Não que não existam motivos para críticas e manifestações. Principalmente em se tratando de Copa do Mundo. Análises superficiais sobre todo o processo que envolveu desde a escolha do Brasil como sede até a festa de abertura, no dia 12 de junho, em São Paulo (e, muito provavelmente, englobará a festa de encerramento também), já escancaram uma série de amadorismos por parte do governo - em todas as esferas - e de entidades privadas responsáveis pelo evento. O protesto é sempre cabível. Mas existe um milhão formas de se protestar. E exatamente por isso, acho grave o ato falho do povo brasileiro: dentre um milhão de formas, escolheram os gritos do futebol. Tá na cara que, se for só assim, não vai dar em nada.

No jogo de estreia da Copa, por exemplo, escolheram xingar a Presidenta. O jeito mais chulo, sem-razão e abarrotado de senso comum que existe: a falta de educação. Num estádio superfaturado, onde morreram 8 operários por falta de segurança no desempenho dos trabalhos – segurança essa que faltou por ganância ou comodismo de empresas privadas – centenas de pessoas que provavelmente sonegam seus impostos, defendem a violência contra fiscais de trânsito e trombadinhas e cortaram fila pra entrar mais cedo no estádio gritam, estapafurdiamente, desaforos inócuos a uma pessoa que, independentemente de partido, classe social ou sexo é um semelhante. Mais do que isso, xingaram a Chefe do Poder Executivo do nosso próprio país. A questão esbarra em aspectos institucionais que passam muito longe da percepção de quem xingou: existe, disfarçado no ato, uma insubordinação à própria organização política do país, uma ofensa a princípios democráticos conquistados à muitas custas. E o fato de as mesmas bocas que cantaram o hino nacional apaixonadamente alguns minutos atrás, chorando junto com Júlio César e David Luiz, serem protagonistas de tais impropérios escancara o quanto estamos perdidos em nossas reivindicações.

O brasileiro não sabe, ainda, distinguir um argumento racional e verossímil da birra clássica do “quero e não posso ter”. Um comportamento infantil, de quem ainda precisa aprender a lidar com a frustração eventual, inerente a processos democráticos, para tentar influir de maneira positiva – ainda que radical, vez ou outra – na vida política do país. Por enquanto, o que vimos foi um chilique maciço de pessoas vergonhosamente mandando a chefe do executivo ir tomar em algum lugar, do mesmo jeito que fazem os torcedores de um time de futebol que sofre pênalti. Enquanto for assim, estaremos sempre na atitude passiva de torcedores sem educação e o juiz vai continuar mandando no jogo.

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