sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 06)


Atualmente – Gusttavo Lima



O Pedro Henrique, amigo meu que tem certas informações privilegiadas, um dia me disse: “Anota ai, o próximo nome de sucesso da música sertaneja vai ser Gustavo Lima”. Acho que, no início, escrevia com um “t” só (o que já escancara a intenção de que colocou essa letra extra ai). Dai ele ofereceu cds grátis do tal Gustavo e de outros tais Humberto e Ronaldo. Cds estes que recusei, educadamente. Menos de 6 meses depois, Gustavo Lima e Humberto e Ronaldo eram a sensação no Faustão.

Na época, o sertanejo universitário já estava bombando, o cenário parecia abarrotado de artistas meia-boca. A afirmação dele me soou pretensiosa, principalmente porque eu achava que não cabia mais tanta coisa ruim no mundo. Mas coube.

Nem existe muita coisa a ser dita sobre esses artistas da nova geração. Exceto que são fruto pura e simplesmente de artimanhas mercadológicas de empresários do ramo. Tudo bem que os caras são até talentosos, mas a verdade é que isso não conta muito para ganhar dinheiro, nesse caso. Em poucos meses, qualquer dupla (ou artista) que contrate um bom empresário pode estourar nas rádios – vide o tal Israel Novaes, uma verdadeira LÁSTIMA (inclusive de talento). 
Diz que é sertanejo

Por esse motivo, a velocidade de produção de hits tem que ser alta. Afinal, o importante é chegar logo na mídia. Ter música pronta pra ser lançada no Carnaval, no Caldas Country, no Villa Mix. Não interessa se é boa ou ruim. Entra ai, inclusive, a importância das onomatopéias: fáceis de fazer, mais fáceis ainda de decorar.

Nem precisa lembrar que, a essa altura, a temática e o instrumental já estão totalmente dissociados da música caipira de raiz. Aliás, esses caras que estão ai nem se interessam tanto pelas raízes assim. Não fazem questão de usar as roupas características, de tocar viola e sanfona, de falar sobre elementos do campo. Nem de cantar fazem questão – sobram playbacks. A segunda voz, geralmente, é fraca – está ali só para caracterizar a configuração visual de “dupla”.Quando existe.

Dá uma olhada na beleza que é essa letra:

Balada Boa (Tchê Tchê Rê Rê)
(Gusttavo Lima)

Eu já lavei o meu carro
Regulei o som
Já tá tudo preparado
Vem que o reggae é bom

Menina fique à vontade
Entre e faça a festa
Me liga mais tarde,
Vou adorar, vamo nessa

Gata me liga
Mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Até o sol raiar

Gata me liga mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Que hoje vai rolar

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

(Repete)
Se você me olhar vou querer te pegar
E depois namorar, curtição
Que hoje vai rolar

Gata me liga
Mais tarde tem balada
Quero curtir com você na madrugada
Dançar, pular
Até o sol raiar
(2x)

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você

O Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Rere
Tche Tche Tche Tche
Gusttavo Lima e você


Cara, não adianta. Não me convence.


Principais artistas do período: Gusttavo Lima, Luan Santana, Paula Fernandes, Michel Teló, Humberto e Ronaldo, Maria Cecília & Rodolfo, Thiago Brava, Lucas Lucco, Israel Novaes

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 05)


 

2000 – Bruno e Marrone



No meu universo, o sertanejo universitário começou com um professor do ensino médio. Não foram os estudantes, muito menos universitários. Esse professor meu de física da oitava série estava desenvolvendo um trabalho de laboratório e precisava de alunos que se voluntariassem a ajudá-lo durante as aulas. Eu era um desses. Um dia, quando fui colocar os materiais das aulas no porta malas do carro dele – pipetas, beckers, calculadoras científicas e toda essa parafernália - o professor soltou essa: “Sei que você é do rock, então vou colocar um som especialmente pra você”. E bombou um Bruno e Marrone, no último volume.

Confesso que aquilo me causou certa vergonha. Alheia e própria. Mas me chamou a atenção o fato de ele ouvir aquilo sem constrangimento. Quer dizer, Zezé, Chitão e Leonardo ainda eram bregas. Mas Bruno e Marrone, não! O sertanejo havia começado uma invasão abrupta e devastadora nos carros de playboy (inclusive nos professores playboys)!

Exatamente! Bruno e Marrone são os culpados pelo sertanejo universitário. Se tiver que jogar pedra na casa de alguém, é na deles. As grandes produções sertanejas, com músicos de primeira linha e orçamentos altíssimos já existiam, claro – os chitões que começaram. Mas, de maneira bem interessante, a elitização do sertanejo foi iniciada com a gravação do "Acústico Ao Vivo" do Bruno e Marrone, em 2001 - justamente o que meu professor colocou pra tocar. (Vale uma menção honrosa, também, a dupla Rio Negro & Solimões, que em 1998 inseriu a batida tecno na música “De São Paulo a Belém” e instalou a ambiguidade em nossos ouvidos.).

Aliás, ressalte-se que antes desse acústico, os próprios Bruno e Marrone só faziam sucesso entre as classes mais baixas, desde 1994. São eles os responsáveis por um fenônemo até então inédito: ficaram famosos antes de saírem na mídia de massas. Os primeiros álbuns que gravaram se tornaram bastante populares entre os vendedores de disco pirata. A pirataria foi a grande aliada da dupla – que vendia milhares de álbuns sem nunca ter ido sequer no programa do Túlio Isac (Ganhooooouuuuuuu!).

Esse foi o vírus
Para coroar, em 1999, a dupla participou de um especial para uma rádio em Goiânia. Esse especial vazou e foi comercializado clandestinamente como “Bruno e Marrone Acústico”. Vendeu milhões em todo o Brasil. O sucesso foi tamanho que a gravadora resolveu oficializar o disco, e o lançou com uma qualidade superior no mesmo ano. Vendeu outras mais de 500.000 cópias.

No ano seguinte, veio o Acústico Ao Vivo, com o lançamento do DVD do show. E, com ele, a consagração definitiva, porque paralelamente, surgiam os primeiros aparelhos de DVD automotivo – apenas nos carros dos playboys. Como não era moda o lançamento de shows em vídeo, a única coisa que a playboyzada tinha para ouvir e ver nos carros era o som do momento – Bruno e Marrone Acústico (tá, esse fim foi por minha conta – mas explica muita coisa).

O fato é que, depois disso, a coisa se espalhou igual a notícia ruim. Surgiram diversas duplas novas, a maioria lançando a carreira com discos acústicos e ao vivo, acompanhadas de DVD. Inclusive hoje é fácil achar na rua propagandas de duplas totalmente desconhecidas convidando para a gravação do DVD oficial. O modelo de mercado foi mudado e essa nova estratégia se tornou comum. Afinal, o custo de se gravar um show e lançá-lo como disco é infinitamente menor do que a produção do álbum em estúdio, já que a própria plateia, ao pagar ingresso, financia a obra.


A Saudade é o Prego
(Nilma Pinóchio)

Deu um arrocho no peito
Eu fiquei apavorado
São Paulo ficou pequena
Um lugarzinho abafado
Peguei a Via Anhanguera
E a coisa ficou pior
Quando passei em Campinas a
Dava pena dava dó
No trevo de Americana
Pensei, não vou agüentar
De Limeira até Araras
Fui chorando sem parar
Uma parada em Leme
Dei um alô a platéia
Foi lá em Pirassununga
Que eu tive uma boa idéia
E parar em Ribeirão
Tomar um chopp gelado
E lá eu passei em Franca
Comprei uma bota invocada
E na festa de Barretos
Cheguei muito apaixonado

A saudade é um prego
Coração é um martelo
Fere o peito e dói na alma
E vai virando um flagelo (4x)

De Uberaba à Uberlândia
Fui contemplando a beleza
Dando um tapa na saudade
Ouvindo moda sertaneja
Cidade de Araguari
O meu pranto era prova
Fui curar minha ressaca
Nas águas de Caldas Novas
Tem coisas que a gente pensa
Coração fica doente
Pensei na Lua-de-mel
Na Pousada do Rio Quente
E no Trevo de Morrinhos
Chorando igual criança
Se encontra-la em Goiânia
Eu vou cheio de esperança
E se na linda Goiânia
Eu não encontrar niguém
Amanhã bem cedo eu sigo
Com destino à Belém
Vou até no fim do mundo
Mas quero encontar meu bem

A saudade é o prego
Coração é o martelo
Fere o peito e dói na alma
E vai virando flagelo (4x)



Principais artistas do período: Bruno e Marrone, Rio Negro e Solimões, Guilherme e Santiago, Marcos e Léo, João Bosco e Vinícius, César Menotti e Fabiano, Jorge e Mateus, Victor e Léo, Fernando e Sorocaba, Marcos e Belutti, João Neto e Frederico, Cristiano Araújo, Eduardo Costa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 04)



1980 e 1990 – Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Chrystian & Ralf


Fivelas sobrando
Eu me lembro da primeira vez em que vi o Leandro e Leonardo. No Faustão. Aliás, bem provavelmente, era a primeira vez em que ELES FORAM ao Faustão. Eu devia ter uns... sei lá... 4 ou 5 anos. A memória é bem vaga. Mas me lembro da sensação estranha de pensar: “espera ai! Esses caras não são a dupla sertaneja. A dupla é aquela do cara de cabelo esquisito e voz fina”. No auge da minha ignorância infantil, a única dupla que existia era Chitãozinho e Xororó – e só podia ter uma dupla. Depois que ouvi os novatos cantando, me conformei: “Ah bom, também tem voz fina”.

Os falsetes desesperados (aquelas vozes esganiçadas) entraram para o hall da fama do sertanejo no início dos anos 80, com o José e Durval (aliás, só fui descobrir que esse era o verdadeiro nome dos chitões em um filme dos Trapalhões – claro que passei a meia hora seguinte rachando de rir). Até então, existiam vozes finas e bem postadas, mas essa voz esganiçada (e que só faz sucesso desse jeito aqui no Brasil) era novidade até então. Iniciava-se a era dos 'mullets' também... esse tipo de cabelo que o McGyver, Daniel-San e mais um monte de personagens oitentistas colocaram em voga – e que a turma do sertanejo abraçou com entusiasmo.

Chitãozinho e Xororó foram a dupla de vanguarda na televisão brasileira. Foram os grandes responsáveis pela popularização maciça da música sertaneja – mas de uma forma que, já nessa época, deveria deixar de se chamar “música caipira”. Foram eles os primeiros a virar arroz de festa na Globo, principalmente como cantores nas músicas tema de novela. Também foram os principais responsáveis por começar a utilizar a guitarra com solos, no maior estilo heavy metal, na introdução das músicas – o que resultou numa mistura pra lá de cafona, bastante comum até a metade dos anos 90. Ouça a introdução de “Wasting Love”, do Iron Maiden, e a de “Toma Juízo”, do Zezé Di Camargo, ou “Entre Tapas e Beijos”, do Leandro e Leonardo. A premissa é a mesma: notas de guitarra em dueto, com intervalos musicais de terça. Não sei quem pensou nisso primeiro, mas a ideia definitivamente não foi boa.

Depois dos pais da Sandy e Júnior (hahaha, high five!), vieram Leandro e Leonardo, lá pra 1985, aproximadamente. Se a temática anterior já havia aproximado de modo bem meloso das estórias românticas, os irmãos plantadores de tomate do interior de Goiás terminaram de empurrar o carro pela ribanceira. Introduziram certo elemento erótico/sensual, com músicas de teor levemente picante. De qualquer forma, letras como “Tira essa roupa molhada / quero ser sua toalha /e o seu cobertor” ainda estavam bem longe do que hoje é considerado sexy (meu amigo, pega um Mr. Catra pra ouvir... Ou melhor, não!).

Olha a cabeleira do Zezé
Logo em seguida, no início dos anos 90, veio a onda Zezé Di Camargo e Luciano (ele, o Zezé, já havia tentado o sucesso com vários irmãos – Camargo e Camarguinho, Zazá e Zezé – e até carreira solo). Em relação à dupla de tomateiros, houve um sensível aumento de qualidade, tanto em conteúdo quanto musicalmente. O bolero entrou de sola, e a dupla dos camargos chegou a gravar com Julio Inglesias – e em espanhol!
Pasmem.

Interessante notar que, mesmo após a regravação da Maria Bethânia para o hit “É o amor”, do Zezé e Luciano, o estilo sertanejo remodelado à cidade ainda manteve-se à margem da sociedade. Nem mesmo o drama das mortes de João Paulo (1997), da dupla João Paulo e Daniel e de Leandro (1998), acompanhados em rede nacional, alavancaram o sucesso sertanejo às elites. Aliás, a Globo chegou a criar um especial - “AMIGOS” - somente com apresentações sertanejas, mas ainda assim as duplas conseguiam atingir, majoritariamente, apenas as classes C e D. Estive presente em um show do Zezé (não me pergunte o porquê) na Praça do Trabalhador, em Goiânia, e deu bem para reparar isso. Um público gigantesco! Mas pouca (ou nenhuma) gente das classes mais altas. Sertanejo, até metade pro fim dos anos 90, ainda era considerado “música de empregada” ou “de cabaré”. De certa forma, bom para a indústria fonográfica, claro! Mas isso não significava, necessariamente, a inclusão definitiva do gênero. (Pergunte a qualquer um o que achava do “Sabadão Sertanejo”, do SBT. Decadência total.)

Nessa época, “música caipira”, “sertanejo de raiz” e “moda de viola” já eram termos bem comuns para diferenciar os 'sertanejos-falsete' daqueles que foram a raiz do gênero.

Menção honrosa para Chrystian e Ralf – que terminaram de consolidar a moda country no sertanejo urbano – e Sandy e Junior, uma tentativa solitária e bem sucedida de inserir os elementos do gênero no meio infantil.


Desculpe, mas eu vou chorar
(Gabriel César Augusto)

As luzes da cidade acesas
Clareando a foto sobre a mesa
E eu comigo aqui trancado
nesse apartamento
Olhando o brilho dos faróis
Eu me pego a pensar em nós
voando na velocidade
do meu pensamento

E saio a te procurar
nas esquinas
em qualquer lugar
e as vezes chego a te encontrar
num gole de cerveja
E quando vem a lucidez
estou sozinho outra vez
E então volto a conversar
com minha tristeza

Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
Não ligue, se eu não te ligar
Faz parte dessa solidão
Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
Na hora em que você voltar
Perdoe o meu coração.

Tinha uma vizinha, lá no Parque das Laranjeiras, que atormentava a gente todo santo dia, encerando o chão da casa (no século passado, passavam cêra no chão das casas para brilhar mais!) e cantando essas preciosidades ai. Trauma até hoje.



Principais artistas do período: Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chrystian e Ralf, Gian e Giovani, João Paulo e Daniel, Rick e Renner, Roberta Miranda, Chico Rey e Paraná, João Mineiro e Marciano, Gilberto e Gilmar, Nalva Aguiar, Trio Parada Dura, Almir Sater.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 03)




1970 – Sérgio Reis


Serjão cantando "Coração de Papel"
Se você escutar a música “Coração de Papel” (que já foi até música tema de novela da Globo), vai achar que é sertaneja. Talvez pelo tema. Mas, inegavelmente, pela voz do Sérgio Reis. Essa música
foi um estouro na época da Jovem Guarda, em 1967. Música de ricos, anti-comunistas. Mainstream total, por incrível que pareça.

E o Serjão veio a mudar de gênero no início dos anos 70, passando para o time dos caipiras. E mudando de estilo, a meu ver, mudou a própria evolução da música também. Imortalizou canções como “Menino da Porteira”, “Chalana”, “Pinga Ni Mim” e trouxe um ar de modernidade para as músicas. De repente, ouvir sertanejo não era tão fim de carreira assim. Afinal, há pouco tempo atrás, torcia-se por duetos do Sérgio com Roberto Carlos, Vanderléia.

Com a ascensão de Milionário e José Rico e outras duplas mais melódicas, o estilo sertanejo tornou-se um pouco mais audível, menos repetitivo. Sérgio Reis e os artistas da época investiam em novos instrumentos, novas técnicas, nova temática. Saiam as violas, entravam sanfonas, teclados, percussão. A dupla Léo Canhoto e Robertinho chegou a introduzir a guitarra elétrica em suas músicas, no final da década de 1960. Tudo isso ocasionou uma grande popularização do cancioneiro caipira.

Renato Teixeira e Sérgio Reis, 2010
Com a popularização, novos artistas tiveram espaço. Artistas com propostas diferentes, mantendo a ligação com o campo. Surgiu Renato Teixeira, por exemplo. Artista mais refinado que, frequentemente, flertava com a MPB. Influenciou Almir Sater, que nessa época tomava lições de viola com Tião Carreiro e se lançaria na década seguinte. (Sater e Teixeira acabaram virando grandes parceiros musicais).

Em entrevista à Revista da RBA (Rede Brasil Atual - SP), em 2011, Renato conta:

"Até 1970, a música brasileira era bem dividida. Bossa nova, samba, nordestina, boleros. E a música caipira estava encerrando um ciclo genial. Nesse momento, o Sérgio Reis, a dupla Léo Canhoto e Robertinho e eu começamos a mexer com essa música. Minha influência do caipira vem de Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Guimarães Rosa. E Léo Canhoto e Robertinho mostraram que a dupla não precisava ser só aquele modelo tradicional, que podia ser o que vemos e ouvimos hoje com Chitãozinho e Xororó. Aí o terreno ficou fértil."

 A questão que ficou escancarada na época e que deveria se tornar mais clara nos dias de hoje era uma só: é possível fazer música caipira de qualidade e com viabilidade comercial.
 
Romaria
(Renato Teixeira)

É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló,
dessa vida cumprida a só

Refrão
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida 2x

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Curiosidade: “Romaria” se destacou tanto que diversos artistas de estilos variados já a regravaram. A versão da Elis Regina, de 1977, ganhou projeção internacional.


Principais artistas do período: Sérgio Reis, Milionário e José Rico, Rolando Boldrin, Leo Canhoto e Robertinho, Renato Teixeira, Gino e Geno

Referência: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/63/entrevista


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 02)




1960 – Tião Carreiro e Pardinho

A primeira vez que eu vi a imagem do Tião Carreiro, fiquei totalmente surpreendido. Foi numa capa de CD pirata, comprado nesses postos de beira de estrada, quando eu tinha uns 14 anos. Eu já conhecia várias músicas desde muito pequeno, já que meu pai e o tio Jomar sempre foram fãs e só trocaram as fitas K-7 pelos CDs (e hoje, pelo iPod). Mesmo assim, era estranho ver que aquele vozeirão pertencia ao cara de Black Power e bigodão mariachi.

E é estranho que, até atualmente, na era do You Tube, eu ainda não tenha visto um vídeo decente sequer de uma performance dele com o Pardinho. O cara é um ícone do gênero. Junto com Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, e outros ícones, são a Elis Regina, o Cazuza do sertanejo. A dupla com o Pardinho lançou mais de 300 músicas. E é muito raro vermos homenagens, reportagens ou programas especiais dedicados a eles na televisão ou mesmo na internet. O que me leva a crer que não se trata de artistas: trata-se do gênero.

É evidente que o sertanejo é um gênero musical desprezado, marginalizado. Ainda que Luans Santanas e Cesar Menottis apareçam no Faustão todo domingo e disputem o Medida Certa no Fantástico, o fato é que, para ganharem acesso às massas, os artistas atualmente tidos como sertanejos se distanciaram bastante das raízes. E, a meu ver, nada confirma mais essa marginalização ao estilo do que a completa ausência de menção a Tião Carreiro e Pardinho na nossa cultura popular – ainda que suas vozes continuem presentes nos churrascos de família e no som dos automóveis de nossos tios. Ainda que exaustivamente regravados pela pleiboizada que ocupa espaço na TV e no rádio.

Cara de Mau
Tião Carreiro entra numa época em que a música caipira começa a sofrer suas primeiras adaptações para entrar, de maneira tímida, no circuito de massas. Antes acompanhados apenas por violas, tocadas pelos próprios cantores, artistas como Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão e, um pouco mais à frente, Milionário e José Rico dedicam um pouco mais de atenção à qualidade de suas vozes. Permitem-se serem acompanhados por percussões discretas e violões. No auge do brega, alguns incorporam trompetes e teclados. A figura dos cantores também é valorizada, incorporando ares da cultura western e country americana - chapéus escandalosos, cintos, espora e fivelas nada discretos.


Apesar de se tornarem mais conhecidos, a música caipira (e, nessa época, ainda era considerada “sertanejo de raiz”) ainda estava à margem. A temática ainda era a vida no campo, as estórias de amor e de morte, porém com uma leve tendência ao romantismo e aos elementos da cidade.

Destaque para “Boneca Cobiçada”, de Palmeira e Biá, com letra bastante ousada para a época (“Teu corpo não tem dono / Teus lábios têm veneno”). Aliás, a esse respeito, é importante dizer que ainda se dava bastante valor aos autores da música, originalmente. Via de regra, quem criava, cantava.


A Vaca Já Foi Pro Brejo
(Tião Carreiro/Lourival dos Santos/Vicente P. Machado)

Mundo velho está perdido
Já não endireita mais
Os filhos de hoje em dia já não obedece os pais
É o começo do fim
Já estou vendo sinais
Metade da mocidade estão virando marginais
É um bando de serpente
Os mocinhos vão na frente, as mocinhas vão atrás

Pobre pai e pobre mãe
Morrendo de trabalhar
Deixa o coro no serviço pra fazer filho estudar
Compra carro a prestação
Para o filho passear
Os filhos vivem rodando fazendo pneu cantar
Ouvi um filho dizer
O meu pai tem que gemer, não mandei ninguém casar

O filho parece rei
Filha parece rainha
Eles que mandam na casa e ninguém tira farinha
Manda a mãe calar a boca
Coitada fica quietinha
O pai é um zero à esquerda, é um trem fora da linha
Cantando agora eu falo
Terreiro que não tem galo, quem canta é frango e franguinha

Pra ver a filha formada
Um grande amigo meu
O pão que o diabo amassou o pobre homem comeu
Quando a filha se formou
Foi só desgosto que deu
Ela disse assim pro pai: “quem vai embora sou eu”
Pobre pai banhado em pranto
O seu desgosto foi tanto que o pobre velho morreu

Meu mestre é Deus nas alturasO mundo é meu colégio
Eu sei criticar cantando, Deus me deu o privilégio
Mato a cobra e mostro o pau
Eu mato e não apedrejo
Dragão de sete cabeças também mato e não alejo
Estamos no fim do respeito
Mundo velho não tem jeito, a vaca já foi pro brejo



Principais artistas do período: Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão, Irmãs Castro, Sulino e Marrueiro, Palmeira e Biá, o trio Luzinho, Limeira e Zezinha, José Fortuna, Pena Branca e Xavantinho, Milionário e José Rico (no início de carreira), Liu e Léo, Jacó e Jacozinho.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 01)

 

1929 – Cornélio Pires

Cornélio Pires é considerado como o criador da música caipira. O interessante é que ele não era cantor, nem caipira! Tinha formação em jornalismo, era escritor e pesquisador da cultura folclórica brasileira – primo do Orígenes Lessa.

Cornélio Pires
Seu foco, durante muito tempo, foi a “cultura caipira”, e chegou a escrever mais de vinte livros sobre o tema. Peregrinava pelo interior de São Paulo para sorver dessa fonte. Nessas andanças, apaixonou-se pela música caipira original, ligada às tradições circenses e à religião.

Sim, religião!! Como uma boa parte dos elementos da cultura brasileira, também a música sertaneja teve sua origem aí. As primeiras “modas de viola” surgiram nos grupos das Folias de Reis – pequenos grupos que visitavam as casas das pessoas para rezar e cantar, na véspera de natal. As músicas, acompanhadas de viola, tinha rimas e evocavam trechos da bíblia, bençãos aos donos da casa e de abrigo ou comida.

E o Cornélio conseguiu, em 1928, que a indústria fonográfica registrasse essas canções, com suas devidas adaptações (como a redução do número de pessoas e a diversificação da temática).

Com a possibilidade de exploração comercial, o gênero iniciou sua expansão. Geralmente, as modas (palavra portuguesa que designa “canto” ou “melodia”) eram cantadas em duas vozes (em intervalos musicais de terças), acompanhadas por viola (tocada ou ponteada/solada). As duplas criavam estórias de amor e de morte, críticas ao governo e à sociedade, chegavam a esboçar certo engajamento social – ainda que instaladas no campo (por exemplo, "A Revolução Getúlio Vargas" e "A Morte de João Pessoa", composições gravadas por Zico Dias e Ferrinho, em 1930). Os “causos” famosos invariavelmente ganhavam sua versão musical. Nessa época, surgiram os “desafios”, em que as duplas, tal qual repentistas, revezavam-se com outras duplas na criação das letras. Quem não conseguisse, perdia o desafio. O foco era totalmente no conteúdo das músicas. A qualidade das vozes ou diversificação de instrumentos ficavam totalmente em segundo plano.


Peito Sadio
(Zé Carreiro e Carreirinho)

Foi as quatro horas da manhã, meu cachorro de guarda latiu
Levantei para ver o que era, e vesti meu casaco de frio
Então vi que chegou um mensageiro, amuntado num burro turdio
Apiou e me disse bom dia ! E o bolso da baldrana ele abriu
Uma carta o rapaz me entregou e de novo amuntou e na estrada sumiu.

Dei a carta pro meu irmão ler, ele leu e me olhando sorriu,
“É convite pra nós ir na festa, vai haver um grande desafio”.
O meu pai já correu no vizinho, foi chamar o vovô e o titio
Nós cheguemo a pular de contente, lá em casa ninguém mais dormiu.
Pra quebrar aqueles campeonato nem com sindicato ninguém conseguiu.

Violeiro que mandou o convite, moram lá do outro lado do rio
Eles pensa que nós não vai lá, mais nós semo cabôco de brio
A peteca aqui do nosso lado, por enquanto no chão não caiu
Quando nós cheguemo no catira, os mais fraco na hora sumiu
Só cantemo moda de campeão e os tal que era bom nem se quer reagiu.

Perguntei para o dono da festa “onde foi que o senhor conseguiu
Esses tal violeiro famoso, que as moda de nós engoliu?”
O festeiro ficou pensativo, e mordeu no cigarro e cuspiu.
“Vocês são dois cabôco batuta, quem falou, pode crer, não mentiu”
Teve algum que cantar experimentou, mais o peito faiô e a voz não saiu.

As viola nós faz de encomenda, nosso peito é tratado e sadio,
Já cantemo três noite seguida e as moda nós não repetiu.
Quem repete é relógio de igreja e o triste cantar do tiziu
E agora com essa vitória, inda mais nossa fama subiu.
E vocês não deve discutir, se viemos aqui, foi vocês quem pediu. 



(Essa, com meu tio Marquinho cantando, é uma pérola! Hahaha) 
 
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Gilby Clarke no Bolshoi Pub




14/11/2013 - Goiânia/GO

Qualquer pessoa que trabalhe com Axl Rose, em algum ponto, chega à inevitável conclusão: “Esse cara quer que eu seja empregado dele”. E com Gilby Clarke não foi diferente. Até porque ele era, efetivamente, músico contratado do Guns'n'Roses no período em que tocou com Slash e companhia, entre 1991 e 1994.

Clarke substituiu Izzy Stradlin nas guitarras bases (que eram brochantemente ligadas alguns decibéis abaixo das guitarras solos de Slash) após esse último decidir pelo seu desligamento do Guns, de forma misteriosa até para os próprios membros da banda. Em sua autobiografia, Slash conta que Izzy, um dos que mais usava drogas durante as turnês, em certo ponto sumiu e não compareceu mais aos ensaios. Telefonou depois para Axl, dizendo que estava fora da banda. Ele mesmo, Stradlin, disse posteriormente que, uma vez que houvesse largado as drogas, enxergou a bagunça que era sua vida com o Guns, e decidiu se afastar. Isso da metade para o fim de 1991. Retomou contato com os antigos bandmates apenas de uns anos pra cá. Enfim.

Em meio ao rebuliço dos fãs mais radicais, Gilby assume seu posto. A fase ficou marcada no clipe de “Don't Cry”, em que um cartaz com os dizeres “Where's Izzy?” aparece discretamente na tela. Axl, nas turnês do “Use Your Illusion”, o apresentava como sendo Gilby Clarke...the man with the new corvette”.


Por falar em “Use Your Illusion”, essa foi a grande sorte de Gilby. Ter substituído Izzy no curso da turnê mundial e no auge do sucesso da banda o tornou um rosto conhecido em frações de segundo. Ele é o cara que aparece em todas as filmagens do famoso show no Tokyo Dome, no Japão, eternizado em uma das raras apresentações do Guns em qualidade de som e imagem superiores. Praticamente todo o resto é bootleg ou essa depressão de banda que é atualmente, com a empresa Axl Inc.

Ou seja, Gilby foi apresentado, conhecido e eternizado em grande estilo. O segundo cara dos lenços (o primeiro, obviamente, é o Steven Tyler). O cara do corvette novo.

No dia 14/11, ele voltou ao Brasil para uma série de 4 apresentações. De Los Angeles, desceu direto em Goiânia, no Bolshoi Pub, para passar o som.

Quando eu cheguei, antes da “abertura dos portões”, não tinha ninguém na porta do pub. O preço do ingresso a R$110,00, somado ao início do Festival Vaca Amarela no Martim Cererê (bandas boas a preços justos), e a tensão pré-Caldas Country que esvaziou a cidade contribuíram também para o esvaziamento do show. Uma pena. Alguns minutos depois das 21h30, vi Andria e Ivan Busic (os irmãos Dr. Sin que acompanham Gilby na turnê brasileira e que dispensam apresentações) saírem pela porta principal, após a passagem de som. Desci os olhos pro celular pra comentar com a galera do WhatsApp e, quando levanto novamente, o cara tá na minha frente, ainda de mala em punhos. Isso mesmo, o cara do corvette novo. Arrebentado pelas horas de vôo, blazer amassado, cabelos ensebadamente rock'n'roll, óculos de sol aviador quando o sol já havia sumido há, pelo menos, 4 horas... Cara, isso é estar na estrada.

E foi heroico ver aquele sujeito destruído por mais de 12 horas de vôo subir no palco empunhando sua Les Paul Goldtop historicamente surrada e enfrentar pouco mais de 200 pessoas ansiosas por vê-lo, tratando-as como se fossem o Tokyo Dome lotado, de outros anos. Pelo menos foi assim na primeira música – por ironia, “Wasn't Yesterday Great”. Depois de alguns “urrul” da plateia, ele caiu na real de que não estava nos fantásticos e apertados pubs de Hollywood. Aquilo era Goiânia do pé rachado.

Depois da primeira, veio “Black”, um clássico da sua carreira solo. Aliás, músicas dessa fase sobraram. Muita gente foi para ouvir Guns'n'Roses - e se decepcionou, porque ele tocou só “It's So Easy” e a batidíssima “Knocking on Heavens Door”, que nem é do Guns, diga-se de passagem. Knocking, pra mim, é como Pais e Filhos da Legião, Come As You Are do Nirvana, Another Brick In The Wall do Pink Floyd. Músicas fantásticas, mas que não refletem a profundidade obra da banda e viraram gigantescos “arroz com feijão”. No caso do Gilby, hits como “Cure me... or kill me”, “Tijuana Jail”, “Motorcycle Cowboys” (da fase do Kill for Thrills) e “Be Yourself” (do Rockstar Supernova), verdadeiras peças do Hollywood HardRock farofa de raiz, permanecem de lado sem o seu devido valor. Ele tocou todas, para uma plateia morna. Me excluo dessa.

Mas o pior foi quando ele disse “Now, I'll play a song of a great band. The band who inspired me. Do you know The Rolling Stones?” ou algo nesse sentido. Uma música dos Stones! Que isso! Casa abaixo era o mínimo. Mas o que se ouviu foram alguns aplausos isolados, no máximo um “urrul!” que surpreendeu ao próprio Gilby. E mandou ver “It's Only Rock'n'Roll (but I like it)”. E mais tarde, antes de começar Dead Flowers (também dos Stones), mandou essa “Do you want more Stones? Oh, come on, I'll play whatever the fuck I want”.

"Anybody out there?"
Performances fantásticas dos irmãos Busic e do próprio guitarman. Apesar da plateia, o show seguia ótimo. A parte patética veio na própria “Knocking On Heavens Door”. Cantando a versão do Guns, ele pediu participação da plateia no coro final. E a cada vez que não era 100% correspondido (ou seja, quase sempre), ele mandava pérolas. De primeiro, disse “Oh my god! You sounded like angels!”. Da segunda, mandou “This night will be amazing!”. Na terceira, falou “I've never heard something like this before. Admit it! You've been practicing!”. Era de morrer de rir, por falta de outra palavra mais trágica. A culpa não foi dele.



Por fim, encerrou com “Tijuana Jail”, dizendo que mal espera para voltar a Goiânia novamente para agitar as coisas. Voltou rapidamente para o encore, tocou “Alien” e sumiu para o backstage. Impressionante é que, pelo que li por ai, o show no Bolshoi parece ter sido bem melhor que o de Uberlândia, São Paulo e Rio de Janeiro.

De qualquer forma, Gilby é um cara impressionante. Respira, vive, veste, exala rock'n'roll. É um legítimo rockstar, um guitar hero, e de uma simpatia invejável. Mesmo com uma plateia pouco receptiva, com o cansaço da estrada e numa cidade desconhecida pra ele, conseguiu fazer um show memorável. Um setlist de 11 músicas, com pouco mais de 1 hora de duração, mas que, pra mim, valeu cada minuto (e começou pontualmente! Ao contrário de certa Maria Gadu, que no mesmo dia e horário deixava a plateia esperando 3 horas pelo início do show no Centro Cultural Oscar Niemeyer). Gosto de pensar que esses caras são história viva. Em maior ou menor grau, participaram da formação do que conhecemos hoje como rock'n'roll. São os Napoleões, Getúlios e Joanas D'Arc do meu estilo favorito – e ainda existem, respiram por ai.


E ainda faturei uma palheta!



14/11/2013 0h00 – Goiânia/GO, Bolshoi Pub
SETLIST:

1. Wasn't Yesterday Great
2. Black
3. It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It) (cover dos Rolling Stones)
4. Motorcycle Cowboys (música do Kill for Thrills)
5. Be Yourself (música do Rock Star Supernova)
6. It's So Easy (música do Guns N' Roses)
7. Cure Me ... Or Kill Me ...
8. Knockin' on Heaven's Door (música do Bob Dylan, versão do Guns N' Roses)
9. Dead Flowers (cover dos Rolling Stones)
10. Tijuana Jail 
 
Bis:

11. Alien 


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