
Eu já disse anteriormente, quando estava escrevendo sobre a
despedida do Steve Carell (e de seu personagem, Michael Scott)
de The Office, que episódios de despedida são arriscados.
Por mais que o humor esteja presente, dar adeus nunca é fácil. E,
se foi difícil dizer tchau a um personagem (ainda que este seja
MICHAEL SCOTT!), o que dizer de todo um mundo, com seus dramas,
características e carismas construídos no decorrer de 9 anos!
Muita gente não gostou do último episódio de The Office.
Julgaram-no incoerente com o clima da série, excessivamente meloso,
focado em lados distorcidos dos personagens, enfim, em uma palavra:
frustrante. A meu ver, uma análise rasa.
A despedida de The Office não aconteceu apenas no último
episódio. Em meio a constantes questionamentos sobre os rumos da
série após a saída de Carell/Scott, diante da atemorizante queda
de audiência (de 8 milhões para pouco mais de 4 milhões de
espectadores nos EUA), o elenco e os produtores viveram as últimas
duas temporadas sob a constante ameaça de cancelamento súbito, sem
a oportunidade de desfecho da trama. Assim, quando restou claro que a
9ª temporada seria a última, toda ela foi dedicada a desconstruir,
de maneira gradual, aquele mundo tão singular.

Por outro lado, passados nove anos no ar, foi o gancho encontrado pelos produtores do show
para iniciar a transição final e construir o desfecho. Cada vez mais, o enquadramento dado pelo documentário foi sendo colocado de
lado, deixando à vista a vida real dos funcionários. O efeito foi o
de que nos acostumamos de tal forma a observar a vida e rotina
daquelas pessoas que, a partir de certo momento, o documentário em
si passou a ser insuficiente. Fomos invadidos por suas vidas, seus
dramas e anseios. A moldura, inevitavelmente, começou a cair.
A primeira vez em que isso aconteceu de maneira impactante foi com
a despedida de Michael Scott. Após 7 anos de convivência, assistimos ao adeus de Scott, e
às lágrimas de Carell. Em diversos momentos, não sabíamos dizer
se estávamos vendo um chefe dizendo adeus a seus funcionários, ou
um ator se despedindo de seus colegas de elenco. Curiosamente, a
desconstrução do clima de documentário foi feita de tal forma que,
além de ampliarmos o foco para as vidas pessoais dos funcionários
da empresa de papel, também começamos a conhecer uma pontinha de
sentimentos também dos atores e atrizes. Eles próprios, em
entrevistas de bastidores, confirmam a ambiguidade. Que, aliás, foi
estabelecida propositalmente. As lágrimas que vimos foram reais
(John Krasinski, o Jim, inclusive conta que, antes da sua cena final
com Carell, chorou de maneira “vergonhosamente abundante”, em
suas próprias palavras).
A partir de então, muitos dizem que o show perdeu qualidade.
Obviamente, a ausência do carisma de Steve mudou bastante o clima
dos episódios. Mas a ideia inicial da série, que poderia ser
resumida em “Como seria trabalhar para o pior chefe do mundo?” (e
que comprou para si mesmo uma caneca com os dizeres “Melhor chefe
do mundo”), mudou bastante no decorrer das temporadas, e
personagens, antes secundários, ganharam uma dimensão bem maior. As
crianças de Michael Scott cresceram e ganharam pernas maiores. Com a
sua saída, o grande desafio do elenco era continuar sustentando
aquele mundo sem sua grande estrela. Quem captou a dimensão desse
mundo percebeu que eles conseguiram. Dwight, Jim, Pam, Stanley,
Kevin, Oscar, Angela e todos os novos personagens que entraram no
decorrer dos anos (Erin!) também tinham seu carisma e acompanhá-los,
em suas vidas pós-Michael, continuou sendo tão divertido quanto
antes.
Na 9ª e última temporada, a desconstrução do mundo-documentário
entrou em ritmo acelerado. A fusão dos personagens com a realidade foi aumentando com o tempo. Um dos momentos mais significativos
ocorre quando percebemos que um dos câmeras, membro da equipe de
filmagem do documentário, está apaixonado pela Pam. Seu jeito de
focalizá-la quando está sozinha, demonstrando introspecção e
cumplicidade com seus dramas pessoais, de início nos surpreende. Por
fim, conhecemos o rosto desse câmera, que se envolve pessoalmente
com a Pam, ao comprar uma briga dela.
Incidentes como esse permeiam todo o último ano. Frequentemente
vemos equipamentos de filmagem aparecerem, mãos e pés de membros da
equipe de filmagem, conversas entre eles e os funcionários do
escritório. Por vezes, soa como puro desleixo daqueles que, durante
nove anos, acompanharam, por trás das lentes, as aventuras vividas
por aqueles funcionários. Resta evidente o fato de que, de maneira
inquestionável, eles também fazem parte do show. Principalmente
representando a nós, telespectadores. E a apresentação do
documentário pronto ao público e à critica, que acontece em algum
momento entre o penúltimo e o último episódio do show, coroa a
transição para o “Finale”, um episódio especial de 50 minutos,
em que o documentário em si deixa de ser importante. O foco vira-se
todo para aos personagens (e, novamente a ambiguidade) e
artistas. Risos e lágrimas fictícios e reais se confundem. O que
vemos, fora da moldura imposta pelo documentário são colegas de
trabalho se despedindo. Seja esse trabalho um escritório
representante de vendas de papel, seja ele um set de filmagens.
O Finale
Esse episódio final foi, sem dúvida, o mais emocional de todos. E
não poderia ser de outra forma. Afinal, é disso que tratam as
despedidas.
Cronologicamente, se passa um ano após o penúltimo episódio (e a
exibição do documentário final). Passamos a conhecer, pouco a
pouco, onde foi parar cada personagem. Mas o grande mote do episódio
é o casamento de Dwight e Angela.
Jim, escolhido como padrinho, está organizando a despedida de
solteiro. O que, aliás, já nos traz a primeira surpresa agradável.
Após anos pregando peças em Dwight, Jim reconhece a importância do
amigo e decide pregar apenas “peças boas”. Na primeira, ele leva
o noivo e seus amigos para um campo, onde oportuniza a Dwight dar um
tiro de bazuca (um de seus sonhos). Em seguida, Jim leva todos para
um jantar reservado, onde é a vez de apresentar uma stripper ao
amigo. Dwight não entende muito bem o sentido da coisa, e a
“pegadinha do bem” acaba sem o efeito desejado. Por fim, a
noitada termina no bar do Kevin. Com isso, a pegadinha do Jim foi
forçar as pazes entre o dono do bar e o noivo, que não se falavam
desde que Dwight despediu Kevin.


E conforme o tempo de vídeo vai passando, sentimos que os nove
anos de série estão chegando ao final. A última fala de Andy
Bernard (Ed Helms) resume o sentimento nostálgico das últimas
cenas. “Queria
que houvesse uma forma de saber que estamos vivendo nossos anos
áureos, antes de eles terem terminado”.
O pós-festa de casamento, no armazém do escritório, reúne os
funcionários pela última vez em seu ambiente de trabalho.
Curiosamente, percebemos vários membros da equipe real de produção
do seriado misturados ao elenco. Inclusive o produtor executivo, Greg
Daniels, infiltrado na foto oficial final. A ficção toma rumos à
sua fusão inevitável com a realidade, o momento no qual deixará de
existir.
Discretamente, os funcionários começam a deixar o armazém e
caminhar para a sede do escritório, onde farão sua reunião final
em reservado. Cada qual em seu cantinho de origem, sua mesa, o lugar
onde pertenceram pelos últimos nove anos. Novamente, torna-se
ambíguo e difícil dizer onde terminam os personagens e começam os
artistas que os interpretam. Ali, reunidos e embalados pela bonita canção de Creed Bratton (escrita por ele próprio), reconhecem a importância
de todo o tempo que passaram juntos, e do quão maravilhoso, apesar
de entediante e cansativo, foi trabalhar na Dunder Mifflin por todo
esse tempo. Creed resume bem: “Não
importa como você chegou lá, ou onde foi terminar. Seres humanos
têm esse dom milagroso de fazer de qualquer lugar o seu lar”. E
ali, terminava o lar daqueles personagens/artistas. Agora, cada um toma seu rumo.
No
fim das contas, o grande barato de The Office
(tanto a versão britânica original quanto a americana) foi conseguir transformar a
rotina maçante e entediante de um escritório comum em algo
engraçado e peculiar de se ver. No decorrer de nove anos, assistimos
pessoas comuns se transformarem em personagens carismáticos, com
suas características inconfundíveis. E as vimos transformar seu
ambiente de trabalho em seus lares, colegas de trabalho em
companheiros de vida. E se aproximaram de nós justamente por isso. É
o que todos nós fazemos, todos os dias de nossas vidas.
Na última cena, todos deixam o
escritório. Pam é a última. Retira da parede o quadro com uma
pintura que fez da faixada do prédio, há vários anos atrás. “Há
muita beleza nas coisas comuns.” escutamos sua voz. “Não é esse
o objetivo de tudo isso?”