segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

E vamos falar sobre essa tão maltratada MÚSICA SERTANEJA (parte 01)

 

1929 – Cornélio Pires

Cornélio Pires é considerado como o criador da música caipira. O interessante é que ele não era cantor, nem caipira! Tinha formação em jornalismo, era escritor e pesquisador da cultura folclórica brasileira – primo do Orígenes Lessa.

Cornélio Pires
Seu foco, durante muito tempo, foi a “cultura caipira”, e chegou a escrever mais de vinte livros sobre o tema. Peregrinava pelo interior de São Paulo para sorver dessa fonte. Nessas andanças, apaixonou-se pela música caipira original, ligada às tradições circenses e à religião.

Sim, religião!! Como uma boa parte dos elementos da cultura brasileira, também a música sertaneja teve sua origem aí. As primeiras “modas de viola” surgiram nos grupos das Folias de Reis – pequenos grupos que visitavam as casas das pessoas para rezar e cantar, na véspera de natal. As músicas, acompanhadas de viola, tinha rimas e evocavam trechos da bíblia, bençãos aos donos da casa e de abrigo ou comida.

E o Cornélio conseguiu, em 1928, que a indústria fonográfica registrasse essas canções, com suas devidas adaptações (como a redução do número de pessoas e a diversificação da temática).

Com a possibilidade de exploração comercial, o gênero iniciou sua expansão. Geralmente, as modas (palavra portuguesa que designa “canto” ou “melodia”) eram cantadas em duas vozes (em intervalos musicais de terças), acompanhadas por viola (tocada ou ponteada/solada). As duplas criavam estórias de amor e de morte, críticas ao governo e à sociedade, chegavam a esboçar certo engajamento social – ainda que instaladas no campo (por exemplo, "A Revolução Getúlio Vargas" e "A Morte de João Pessoa", composições gravadas por Zico Dias e Ferrinho, em 1930). Os “causos” famosos invariavelmente ganhavam sua versão musical. Nessa época, surgiram os “desafios”, em que as duplas, tal qual repentistas, revezavam-se com outras duplas na criação das letras. Quem não conseguisse, perdia o desafio. O foco era totalmente no conteúdo das músicas. A qualidade das vozes ou diversificação de instrumentos ficavam totalmente em segundo plano.


Peito Sadio
(Zé Carreiro e Carreirinho)

Foi as quatro horas da manhã, meu cachorro de guarda latiu
Levantei para ver o que era, e vesti meu casaco de frio
Então vi que chegou um mensageiro, amuntado num burro turdio
Apiou e me disse bom dia ! E o bolso da baldrana ele abriu
Uma carta o rapaz me entregou e de novo amuntou e na estrada sumiu.

Dei a carta pro meu irmão ler, ele leu e me olhando sorriu,
“É convite pra nós ir na festa, vai haver um grande desafio”.
O meu pai já correu no vizinho, foi chamar o vovô e o titio
Nós cheguemo a pular de contente, lá em casa ninguém mais dormiu.
Pra quebrar aqueles campeonato nem com sindicato ninguém conseguiu.

Violeiro que mandou o convite, moram lá do outro lado do rio
Eles pensa que nós não vai lá, mais nós semo cabôco de brio
A peteca aqui do nosso lado, por enquanto no chão não caiu
Quando nós cheguemo no catira, os mais fraco na hora sumiu
Só cantemo moda de campeão e os tal que era bom nem se quer reagiu.

Perguntei para o dono da festa “onde foi que o senhor conseguiu
Esses tal violeiro famoso, que as moda de nós engoliu?”
O festeiro ficou pensativo, e mordeu no cigarro e cuspiu.
“Vocês são dois cabôco batuta, quem falou, pode crer, não mentiu”
Teve algum que cantar experimentou, mais o peito faiô e a voz não saiu.

As viola nós faz de encomenda, nosso peito é tratado e sadio,
Já cantemo três noite seguida e as moda nós não repetiu.
Quem repete é relógio de igreja e o triste cantar do tiziu
E agora com essa vitória, inda mais nossa fama subiu.
E vocês não deve discutir, se viemos aqui, foi vocês quem pediu. 



(Essa, com meu tio Marquinho cantando, é uma pérola! Hahaha) 
 
...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Gilby Clarke no Bolshoi Pub




14/11/2013 - Goiânia/GO

Qualquer pessoa que trabalhe com Axl Rose, em algum ponto, chega à inevitável conclusão: “Esse cara quer que eu seja empregado dele”. E com Gilby Clarke não foi diferente. Até porque ele era, efetivamente, músico contratado do Guns'n'Roses no período em que tocou com Slash e companhia, entre 1991 e 1994.

Clarke substituiu Izzy Stradlin nas guitarras bases (que eram brochantemente ligadas alguns decibéis abaixo das guitarras solos de Slash) após esse último decidir pelo seu desligamento do Guns, de forma misteriosa até para os próprios membros da banda. Em sua autobiografia, Slash conta que Izzy, um dos que mais usava drogas durante as turnês, em certo ponto sumiu e não compareceu mais aos ensaios. Telefonou depois para Axl, dizendo que estava fora da banda. Ele mesmo, Stradlin, disse posteriormente que, uma vez que houvesse largado as drogas, enxergou a bagunça que era sua vida com o Guns, e decidiu se afastar. Isso da metade para o fim de 1991. Retomou contato com os antigos bandmates apenas de uns anos pra cá. Enfim.

Em meio ao rebuliço dos fãs mais radicais, Gilby assume seu posto. A fase ficou marcada no clipe de “Don't Cry”, em que um cartaz com os dizeres “Where's Izzy?” aparece discretamente na tela. Axl, nas turnês do “Use Your Illusion”, o apresentava como sendo Gilby Clarke...the man with the new corvette”.


Por falar em “Use Your Illusion”, essa foi a grande sorte de Gilby. Ter substituído Izzy no curso da turnê mundial e no auge do sucesso da banda o tornou um rosto conhecido em frações de segundo. Ele é o cara que aparece em todas as filmagens do famoso show no Tokyo Dome, no Japão, eternizado em uma das raras apresentações do Guns em qualidade de som e imagem superiores. Praticamente todo o resto é bootleg ou essa depressão de banda que é atualmente, com a empresa Axl Inc.

Ou seja, Gilby foi apresentado, conhecido e eternizado em grande estilo. O segundo cara dos lenços (o primeiro, obviamente, é o Steven Tyler). O cara do corvette novo.

No dia 14/11, ele voltou ao Brasil para uma série de 4 apresentações. De Los Angeles, desceu direto em Goiânia, no Bolshoi Pub, para passar o som.

Quando eu cheguei, antes da “abertura dos portões”, não tinha ninguém na porta do pub. O preço do ingresso a R$110,00, somado ao início do Festival Vaca Amarela no Martim Cererê (bandas boas a preços justos), e a tensão pré-Caldas Country que esvaziou a cidade contribuíram também para o esvaziamento do show. Uma pena. Alguns minutos depois das 21h30, vi Andria e Ivan Busic (os irmãos Dr. Sin que acompanham Gilby na turnê brasileira e que dispensam apresentações) saírem pela porta principal, após a passagem de som. Desci os olhos pro celular pra comentar com a galera do WhatsApp e, quando levanto novamente, o cara tá na minha frente, ainda de mala em punhos. Isso mesmo, o cara do corvette novo. Arrebentado pelas horas de vôo, blazer amassado, cabelos ensebadamente rock'n'roll, óculos de sol aviador quando o sol já havia sumido há, pelo menos, 4 horas... Cara, isso é estar na estrada.

E foi heroico ver aquele sujeito destruído por mais de 12 horas de vôo subir no palco empunhando sua Les Paul Goldtop historicamente surrada e enfrentar pouco mais de 200 pessoas ansiosas por vê-lo, tratando-as como se fossem o Tokyo Dome lotado, de outros anos. Pelo menos foi assim na primeira música – por ironia, “Wasn't Yesterday Great”. Depois de alguns “urrul” da plateia, ele caiu na real de que não estava nos fantásticos e apertados pubs de Hollywood. Aquilo era Goiânia do pé rachado.

Depois da primeira, veio “Black”, um clássico da sua carreira solo. Aliás, músicas dessa fase sobraram. Muita gente foi para ouvir Guns'n'Roses - e se decepcionou, porque ele tocou só “It's So Easy” e a batidíssima “Knocking on Heavens Door”, que nem é do Guns, diga-se de passagem. Knocking, pra mim, é como Pais e Filhos da Legião, Come As You Are do Nirvana, Another Brick In The Wall do Pink Floyd. Músicas fantásticas, mas que não refletem a profundidade obra da banda e viraram gigantescos “arroz com feijão”. No caso do Gilby, hits como “Cure me... or kill me”, “Tijuana Jail”, “Motorcycle Cowboys” (da fase do Kill for Thrills) e “Be Yourself” (do Rockstar Supernova), verdadeiras peças do Hollywood HardRock farofa de raiz, permanecem de lado sem o seu devido valor. Ele tocou todas, para uma plateia morna. Me excluo dessa.

Mas o pior foi quando ele disse “Now, I'll play a song of a great band. The band who inspired me. Do you know The Rolling Stones?” ou algo nesse sentido. Uma música dos Stones! Que isso! Casa abaixo era o mínimo. Mas o que se ouviu foram alguns aplausos isolados, no máximo um “urrul!” que surpreendeu ao próprio Gilby. E mandou ver “It's Only Rock'n'Roll (but I like it)”. E mais tarde, antes de começar Dead Flowers (também dos Stones), mandou essa “Do you want more Stones? Oh, come on, I'll play whatever the fuck I want”.

"Anybody out there?"
Performances fantásticas dos irmãos Busic e do próprio guitarman. Apesar da plateia, o show seguia ótimo. A parte patética veio na própria “Knocking On Heavens Door”. Cantando a versão do Guns, ele pediu participação da plateia no coro final. E a cada vez que não era 100% correspondido (ou seja, quase sempre), ele mandava pérolas. De primeiro, disse “Oh my god! You sounded like angels!”. Da segunda, mandou “This night will be amazing!”. Na terceira, falou “I've never heard something like this before. Admit it! You've been practicing!”. Era de morrer de rir, por falta de outra palavra mais trágica. A culpa não foi dele.



Por fim, encerrou com “Tijuana Jail”, dizendo que mal espera para voltar a Goiânia novamente para agitar as coisas. Voltou rapidamente para o encore, tocou “Alien” e sumiu para o backstage. Impressionante é que, pelo que li por ai, o show no Bolshoi parece ter sido bem melhor que o de Uberlândia, São Paulo e Rio de Janeiro.

De qualquer forma, Gilby é um cara impressionante. Respira, vive, veste, exala rock'n'roll. É um legítimo rockstar, um guitar hero, e de uma simpatia invejável. Mesmo com uma plateia pouco receptiva, com o cansaço da estrada e numa cidade desconhecida pra ele, conseguiu fazer um show memorável. Um setlist de 11 músicas, com pouco mais de 1 hora de duração, mas que, pra mim, valeu cada minuto (e começou pontualmente! Ao contrário de certa Maria Gadu, que no mesmo dia e horário deixava a plateia esperando 3 horas pelo início do show no Centro Cultural Oscar Niemeyer). Gosto de pensar que esses caras são história viva. Em maior ou menor grau, participaram da formação do que conhecemos hoje como rock'n'roll. São os Napoleões, Getúlios e Joanas D'Arc do meu estilo favorito – e ainda existem, respiram por ai.


E ainda faturei uma palheta!



14/11/2013 0h00 – Goiânia/GO, Bolshoi Pub
SETLIST:

1. Wasn't Yesterday Great
2. Black
3. It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It) (cover dos Rolling Stones)
4. Motorcycle Cowboys (música do Kill for Thrills)
5. Be Yourself (música do Rock Star Supernova)
6. It's So Easy (música do Guns N' Roses)
7. Cure Me ... Or Kill Me ...
8. Knockin' on Heaven's Door (música do Bob Dylan, versão do Guns N' Roses)
9. Dead Flowers (cover dos Rolling Stones)
10. Tijuana Jail 
 
Bis:

11. Alien 


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sábado, 2 de novembro de 2013

Sobre “Drinking Buddies"






Eu adoro filmes de diálogo. É aquele filme em que não há muita ação, e em que a trama se desenrola basicamente em cima de relacionamentos - que, obviamente, se expressam nas falas dos personagens. O exemplo clássico é a trilogia do Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-Do-Sol e o mais recente, Antes da Meia-Noite), em que os protagonistas Jesse e Celine desfilam com seus dramas pelas ruas de cidades européias, remexendo conceitos (e preconceitos) dos telespectadores. Adoro esse tipo de filme porque, apesar de aparentemente sem ação, por incrível que pareça eles conseguem, geralmente, ir mais a fundo em questões fundamentais do que outros filmes que se propõe a tanto.

Assisti hoje a “Drinking Buddies”, que não foi lançado no Brasil ainda (e, portanto, até a presente data, não possui nome oficial em português - mas que poderia ser traduzido livremente como “Parceiros de copo”) e, infelizmente, não deve entrar no circuito principal. Talvez você o encontrará apenas em cinemas dedicados a filmes de arte e/ou de pequeno orçamento, videolocadoras especializadas ou na internet. Também se encaixa muito bem nessa categoria de “filmes de diálogo”.

Decidi assisti-lo depois de vê-lo figurar numa lista de melhores filmes de 2013, supostamente elaborada pelo Quentin Tarantino. Tarantas este que também é fã assumido de diálogos bem elaborados (o que, pensando bem, acaba dando um pouco mais de credibilidade à mencionada lista de filmes - que ainda conta com “Gravidade”, “Kick-Ass 2”, “É o fim” e o “Antes da Meia-Noite” do Linklater).

O filme é muito bom. Não espere chorar, ou morrer de rir, porque essa não é a proposta (apesar de a maioria dos sites da internet classificá-lo precipitadamente como comédia romântica ou drama). 

Escrito e dirigido por Joe Swanberg, trata-se da estória de Luke (o divertidíssimo Jake Johnson, da série 'New Girl') e Kate (Olívia Wilde, tentando - e conseguindo - se desvencilhar da imagem de mulher durona que cristalizou com outras atuações), colegas de trabalho em uma pequena fábrica de cerveja. Os dois são grandes amigos, que adoram tomar cerveja juntos e jogar sinuca no bar Empty Bottle com o restante do pessoal da cervejaria. E a partir da tensão sexual existente entre os dois, a trama se desenvolve, já que ambos estão comprometidos: Luke tem planos de se casar com Jill (Anna Kendrick) e Kate namora Chris (Ron Livingston), um produtor musical, há 8 meses.

Sorrateira e ardilosamente, o diretor nos instiga a olhar tudo pelo ângulo de romances melosos à la Nicholas Sparks, fazendo com que esperemos ver, a qualquer momento, Luke e Kate se entregarem aos beijos um do outro. A questão é que, o que impossibilita que eles fiquem juntos é o fato de terem, cada qual, seus próprios amores. Dai começa a complicação - mais para nós, espectadores, do que para os próprios personagens: torcer por eles é, também, torcer pelo fim de seus romances atuais ou, o que é pior, desejar assistir a uma traição. Chegamos a ser "brindados" com um deslize de Jill e Chris, o que levaria qualquer espectador a pensar: “Pronto! Olha ai!  Eles deram motivo! Agora é só terminar e partir pra cima!”.  

Mas acontece que Joe Swanberg não queria um filme sobre amores impossíveis, contrariando o vício da platéia nesse tipo de gênero. Ele queria justamente dizer que há mais possibilidades entre um homem e uma mulher. “Drinking Buddies” (e não “Drinking Lovers”) trata sobre a amizade e a construção de seus limites. Suas responsabilidades, seus riscos e sua perfeita compatibilidade com o amor. 

Não quero aqui ficar contando filme, o que acabaria com a discussão - e com o prazer de quem ainda não o assistiu. Mas se você for assistir (ou rever), basta reparar que os protagonistas formam, por si mesmos, uma dicotomia interessante para entender a ideia central: Luke, aparentemente, nunca teve dúvidas quanto à natureza da relação deles e é fundamental no processo de construção dos limites dessa relação (e ainda quebra o estereótipo de que homem só enxerga mulher pelo viés sexual); Kate, a parte mais vulnerável, diante das dúvidas que advém de seu relacionamento amoroso com Chris, aparece como contraponto, responsável pela incerteza e pelo “E se…”. Com base nisso, a amizade se fortalece.

O interessante é que a maioria das resenhas e críticas que li sobre o filme tendem a induzir o espectador a olhar pelo lado romântico de toda a estória. “Nada como cerveja para embaçar os limites da amizade” e por ai afora. Um certo apelo comercial. A meu ver, não entenderam nada. “Drinking Buddies”, muito mais que isso, quebra o clichê do grande amor e mostra o quanto é legal ter, também, um bom parceiro de copo. Transmite uma vontade louca ao espectador de chamar Kate e Luke (e Jill, por que não?) para o Empty Bottle e pagar a rodada de chope pra todo mundo. Pelo menos essa foi a vontade com que fiquei.

Um filme simples. Mas que trata de questões profundas com inteligência e bom humor. Como  todo bom “filme de diálogo”.

ALGUMAS CURIOSIDADES:

-> Joe Swanberg não escreveu os diálogos completos dos personagens. Entregou aos atores e atrizes o esqueleto das cenas e os instruiu a improvisarem, a fim de criar o clima certo de descontração. A maioria das cenas é fruto de trabalho e estudo dos próprios artistas. Com isso, ele queria evitar, principalmente, cair na previsibilidade que as comédias românticas geralmente inspiram.

-> Em grande parte das cenas, os atores e atrizes realmente estão bebendo cerveja.

-> Swanberg teve a ideia para o filme após receber de aniversário um kit de cervejas artesanais feito por uma cervejaria independente. A partir dai, quis escrever uma estória sobre conflitos adultos, mas que tivesse sempre uma abordagem divertida, apesar de séria.

-> O filme foi rodado numa cervejaria independente real de Chicago, chamada Revolution. Lá, existe uma funcionária que realmente se chama Kate, e que foi a base para Joe construir sua personagem.

-> Jake Johnson escolheu deixar seu personagem com uma barba bem espessa, o que daria um ar mais real a Luke.

Trailer:




quinta-feira, 23 de maio de 2013

Depois de nove anos... (The Office Finale)







Eu já disse anteriormente, quando estava escrevendo sobre a despedida do Steve Carell (e de seu personagem, Michael Scott) de The Office, que episódios de despedida são arriscados. Por mais que o humor esteja presente, dar adeus nunca é fácil. E, se foi difícil dizer tchau a um personagem (ainda que este seja MICHAEL SCOTT!), o que dizer de todo um mundo, com seus dramas, características e carismas construídos no decorrer de 9 anos!

Muita gente não gostou do último episódio de The Office. Julgaram-no incoerente com o clima da série, excessivamente meloso, focado em lados distorcidos dos personagens, enfim, em uma palavra: frustrante. A meu ver, uma análise rasa.

A despedida de The Office não aconteceu apenas no último episódio. Em meio a constantes questionamentos sobre os rumos da série após a saída de Carell/Scott, diante da atemorizante queda de audiência (de 8 milhões para pouco mais de 4 milhões de espectadores nos EUA), o elenco e os produtores viveram as últimas duas temporadas sob a constante ameaça de cancelamento súbito, sem a oportunidade de desfecho da trama. Assim, quando restou claro que a 9ª temporada seria a última, toda ela foi dedicada a desconstruir, de maneira gradual, aquele mundo tão singular.

Como se sabe, a premissa da série é a de que estamos assistindo a um documentário feito sobre um escritório representante de vendas de papel e seus funcionários. No início, nos parece um documentário pronto e acabado. Mas, no decorrer dos anos, por diversas vezes fomos surpreendidos ao percebermos que, na verdade, o documentário ainda está sendo rodado. Testemunhamos tomadas sem edição e conversas dos funcionários com membros da equipe de filmagem, entrevistas interrompidas. Isso trouxe a visão do telespectador para fora da moldura que o documentário fictício queria impor, ampliando nosso conhecimento sobre a vida “real” dos personagens. O que deu a eles uma dimensão totalmente nova e mais humana.

Por outro lado, passados nove anos no ar, foi o gancho encontrado pelos produtores do show para iniciar a transição final e construir o desfecho. Cada vez mais, o enquadramento dado pelo documentário foi sendo colocado de lado, deixando à vista a vida real dos funcionários. O efeito foi o de que nos acostumamos de tal forma a observar a vida e rotina daquelas pessoas que, a partir de certo momento, o documentário em si passou a ser insuficiente. Fomos invadidos por suas vidas, seus dramas e anseios. A moldura, inevitavelmente, começou a cair. 

A primeira vez em que isso aconteceu de maneira impactante foi com a despedida de Michael Scott. Após 7 anos de convivência, assistimos ao adeus de Scott, e às lágrimas de Carell. Em diversos momentos, não sabíamos dizer se estávamos vendo um chefe dizendo adeus a seus funcionários, ou um ator se despedindo de seus colegas de elenco. Curiosamente, a desconstrução do clima de documentário foi feita de tal forma que, além de ampliarmos o foco para as vidas pessoais dos funcionários da empresa de papel, também começamos a conhecer uma pontinha de sentimentos também dos atores e atrizes. Eles próprios, em entrevistas de bastidores, confirmam a ambiguidade. Que, aliás, foi estabelecida propositalmente. As lágrimas que vimos foram reais (John Krasinski, o Jim, inclusive conta que, antes da sua cena final com Carell, chorou de maneira “vergonhosamente abundante”, em suas próprias palavras).

A partir de então, muitos dizem que o show perdeu qualidade. Obviamente, a ausência do carisma de Steve mudou bastante o clima dos episódios. Mas a ideia inicial da série, que poderia ser resumida em “Como seria trabalhar para o pior chefe do mundo?” (e que comprou para si mesmo uma caneca com os dizeres “Melhor chefe do mundo”), mudou bastante no decorrer das temporadas, e personagens, antes secundários, ganharam uma dimensão bem maior. As crianças de Michael Scott cresceram e ganharam pernas maiores. Com a sua saída, o grande desafio do elenco era continuar sustentando aquele mundo sem sua grande estrela. Quem captou a dimensão desse mundo percebeu que eles conseguiram. Dwight, Jim, Pam, Stanley, Kevin, Oscar, Angela e todos os novos personagens que entraram no decorrer dos anos (Erin!) também tinham seu carisma e acompanhá-los, em suas vidas pós-Michael, continuou sendo tão divertido quanto antes.

Na 9ª e última temporada, a desconstrução do mundo-documentário entrou em ritmo acelerado. A fusão dos personagens com a realidade foi aumentando com o tempo. Um dos momentos mais significativos ocorre quando percebemos que um dos câmeras, membro da equipe de filmagem do documentário, está apaixonado pela Pam. Seu jeito de focalizá-la quando está sozinha, demonstrando introspecção e cumplicidade com seus dramas pessoais, de início nos surpreende. Por fim, conhecemos o rosto desse câmera, que se envolve pessoalmente com a Pam, ao comprar uma briga dela.

Incidentes como esse permeiam todo o último ano. Frequentemente vemos equipamentos de filmagem aparecerem, mãos e pés de membros da equipe de filmagem, conversas entre eles e os funcionários do escritório. Por vezes, soa como puro desleixo daqueles que, durante nove anos, acompanharam, por trás das lentes, as aventuras vividas por aqueles funcionários. Resta evidente o fato de que, de maneira inquestionável, eles também fazem parte do show. Principalmente representando a nós, telespectadores. E a apresentação do documentário pronto ao público e à critica, que acontece em algum momento entre o penúltimo e o último episódio do show, coroa a transição para o “Finale”, um episódio especial de 50 minutos, em que o documentário em si deixa de ser importante. O foco vira-se todo para aos personagens (e, novamente a ambiguidade) e artistas. Risos e lágrimas fictícios e reais se confundem. O que vemos, fora da moldura imposta pelo documentário são colegas de trabalho se despedindo. Seja esse trabalho um escritório representante de vendas de papel, seja ele um set de filmagens.


O Finale


Esse episódio final foi, sem dúvida, o mais emocional de todos. E não poderia ser de outra forma. Afinal, é disso que tratam as despedidas.

Cronologicamente, se passa um ano após o penúltimo episódio (e a exibição do documentário final). Passamos a conhecer, pouco a pouco, onde foi parar cada personagem. Mas o grande mote do episódio é o casamento de Dwight e Angela.

Jim, escolhido como padrinho, está organizando a despedida de solteiro. O que, aliás, já nos traz a primeira surpresa agradável. Após anos pregando peças em Dwight, Jim reconhece a importância do amigo e decide pregar apenas “peças boas”. Na primeira, ele leva o noivo e seus amigos para um campo, onde oportuniza a Dwight dar um tiro de bazuca (um de seus sonhos). Em seguida, Jim leva todos para um jantar reservado, onde é a vez de apresentar uma stripper ao amigo. Dwight não entende muito bem o sentido da coisa, e a “pegadinha do bem” acaba sem o efeito desejado. Por fim, a noitada termina no bar do Kevin. Com isso, a pegadinha do Jim foi forçar as pazes entre o dono do bar e o noivo, que não se falavam desde que Dwight despediu Kevin.

Nos momentos anteriores à celebração do casamento, a última peça que Jim prega em Dwight. E um dos melhores momentos do episódio. Com os olhos úmidos, Jim confessa ao noivo que não pode ser seu padrinho. Mas que providenciou um substituto. Nesse momento, Dwight olha para a porta, onde Michael está parado. Emocionado, diz “Michael! I can't believe you came!”. Ao que ele responde “That's what she said”. Com mais uma de suas olhadas para a câmera, Jim fala “Best prank ever." Deixei sem tradução, porque perderia o sentido da piada completamente.

Foram poucas as aparições de Michael durante o episódio, e menos ainda suas falas. Mas foi o suficiente para matarmos um pouco da saudade que o personagem deixou. Em sua última fala, olhando para Jim, Pam, Dwight e Angela, diz de maneira ao mesmo tempo carinhosa, ingênua, emocionada e bem-humorada: “Me sinto como se todas as minhas crianças tivessem crescido e então se casaram umas com as outras. É o sonho de qualquer pai.”

E conforme o tempo de vídeo vai passando, sentimos que os nove anos de série estão chegando ao final. A última fala de Andy Bernard (Ed Helms) resume o sentimento nostálgico das últimas cenas. Queria que houvesse uma forma de saber que estamos vivendo nossos anos áureos, antes de eles terem terminado”.

O pós-festa de casamento, no armazém do escritório, reúne os funcionários pela última vez em seu ambiente de trabalho. Curiosamente, percebemos vários membros da equipe real de produção do seriado misturados ao elenco. Inclusive o produtor executivo, Greg Daniels, infiltrado na foto oficial final. A ficção toma rumos à sua fusão inevitável com a realidade, o momento no qual deixará de existir.

Discretamente, os funcionários começam a deixar o armazém e caminhar para a sede do escritório, onde farão sua reunião final em reservado. Cada qual em seu cantinho de origem, sua mesa, o lugar onde pertenceram pelos últimos nove anos. Novamente, torna-se ambíguo e difícil dizer onde terminam os personagens e começam os artistas que os interpretam. Ali, reunidos e embalados pela bonita canção de Creed Bratton (escrita por ele próprio), reconhecem a importância de todo o tempo que passaram juntos, e do quão maravilhoso, apesar de entediante e cansativo, foi trabalhar na Dunder Mifflin por todo esse tempo. Creed resume bem: Não importa como você chegou lá, ou onde foi terminar. Seres humanos têm esse dom milagroso de fazer de qualquer lugar o seu lar”. E ali, terminava o lar daqueles personagens/artistas. Agora, cada um toma seu rumo.

No fim das contas, o grande barato de The Office (tanto a versão britânica original quanto a americana) foi conseguir transformar a rotina maçante e entediante de um escritório comum em algo engraçado e peculiar de se ver. No decorrer de nove anos, assistimos pessoas comuns se transformarem em personagens carismáticos, com suas características inconfundíveis. E as vimos transformar seu ambiente de trabalho em seus lares, colegas de trabalho em companheiros de vida. E se aproximaram de nós justamente por isso. É o que todos nós fazemos, todos os dias de nossas vidas. 
 
Na última cena, todos deixam o escritório. Pam é a última. Retira da parede o quadro com uma pintura que fez da faixada do prédio, há vários anos atrás. “Há muita beleza nas coisas comuns.” escutamos sua voz. “Não é esse o objetivo de tudo isso?”

segunda-feira, 18 de março de 2013

Dave "Fucking" Grohl - SXSW 2013



Todos os anos, em Austin, Texas, EUA, ocorre o Festival South by Southwest, onde milhares de pessoas se reúnem para discutir música e cinema.

Esse ano, o convidado para fazer o discurso de abertura do evento (keynote) foi, nada mais, nada menos, que Dave Grohl. 

E, como um cara fodão que já revirou o mundo da música e que, de modo discreto, mas extremamente corajoso, acaba de dar seus primeiros passos também no mundo do cinema, ele falou sobre algo que a maioria se esquece quando pensa em ingressar no mundo das artes - o elemento humano.

Fiquem agora com as palavras sábias desse que, na minha opinião, é o maior músico da atualidade.

Compensa cada segundo.

(Valeu, Lorena!!)



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Para quem é fã de Homem-Aranha







Quando saiu "O Espetacular Homem-Aranha" nos cinemas, eu já não estava muito empolgado para ir assistir. Os trailers antecipados bem que tentaram ajudar, mas essa estória de reboot da série assim, do nada, sem dar um tempo de a antiga trilogia decantar, não estava com cara de que iria dar certo.

E o trocadilho barato e pronto com o nome do diretor - Marc Webb - não ajudou muito.



Hoje, enfim, assisti ao filme. Nem me dei ao trabalho de gastar dinheiro para alugar ou comprar. Baixei do Pirate Bay. E eu estava certo. O filme é uma porcaria.

A Gwen Stacy de Emma Stone
Tá, tudo bem que existem vários pontos positivos. Sally Field encarnou bem o jeitão da Tia May, e a Emma Stone está fantástica como Gwen Stacy - apesar de eu discordar completamente dessa pagação de pau para ela. Tudo bem, ela é uma ótima atriz. E é até gatinha. Mas, pô, não vamos exagerar! Existem várias outras loiras gatíssimas por ai a fim de encarnar a primeira namorada "pra valer" do Peter Parker. De qualquer forma, é um zilhão de vezes melhor que a Kirsten Dunst como MJ.


As sequências de luta e ação do filme também são boas. Mas são piegas demais, cheio de sentimentalismo barato, em uma grande parte delas. Eu ficava me perguntando toda hora: Pra que que enfiaram essa porcaria de alinhamento de guindastes no meio da rua? Dava pra passar sem essa forçação.

Mas o principal: as lutas estão mudas. MUDAS! Cadê aquela enxurrada de piadas infames do Aranha, irritando até mesmo os vilões mais casca-grossas, disparadas no meio de chutes e pontapés? Por mim, é igual fazer um filme do Popeye sem espinafre. Os filmes com o Tobey Maguire também pecaram nesse sentido. Mas achei que fossem corrigir neste. Não corrigiram.

Mas fora essas comparações inevitáveis com a história original das HQs do amigão da vizinhança, o filme em si é ruim. Algumas cenas são forçadas demais (como a chuva artificial que cai durante o sepultamento do Capitão Stacy), outras não possuem sequência lógica (alguém sabe onde foram parar as algemas que prendiam Peter, na cena em que o Stacy descobre a identidade dele?)... Aliás, fizeram Nova York inteira descobrir a identidade secreta do teioso. Ele não parava de tirar a máscara!

A descoberta dos poderes sobrenaturais, após a picada da aranha, é uma das partes mais legais da narrativa original. O filme do Sam Raimi soube explorar esse trecho de maneira fantástica. No do Webb, a coisa se desenrola de forma tensa, atropelada. Não dá pra curtir. 

O desenvolvimento do uniforme e as primeiras aventuras também seguem com o mesmo defeito. Ao meu ver, fruto de uma adaptação mal-feita. A participação do Peter em torneios clandestinos de luta livre, utilizando um uniforme improvisado, é uma parte CLÁSSICA e OBRIGATÓRIA em qualquer filme  ou HQ que fale da origem do Aranha. Pecado mortal.

Enfim... 

Já confirmaram a sequência. Sabe-se que o diretor e os roteiristas escolheram um dos arcos mais importantes da história dos quadrinhos para produzir o filme: A Morte de Gwen Stacy. E eu tenho quase certeza de que vão detonar com a estória. Uma pena.

Vamos torcer por bons personagens. Mary Jane já está confirmada no segundo filme. Faço das palavras do Judão (Blog do Judão) as minhas: POR FAVOR, façam a primeira aparição dela ser igual à dos quadrinhos. NÃO MUDEM, eu imploro. 

Aliás, a pergunta que permanece: Por que os cretinos dos roteiristas não seguem a historia original? É tão difícil assim? Precisa retalhar o script?

Homem-Aranha continua esperando um filme à altura. Por enquanto, os filmes já lançados só comprovam que o Sam Raimi é muito mais fã do Aranha do que o Marc Webb.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Caldas Country é mais rock'n'roll que o Pablo Kossa



Mick Jagger, até hoje, diz que um dos episódios mais nefastos da história dos Rolling Stones foi o evento ocorrido em Altamont, na Califórnia, em 1969.
No dia 6 de dezembro daquele ano, os Stones promoveram um mega concerto em Altamont Speedway, um autódromo no meio do deserto, com entrada livre para quem quisesse ir. A ampla divulgação nas rádios da época levou cerca de 300 mil pessoas ao local, bem mais do que a quantidade esperada pelos organizadores.
Na programação, além do grupo de Mick Jagger e Keith Richards, ainda estava prevista a aparição de Jefferson Airplane, The Flying Burrito Brothers e Grateful Dead. A segurança ficou por conta do bando de motoqueiros Hell's Angels.
 
Dizem que os Angels foram contratados diretamente pelo produtor dos Stones, para realizar unicamente a segurança do grupo, não do evento todo. O pagamento, só o dinheiro da cerveja.

A bagunça foi enorme. Imagine só que o público recorde do Rock In Rio, em 2001, com o show do Red Hot Chilli Peppers, foi de 250 mil pessoas. Com a organização do Medina, numa Cidade do Rock construída especialmente para o evento. Agora imagine, em 1969, aproximadamente 300 mil pessoas no meio do deserto da Califórnia, com a segurança feita pelos Hell's Angels! Os caras usaram as próprias motos como barricada para conter o público à frente do palco. Só podia dar rolo.

E quando deu o rolo, morreu gente. Várias pessoas foram pisoteadas, muita gente tomou porrada dos motoqueiros, uma grávida (o que ela tava fazendo num show dos Stones, em 69, para 300 mil pessoas?) levou uma garrafada na cabeça e foi internada com traumatismo craniano e quatro homens morreram, dentre eles, Meredith Hunter, um produtor musical controverso. Esfaqueado até a morte por um dos Angels.


  
A confusão foi parcialmente documentada no filme “Gimme Shelter”, lançado em 1970. Dá pena ver a cara de Richards e companhia assistindo às cenas da confusão, no videotape. O mundo do rock parou, aturdido com o poder de mobilização que possuía. E que podia ser mortal.


Era o auge da Era de Aquário. Aproximadamente 4 meses antes, entre os dias 15 e 18 de agosto, a primeira edição do Festival de Woodstock tinha balançado os conceitos morais e musicais da sociedade da época. Enfim, vivíamos a época mais rock 'n' roll da humanidade. Desfilavam, por Londres e Nova York, Hendrix, Joplin, Jagger, Richards, Lennon, Dylan, no ápice de suas criatividades. Marilyn Manson ainda usava fraldas.

Não é papo de saudosista, até porque eu nunca vivi naquela época. Mas as drogas (na maioria absoluta dos casos, maconha e haxixe) eram muito mais fracas (e mais naturais). Cientificamente comprovado. O sexo e a música eram utilizados como forma de chamar a atenção para a parte boa, saudável e produtiva da vida – o oposto da guerra (física e ideológica). Faça amor, não faça guerra.



E dai, de repente, abro a internet e vejo um texto com o título “Caldas Country é mais rock'n'roll que você”. (Por Pablo Kossa – disponível em http://www.aredacao.com.br/colunas/21436/pablo-kossa/caldas-country-e-mais-rock-n-roll-que-voce). Praticamente um jargão, repetido em tom de brincadeira por qualquer um que visse as fotos inusitadas que rodaram pela internet após o evento em Caldas Novas. E reciclado pelo Pablo Kossa.

Vivemos numa época em que o enfrentamento a determinados valores é feito por puro modismo. Ou pra polemizar. É 'cool' questionar a esmo. Enfrentar os pais, esfregar sua preferência sexual na cara dos outros (principalmente os héteros). Não se sensibilizar com a morte ou o prejuízo alheios. Mostrar que é bem resolvido na vida e dono da própria bunda. E postar tudo no twitter.

A falta de educação impera em todos os lugares. E o que vemos são crianças mimadas, que não aceitam 'não' como resposta. Mentes pueris em corpos sarados. Não curtem música. Curtem algum barulho que abafe, temporariamente, algum pouco bom senso existente e os deixe fazer bagunça em paz. E estão dispostos a pagar por isso.

Ai surge o Caldas Country. Com todo o respeito a alguns poucos artistas que se apresentam por lá (sim, porque a maioria é um bando de aproveitadores de onomatopéias): Não se iludam. Ninguém está lá para escutar vocês.

Sem os pais por perto, o bonde da criançada apronta na cidade. O que vemos é diversão de criança mimada: violência gratuita, birra, prostituição em alta, estupros. Morte, sexo explícito, um zoológico a céu aberto. Vemos a selvageria, a regressão da condição humana a patamares mínimos, sem a baliza da civilidade. E o principal: sem objetivo. Diversão a todo custo. Até agora não consigo entender o que levou um cara a destruir o próprio carro. Subiu em cima, sambou, pulou, quebrou vidros e, por fim, ateou fogo. Uma brincadeira de mais de R$40.000,00.

E ai, vem um texto me dizer que o Caldas Country é mais rock'n'roll que eu. Para mim, o autor não entende nada de rock.

Qualquer pessoa sabe (ou precisa saber) que o rock, de modo geral, é um tipo de atitude, de pensamento de vida, aliado à música. É questionamento constante, inconformismo. Vontade de liberdade, diversão, prazer. É o desafio a valores vigentes. Rebeldia. Tudo regado a amplas doses de consciência política, social, individual. Ainda que fale de amor.
Quer identificar a essência rock'n'roll em alguma coisa? Postura. Analise o contexto da obra, a paisagem, a pintura maior. Geralmente, o rock é do contra, e tem excelentes motivos para tanto. Desde o questionamento social de Bob Dylan, até o inconformismo individual de Kurt Cobain. E não se esqueça da música, pelo amor de Deus. Música.

Preciso falar sobre Caldas Country? Mesmo? Não vou nem dizer que ali, ninguém sabe o que quer, ou onde quer chegar. Só quer o prazer. E não há música. Sim, ela está tocando! Mas ninguém ouve. Não vou citar a violência gratuita que deixaria qualquer “Glimmer Twins” se esquecerem dos Hell's Angels. Não vou citar os atos de sexo banal praticados explicitamente, na frente de câmeras de smartfones, para afirmar sabe-se lá o quê, para sabe-se lá quem.

O Rock é o desafio. É a luta contra a correnteza. O Caldas Country é apenas a confirmação de toda a falta de valores e de motivos que tomam conta de mais de uma geração. É a confirmação do que existe de mais podre na nossa sociedade e que, um dia, há de passar. É a própria correnteza, em si.
 O Rock é a rebeldia contra Caldas Countrys.

Então, Pablo Kossa, ouça mais rock. Leia mais. E pare de falar asneiras. Ou então, tire o chapéu do armário e junte-se aos demais pseudo-rockers, lá em Caldas, ano que vem.
Qualquer pessoa é mais rock'n'roll que o Caldas Country.