quarta-feira, 25 de abril de 2012

BRODY DALLE, THE DISTILLERS e SPINNERETTE

Bandas que você não pode deixar de conhecer



Brody Dalle faz parte de um seleto grupo de verdadeiras mulheres do rock'n'roll. Daquelas que, assim como Joan Jett, Courtney Love e Chrissie Hynde, adoram esconder seus olhos por trás de sombras carregadas, franjas compridas e arrebentam tudo quando sobem ao palco. Algumas, literalmente. Avril Lavigne até hoje deve ensaiar suas coreografias assistindo aos vídeos dessas figuras míticas no YouTube.

As performances violentas, os vocais roucos dignos de Janis Joplin e a postura aparentemente dura da líder do Spinnerette escondem uma figura sensível (Dalle declarou recentemente que não gosta de ouvir Adele, porque sempre que ouve “Rolling In The Deep” começa a chorar compulsivamente!).

Bree Leslie Pucilowski é australiana de Melbourne, nascida em 1 de Janeiro de 1979, ano em que seus compatriotas do AC/DC presenteavam o mundo com o álbum “Highway to Hell” (apesar de renegados pelo próprio país). Na infância, era fascinada com Cindy Lauper e os Beatles.

Brody Dalle
Nunca foi muito família e, inevitavelmente, tendo sua adolescência coincidido com a ascensão do movimento punk, logo foi parar nas ruas. Aos treze anos de idade, já usava drogas. Chegou a experimentar heroína, mesma época em que começou a tocar guitarra.

Ainda em Melbourne, participou da Rock'N'Roll High School, um movimento feminista do rock australiano e, a partir dai, ninguém mais segurou. Aos 16, fundou sua primeira banda, a punk Sourpuss. Em turnê com essa banda, conheceu Tim Armstrong, vocalista do Rancid (o cara era 13 anos mais velho que ela, que mentiu a idade. Em 1997, aos 18, depois de desmentir a fraude ao Armstrong, acabaram se casando).

Courtney Style
No fim dos anos 90, Brody foi para Los Angeles com Tim. Na Califórnia, em 2000, adotou o sobrenome do marido e fundou outra banda, The Distillers, com um sucesso bem maior que a antecessora. Chegaram a ter uma participação marcante no Festival Lollapalooza. Grande parte do sucesso, entretanto, veio com comparações inevitáveis a Nina Hagen, PJ Harvey e ao Hole, de Courtney Love (que não atravessava uma boa fase, apesar de terem faturado o Grammy do ano por “melhor voz de rock em dupla ou grupo”. Courtney acabou anunciando o fim da banda em 2002).

O Distillers lançou três álbuns, The Distillers (2000), Sing Sing Death House (2002) e Coral Fang (2003). Todos excelentes álbuns, diga-se de passagem. À época, arrebatou milhares de fãs, com sua pegada punk e a rouquidão afinada característica de Brody.

Com o tempo, o sucesso maior e a liberdade de criação, aos poucos o Distillers foi revelando um lado criativamente mais ambicioso de Dalle. Aliás, isso reflete a própria história da banda, que no segundo disco possuía apenas 2 membros da formação original e, no terceiro, apenas a própria Brody.

Em 2003, Tim e Brody se divorciaram. Depois de ser conhecida por inúmeros pseudônimos (Bree Robinson, Bree Joanna Alice Mayer, Bree Joanna Alice Robinson e Brody Armstrong), abandonou o sobrenome do ex-marido e passou a chamar-se apenas de Brody Dalle (em homenagem à atriz Beatrice Dalle, do filme Betty Blue).

Depois de quase 4 anos sem lançar material novo com o Distillers, e ansiando novos rumos na criação, Brody iniciou um projeto paralelo com o guitarrista Alain Johannes (Queens of The Stone Age e Eleven). No começo, era para as duas bandas coexistirem. Mas em 2006, para desespero de milhares de fãs, foi anunciado o fim do Distillers.

Dalle e Johannes: Queens of Distillers

Menos de um ano depois, na metade de 2007, o público soube do projeto paralelo com Johannes, e os fãs órfãos voltaram a ter esperanças. Em março, ao mesmo tempo em que se casava com Josh Homme (o multi-atarefado vocalista do Queens of The Stone Age e Them Crooked Vultures, baterista eventual do Eagles of Death Metal e aparecido em diversos outros projetos paralelos), anunciava o início do Spinnerette.

Aliás, o Spinnerette (assim como o Them Crooked Vultures de Homme) foi considerado uma agradável surpresa no mundo dos super-grupos de rock. Além de Brody (que foi do Distillers) e Alain (guitarra no Queens of The Stone Age e no Eleven), sua formação contou com Tony Bevilacqua (do The Distillers) e Jack Irons (Red Hot Chilli Peppers, Pearl Jam e Eleven).

À época, a vocalista declarou que o “Spinnerette não é uma banda, sou eu e qualquer músico com quem eu quiser trabalhar no momento”. Mas já com o lançamento do primeiro single, Valium Knights, em 08/08/2008, ficou claro que Alain Johannes era mais do que um guitarrista “trabalhando com ela no momento”. Em dezembro de 2008, o EP Ghetto Love (com 04 novas músicas) confirmava a influência criativa decisiva do músico.

Capa do primeiro álbum
Em 2009, o lançamento do primeiro (e até hoje único) álbum da banda, o homônimo Spinnerette, mostrava uma aproximação leve com o som eletrônico, mas mantinha o peso punk do Distillers. Os fãs não estavam mais órfãos! São 13 faixas que compõem um daqueles raros álbuns de se ouvir inteiros, sem pausar, de cabo a rabo.

Eu, particularmente, acho “The Walking Dead”, “Driving Song” e “A Prescription For Mankind” das melhores músicas que já ouvi na vida. Estão entre minhas favoritas. Sem deixar de lado, claro, a fantástica “All Babes Are Wolves” (que me introduziu à banda! Valeu, Hugo chefoso!) e “Impaler”.

Aparentemente, a banda tem privilegiado apresentações ao vivo (fantásticas, a propósito) do que produção em estúdio. Desde o lançamento do primeiro álbum, não foi revelado qualquer material novo (exceto participações esporádicas de Brody em músicas do Queens of The Stone Age e Transplants).

Recentemente em seu twitter, Brody Dalle revelou que está em estúdio produzindo o possível segundo álbum do Spinnerette. Alain Johannes, entretanto, informou que Dalle está tão convicta de suas ideias que as gravações “estão mais para um trabalho solo”. Talvez por conta disso, não leve o nome da banda. Além disso, o guitarrista Tony Bevilacqua não estava nas guitarras durante os ensaios, e Hayden S assumiu as baterias. A história do Distillers parece se repetir. Por enquanto, ainda não há previsão de quando o lançamento do novo material ocorrerá.

O importante é sabermos que Brody Dalle está na ativa. Ela não considera seus filhos com Josh Homme (Camille Homme, de 6 anos  e Orrin Ryder, de 5 meses)  como empecilho e logo deve voltar aos palcos, com áudio novo ou não.

Enfim, para quem curte o bom rock'n'roll, é imprescindível que se conheça a turma da Brody, independentemente de quem seja essa turma.



O aclamado director Liam Lynch produziu o vídeo de lançamento da música "Ghetto Love", faixa principal do EP de mesmo nome, que o Spinnerette lançou em 2008.


FONTES:

Blog Tenho Mais Discos Que Amigos:  
http://tenhomaisdiscosqueamigos.virgula.uol.com.br/2012/03/26/por-onde-anda-brody-dalle/

Site oficial:  
SpinneretteMusic.com/

Wikipedia Brasil:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Spinnerette

Wikipedia US:  
http://en.wikipedia.org/wiki/Brody_Dalle

quarta-feira, 21 de março de 2012

Brincando de bandido



Torcida organizada é sempre tema polêmico.

        Freqüentemente confundida com crime organizado, tráfico de drogas e uso ilícito de armas, são elas movimentos sociais legítimos, cujo fim primeiro é apoiar, de forma organizada, os times de futebol a que estão ligadas.
       
        A união organizada e apaixonada em torno de um único objeto cria um vínculo tão forte entre seus membros que a coisa acaba bagunçando, quando uma parte de seus participantes acham as arquibancadas pequenas para seus propósitos e o movimento estende suas atividades para além de seus fins originais.




        A falta de controle sobre os membros da massa organizada (fruto de diretorias fracas, desorganizadas e autoridades públicas incompetentes) dá margem à entrada de todos os tipos de pessoas no grupo, criando clima propício ao desenvolvimento de atividades ilícitas: O chamado crime organizado para fins de tráfico, uso ilícito de entorpecentes e de armas e a violência indiscriminada contra membros de torcidas rivais.

        Obviamente, a incompetência do Poder Público e a falta de caráter da imprensa distorcem a realidade, criando um monstro de sete cabeças que não existe. A população execra o movimento legítimo e é onde surge a falsa confusão entre torcida organizada e crime organizado.

        Qualquer pessoa inteligente percebe que, nem todo membro de torcida organizada é criminoso. E que atividades criminosas ligadas às torcidas organizadas nem sempre (aliás, quase nunca) expressam o pensamento das diretorias destas torcidas. Eu disse “nem sempre”. Há casos em que isso invariavelmente ocorre, infelizmente.

        O fato é que membros de torcida organizada geralmente sofrem de uma carência por atenção e poder, seja em virtude do seu lugar de origem, seja em virtude do tratamento que recebem do poder público, seja pela embriaguez causada pela falsa sensação de poder que um grupo grande e organizado propicia. Uma imensa maioria de policiais, em qualquer parte do mundo, sofre do mesmo mal (basta ver a infindável quantidade de abusos cometidos por policiais). Alguns chamam de corporativismo. Eu chamo de carência. A sensação de que se é invencível, intocável. E se alguém enfrentar, meus companheiros me dão suporte. Então, bora pra porrada.

        Esse lado obscuro da torcida organizada, ao contrário do que todo mundo prega, constitui um tipo de crime “desorganizado”. Frequentemente é um crime pelo crime. O criminoso é de ocasião, apenas pela adrenalina do momento. Não há estrutura organizada para movimentar dinheiro, angariar fundos, disputar mercados, como nos morros cariocas. E justamente por ser desorganizado, esse tipo de crime se torna o mais perigoso e o mais difícil de ser combatido.

        Grande parte desse tipo de criminoso compõe-se de jovens (ou até mesmo crianças) que gostam de brincar de bandido. Gostam da adrenalina de correr da polícia, de disputar territórios (para que fins mesmo?), de exibir armas que não lhes pertence, de perpetrar agressões gratuitas contra quem quer que ostente motivos de times rivais. Enfim, crimes banais, perpetrados por mentes vazias, sem um objetivo maior. E a dificuldade em combater esse tipo de criminalidade reside justamente no fato de não haver motivo aparente para sua existência.

        O motivo, mais escondido, está onde ninguém quer procurar: falta de emprego, de educação (familiar e escolar). De se suprir a carência demandada, com atenção e dedicação do poder público e da família. Certamente, teremos torcedores e policiais melhores. E todo mundo vai querer participar de uma torcida organizada (porque sabe que crime organizado é outra coisa).



ps.: Não concorda? Deixe sua opinião nos comentários!!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Na Velocidade da Informação


Feliz 2012, prezados leitores que, vez ou outra, passam por aqui! Geralmente, bebedores de cafezinho de repartição, hehe! (eu confesso que não sou muito adepto desse tal cafezinho).

Primeiro assunto do ano!

No interior (e na capital, há muito tempo atrás), dizem que notícia ruim corre rápido. Hoje em dia, qualquer notícia corre rápido, basta que seja um pouquinho interessante. Ou se for fofoca. Ou, dependendo, se formar uma frase que tenha sentido. Quem é usuário frequente da internet sabe do que eu estou falando.


Florinda Meza - Assassinada pelo Twitter
Os responsáveis pela rede social do “Twitter” se auto-definem como uma estação de rádio virtual. Por ali, as notícias voam numa velocidade altíssima. Para se ter uma ideia, em certa tarde do ano passado, uma apresentadora de TV mexicana veiculou em seu perfil no twitter a notícia de que a atriz Florinda Meza, responsável pela personagem Dona Florinda, do seriado Chaves, havia falecido. Em menos de meia hora, o assunto já havia se tornado um dos mais comentados no mundo! O nome dela estava entre as palavras mais mencionadas, no mundo inteiro. E, em pouco menos de vinte e quatro horas, a própria atriz (através do perfil de twitter de seu filho, Roberto Gomes Fernandez), divulgou nota dizendo que estava bem! Vivinha da silva.

Veja aqui a reportagem do Site Canal 8 

Esse caso ilustra bem a velocidade da informação nos dias de hoje, com a popularização das redes sociais. Em pouco menos de 40 minutos, o mundo inteiro ficou sabendo que uma atriz dos anos 80 havia falecido, e nesse mesmo prazo, a própria atriz desfez a mentira! Alguém diria que isso seria possível nos anos 80? Ou anos 90? Até hoje, tem gente acreditando que o homem não foi à Lua.

A evolução tecnológica tem sido direcionada a esse fluxo de informação. Afinal de contas, nossa vida é informação! Qual a sua idade, qual seu endereço, suas preferências profissionais, pessoais, culturais, sexuais... são dados valiosíssimos na mão de quem sabe o que fazer com eles. E ter acesso a eles não significa necessariamente invasão de privacidade. Isso porque, exatamente por ser valiosa, a informação vira moeda de troca: grandes empresas organizam e direcionam o fluxo a você que, em troca, utiliza suas preferências para acessar propagandas e anúncios comerciais, estes últimos, os grandes provedores financeiros de todo o sistema.

Nesse contexto, podemos notar dois sentidos em direção aos quais os novos dispositivos tecnológicos (smartphones, televisores, computadores, notebooks, videogames) e as atuais ferramentas de software (Twitter, Google, Facebook, Yahoo!) estão se desenvolvendo: promover acesso à maior quantidade possível de informação disponível na rede – o que vem sendo feito desde os primórdios da internet e, ainda nos dias de hoje, é valorizado; e organizar da melhor forma possível esse acesso pelo usuário interessado, de maneira a satisfazê-lo em sua pesquisa da maneira mais rápida ou, principalmente, da forma mais individualizada (e pessoal) possível – o que começa a se tornar prioridade nos últimos anos.

Grandes empresas como a Google e o Yahoo!, portanto, já não se contentam com a quantidade de respostas dada a uma pesquisa feita por seus usuários. Isso não têm se enquadrado mais no conceito de “pesquisa completa”. De agora pra frente, a corrida por uma boa ferramenta de buscas passa pelo perfil individual de quem faz a pesquisa. O usuário mora em Goiás? O usuário gosta de futebol? O usuário é filho único? São informações que passarão a influir no tipo de resultado obtido. Se eu, que sou torcedor do Goiás, pesquisar pela palavra “futebol” em uma ferramenta dessas, o retorno deverá priorizar notícias, dados, estatísticas sobre o futebol em Goiás, jogadores contratados pelo meu time, resultados de campeonatos regionais, e assim por diante. Enfim, resultados que se adequem ao meu perfil de usuário.


Da mesma forma, sistemas operacionais de televisores, smartphones e notebooks/computadores estarão cada vez mais amoldados às preferências de utilização de seu usuário. Comandos (e reconhecimento) de voz passarão a ser um recurso comum. Para se dar um exemplo, o assistente pessoal Siri, disponível nos novos iPhone 4S, da Apple, não faz a simples cognição da voz de quem fala. Ele interpreta o que o usuário pede, provendo um resultado mais exato ao que foi solicitado. Caso o usuário peça uma ligação para a mãe dele, a Siri pedirá para o usuário dizer quem é a mãe dele. Depois dessa vez, a assistente associará automaticamente, todas as vezes em que for solicitada, a pessoa referida como mãe do usuário. E assim por diante.

Dessa maneira, o que vemos é uma tendência de, cada vez mais, desenvolverem-se utilitários singulares, com características particulares, ou que obtenham o perfil único de seus utilizadores, para prover um acesso mais completo e preciso ao gigantesco número de informações que circulam na internet.

E nessa área, preparem-se para a enxurrada de lançamentos em 2012. Vai ser produto atrás de produto, cada um com recursos mais fantástico que outro. Reconhecimento facial, sensores de movimento, conexão de alta velocidade (internet 4G)! iPhone 5, iPad 3, iOS 5.1 (e, quem sabe, 6), Windows Phone, Windows 8, enfim!

O objetivo utópico, logicamente, é o de que, um dia, cheguemos ao acesso unicamente via pensamento. A velocidade e a precisão de um comando mental será capaz de movimentar um sistema intuitivo a tal ponto que será difícil distinguir o que é mais rápido: a velocidade do pensamento, ou a velocidade da informação. Se é que não serão a mesma coisa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

FAITH NO MORE

Bandas que você não pode deixar de conhecer
Mike Patton, meio Bossa Nova, meio Rock'n'Roll
(Houve quem dissesse que era Pai de Santo)


Na verdade, eu estava acordado até meia-noite de uma segunda-feira (14/11/2011) esperando a transmissão do show do Alice in Chains, ao vivo do Festival SWU, pela Multishow. Estava curioso para saber como o novo vocalista, Willian DuVall, conseguiria segurar a barra em “Would?” e “Rooster”, no lugar de Layne Staley, vocalista original falecido em 2002.

Dai o Henricão (@henriqueBSA) me disse, pelo twitter: “Bicho, continua acordado e assiste ao próximo show! Faith No More! Você não vai se arrepender!”. Começou a chover em Goiânia bem no começo do show, o sinal da TV do Henricão sumiu e ele perdeu o show inteirinho. Eu não perdi nem um segundo. E, realmente, não me arrependi.

O Faith No More é considerado como uma das bandas de rock mais famosas dos anos 90. Antes disso, entretanto, em 1981, a banda se chamava Faith No Man e era liderada pelo guitarrista Mike Morris, o qual todo mundo conhecia por “The Man”. Os outros integrantes, Roddy Bottum, Mike Bordin e Billy Gould, perderam a paciência com o the man e resolveram partir pra outra. Como a banda praticamente era do Morris e não dava para despedi-lo, resolveram o problema fundando outra banda: o Faith No More. O próprio nome era significativo, já que mencionava explicitamente (e de forma bem-humorada) que o “The Man” vazara. “No More The Man”. Isso, em 1982.

Entra Jim Martin para assumir as guitarras. Faltava ainda um vocalista imponente e, depois de tentarem centenas de nomes (até Courtney Love fez teste!!), escolheram Chuck Mosley. Nessa formação, lançaram dois álbuns (We Care a Lot, de 1985 e Introduce Yourself, de 1987). Mas a banda não decolou.

A verdade era que Roddy, Billy e Mike (o Bordin) não estavam satisfeitos com a performance de Chuck Mosley. Dai aproveitaram que o cara era alcoólatra e dava muito trabalho no palco para dar um pé na bunda (providencial!) no cara.

Nessa hora, abre-se um capítulo totalmente novo na história do Faith No More. Na busca por um novo vocalista, Jim Martin ouviu uma demotape da banda Mr. Bungle e acabou sugerindo o nome de Mike Patton. Esse, sim, deveria ser apelidado de “The Man”.

Na história do rock, a coisa mais comum que vemos é um cara visionário e carismático que, seguindo seus instintos, reúne 3 ou 4 amigos e funda uma banda de rock foderástica (ex.: Dave Ghrol e Foo Fighters; Lars Ulrich e Metallica; Chris Cornell e Soundgarden, etc). Com a entrada de Mike Patton para o Faith No More, entretanto, a banda passou a figurar numa categoria rara: a das bandas que, assim como Pearl Jam (com Eddie Vedder), já existiam antes do cara visionário, mas esperavam ansiosamente que ele desse as caras. E só se transformaram em foderásticas com o toque pessoal dele.

Patton chegou no Faith No More a tempo de entrar para o estúdio e ajudar na finalização do álbum The Real Thing (1989). E este álbum lançou a banda para a imortalidade, transformando-a num dos principais ícones do rock'n'roll.

Parecia milagre. O carisma de Patton e a profundidade das novas músicas conferiu um sucesso comercial jamais imaginado pelos caras. “Epic”, o grande hit da banda, tocava de meia em meia hora na MTV brasileira, que começava a se firmar. Era a música do momento. A cara dos anos 90. Claro, não podemos deixar de lado outras faixas excelentes como From Out of Nowhere (excelente para abrir shows!), Falling To Pieces, Zombie Eaters e a faixa-título, The Real Thing.

Em 1991, na segunda edição do Rock In Rio, o Faith No More tocou para um Maracanã lotado, que cantou várias das músicas do começo ao fim. Patton apaixonou-se pelo Brasil e, desde então, sempre trata nosso país de maneira especial.

Patton pode ser considerado um hiperativo cultural. O cara não pára, no palco ou fora dele. Assim, ao produzirem o segundo álbum, Angel Dust, o vocalista teve oportunidade de extravasar todo o seu experimentalismo, usando e abusando de batidas eletrônicas, funk e teclados. De certa forma, todos os integrantes queriam se distanciar um pouco do lado pop estigmatizado por “Epic”, o que resultou num disco bem diferente do anterior. Desagradou a crítica (principalmente americana). Mas os fãs foram ao delírio (no começo).

O álbum deu início a uma turnê gigantesca pelo mundo, na qual o Faith No More tocou exaustivamente em diversos festivais, abriu shows do Metallica e do Guns N'Roses (que, na época, desfilava seu Use Your Illusion).

Ao fim da tour, Patton exagerava no seu desprezo ao pop e à devoção dos fãs mais fiéis, chegando ao ponto de provocar a platéia em diversos shows. A parte do público que, tradicionalmente, tinha conhecimento superficial da banda (só conheciam “Epic”) tomou desprezo pelo grupo. Por outro lado, fãs radicais consolidaram seu culto ao FNM.

O terceiro álbum, King for a Day... Fool for a lifetime, surgiu em 1995, com uma musicalidade mais crua. O clima na banda, entretanto, não era dos melhores, já que a necessidade de Patton em explorar novas tendências musicais o afastava cada vez mais dos outros integrantes.

Esse clima afetou absurdamente a gravação do novo disco. Os teclados foram atenuados, e o som terminou se firmando como metal comum, sem muito da originalidade da banda. A falta de empolgação do público, inclusive, gerou o cancelamento da turnê européia pela metade.

Com o clima cada vez pior, os integrantes passaram a priorizar seus projetos solos. E, quando todos esperavam o anúncio do fim da banda, o FNM entra uma vez mais em estúdio, em 1997, para gravar seu último álbum: Album of the year.

Apesar de conter verdadeiras pérolas como Stripsearch, Last Cup of Sorrow e Ashes to Ashes, o disco teve uma recepção bastante fria de crítica e público. As músicas surgiam sem uma linha de união, sem nexo, como se fosse uma coletânea de B-sides, gerando um álbum inconsistente, se considerado coletivamente.

No mesmo ano, apesar de a banda estar em seu auge de experiência, proporcionando apresentações ao vivo verdadeiramente memoráveis, disputadas a tapa em território europeu, foi anunciada a separação do grupo.

Enquanto os demais membros do FNM se dedicavam a projetos (artísticos ou não) de pouca expressão, Mike Patton aproveitou a liberdade da carreira solo para engatilhar diversos projetos bastante consistentes, todos guiados pela despreocupação comercial e falta de apego à popularidade. Nessa época, reafirmou a genialidade que possui como artista.

Depois de mais de 10 anos separados, em 2009 o Faith No More anunciou sua volta para alguns shows ao redor do mundo. Inclusive no Brasil. E em 2011, marcou presença mais uma vez em solo brasileiro, no Festival SWU. Numa apresentação memorável, não faltaram demonstrações de reverência à cultura brasileira por parte da banda.

Pra começar, o garoto Cacau Gomes, de Recife, declamou poemas no início e no meio da apresentação. Após, todos tocaram vestidos de branco, em menção ao candomblé. Patton entrou no palco de chapéu panamá, bengala e charuto, no melhor estilo Bossa Nova carioca. Sem contar que Mike conversou praticamente o tempo todo em português, executando a música “Evidence” na já tradicional versão brasileira. Por fim, a música Just a Man contou com a participação discreta (mas da mais alta sensibilidade) das meninas do coral de Heliópolis.

Não se sabe se a banda voltará definitivamente, com um calendário mais extenso de apresentações para 2012 e Mike Patton garante que não existem planos para o lançamento de um novo álbum. O legado do Faith No More, entretanto, é inegável, tendo influenciado centenas de bandas dos anos 90 e até do novo milênio. A principal força do FNM é seu caráter desafiador. Surgida no momento em que bandas dos anos 80 se arrastavam em cima de velhos sucessos, e num cenário onde o Pop tomava conta da cena musical e o rap conquistava as paradas mais altas de sucesso, o rock autêntico (e ousado - em conteúdo e em técnica) produzido por Patton e companhia é, sem dúvida alguma, atemporal (ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, virou a cara boa dos anos 90).

O show do Faith No More no SWU foi um dos shows mais loucos que eu não fui na vida (infelizmente). Mas a banda, definitivamente, é de conhecimento obrigatório para quem quer estar em contato com a boa música (e o excelente rock'n'roll). "Porra, caralho!"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Sorriso do Palhaço


Quem é que faz rir aquele que faz rir? (atenção, pode conter spoilers)

Selton Melo, no significativo cartaz de "O Palhaço"

Em seu mais novo filme, “O Palhaço”, Selton Melo nos conduz ao mundo mágico e ao lado realista do circo, sem apelar para pieguismos ou saudosismos exagerados. Com uma sensibilidade emocionante, nos apresenta a rotina de um grupo mambembe nos anos 70, que segue por cidadezinhas do interior do país buscando espectadores cada vez mais escassos.

Benjamin, personagem vivido por Selton, é o administrador do circo Esperança, juntamente com seu pai, Valdemar, interpretado magistralmente pelo ator Paulo José. No picadeiro, os dois atuam como a dupla de palhaços Pangaré e Puro-Sangue, em meio a outras atrações inusitadas como a dupla de malabaristas “russos”, o levantador de peso sentimental, o contorcionista, o anão, a dupla de músicos, a mulher-coragem, a gorda do sutiã e o apresentador.

Benjamin não está satisfeito com os rumos que sua vida leva. Faz graça para entreter seus espectadores, mas não vê mais graça na vida que tem. Não se acha engraçado. E as circunstâncias o levam, meio que sem querer, a buscar mudanças.

O interessante é notar que, apesar de Selton Melo estar por trás de Benjamin, também está por trás das câmeras e do roteiro do filme. Assim, mesmo que Benjamin se veja como desinteressante e repetitivo, sua vida não o deixa perder a graça. Benjamin é um palhaço porque nasceu palhaço. Sua vida o faz rir (e a nós também). Com a direção, Selton perpetua a comédia que vemos no picadeiro, fazendo-a transcender às lonas. Ainda que a vida real por trás das maquiagens seja dura e pouco chamativa (o que fica evidente nos diferentes tipos de fotografia, responsabilidade de Adrian Teijido, usados durante os esquetes no picadeiro e nos bastidores das apresentações do grupo), a comicidade continua pelo tipo de direção escolhida por Selton.

O estilo contemplativo de filmagem, que muitas vezes se funde com o olhar curioso da única criança do grupo circense, dá equilíbrio ao clima cômico da obra. Aliás, é legal notar que a criança representa uma infância sóbria, sem o excesso de fantasia, que ao mesmo tempo que se diverte vendo as palhaçadas de Pangaré e Sangue-Puro, tem maturidade para identificar os problemas da vida real, dos bastidores. E que, em todo caso, será a responsável pela perpetuação da arte e do grupo.

Um dos aspectos mais bacanas do filme é que, para contar os dramas de um palhaço, Selton Melo escolheu compor o elenco por comediantes da velha guarda. Jorge Loredo, Ferrugem, Tonico Pereira e Moacyr Franco, antigos “palhaços”, conhecidos de todos os brasileiros. E, justamente por isso, o filme acaba se tornando uma singela homenagem a todos eles, com seus dramas pessoais, suas dificuldades, mas que nunca os impediu de nos fazer rir. E, ao contrário de filmes pura e explicitamente comerciais (como “Muita Calma Nessa Hora”, por exemplo), que reúnem elencos recheados de celebridades para faturar alguns tostões (e, talvez por isso mesmo, se utilizem de roteiros mal feitos, cheios de recortes, para acomodar todos esses nomes), os palhaços de Selton Melo nos brindam com um show de atuação, confirmando o peso que seus nomes possuem na comédia e, muito mais do que isso, na dramaturgia brasileira.

E, nesse ponto, imprescindível abrir parênteses para falarmos de Moacyr Franco. O ator e cantor encarna a figura de um austero delegado interiorano, que aparece em uma sequência de pouco mais de 3 minutos. Foi o suficiente para lhe garantir o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, no Festival de Cinema de Paulínia. Durante a exibição do filme no Festival, a atuação foi maciçamente aplaudida, a cena aberta. E, dizem, durante as filmagens, logo após o estalo da claquete, elenco e produção aplaudiram emocionadamente Moacyr. Foi a estreia dele nos cinemas.

Pois bem, mas, de repente, em sua busca por um sentido maior na vida, Benjamin nos apresenta a questão: Quem é que faz o palhaço rir? Quem faz rir aquele que faz rir? O próprio roteiro nos dá a resposta. No picadeiro, Pangaré e Puro-Sangue são o motivo da graça. Fora do circo, a própria vida proporciona a graça que Benjamin busca, frequentemente se surpreendendo com os outros palhaços – o delegado (Moacyr Franco), Jorge Loredo (chefe da repartição pública), Tonico Pereira (excelente, no papel de gêmeos, donos de uma oficina mecânica de beira de estrada) e Ferrugem (funcionário público).

No fim das contas, o filme é um ensaio sobre a comédia, de forma geral. Acostumados que estamos com a comédia nordestina, principalmente pela riqueza cultural dessa região do Brasil (que nos proporcionou talentos como Ariano Suassuna, Chico Anísio, Renato Aragão, Falcão, Tiririca, Regina Casé, dentre tantos outros), nos acomodamos a esperar que a comédia venha só de lá. Selton nos mostra a comédia mineira. O estilo de vida do interior de Minas Gerais é pano de fundo para o drama cômico pelo qual passam os personagens.

E esse lado da comédia vem com um outro aspecto interessantíssimo.

A atividade circense privou Benjamin de ter documentos civis. Não tem RG, CPF, nem comprovante de endereço. Só a certidão de nascimento. Ele é mais um cidadão brasileiro que apenas “nasceu”, não tem registros civis. E, por motivos diversos, precisou voltar à sua cidade natal para regularizar sua situação. Precisou regressar à sua cidade natal para assumir, integralmente, sua identidade. E, coincidentemente (mas, muito provavelmente, não), a cidade natal de Benjamin é Passos (Minas Gerais), cidade natal também de Selton Melo. Lá chegando, Benjamin recupera muito mais do que sua identidade de cidadão. Recupera o sentido da sua vida.

Em entrevistas recentes, Selton Melo tem indicado cada vez mais sua busca em aprofundar-se por outros ramos da dramaturgia e do cinema, revelando insatisfação em assumir apenas papéis de humor em filmes populares. Em “O Palhaço”, além de dirigir e atuar, ele é corroteirista, coprodutor e coeditor. Como os grandes diretores, ocupou-se de todos os principais aspectos. E, por ironia do destino (ou do roteiro mesmo), assim como Benjamin, ao regressar à sua cidade natal talvez tenha encontrado um pouco mais do que vem buscando em sua carreira. Sem dúvida alguma, deu um passo importantíssimo na consolidação de sua identidade como diretor. Podemos esperar muita coisa boa ainda pela frente!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

De intenções, a Rouanet está cheia!



Num país onde cada vez se critica mais sobre o que cada vez se sabe menos, um tópico favorito é: Lei Rouanet. A aplicação dela é correta, no modo como se faz atualmente?

Vemos eventos de grande porte como o Rock in Rio e obras ambiciosas como Tropa de Elite beneficiadas por uma lei que, teoricamente, deveria contemplar apenas pequenos artistas. É justo reclamarmos?

ORIGEM E JUSTIFICATIVA DA LEI

Em 1991, a inflação brasileira era monstruosa. A economia estava de mal a pior, os salários eram baixos (e estagnados!) e o nepotismo e a corrupção eram doenças crônicas que infestavam, visceralmente, alguns órgãos públicos. Diante disso, medidas tendentes à descentralização governamental foram tomadas, dentre elas a extinção da Embrafilmes – um dos órgãos  responsáveis pela gestão cultural da sociedade brasileira.

Nesse contexto, o presidente Fernando Collor sancionou a Lei nº. 8.313, batizada com o nome do então Ministro da Cultura, Sérgio Paulo Rouanet, conferindo um caráter pouco mais privado à gestão cultural.

Atingia-se dois objetivos com uma só medida: primeiramente, transferia-se a responsabilidade de parte dos subsídios culturais ao setor empresarial e, de quebra, protegia a cultura nacional, atacada pela invasão cultural do exterior, consequência da política neoliberal.

A Lei funciona em três frentes: através do Mecenato; do PRONAC via Fundo Nacional de Cultura; e do PRONAC via incentivos fiscais aleatórios.

No Mecenato, que é a forma mais conhecida de aplicação da Lei Rouanet, o investimento na cultura  ocorre no âmbito privado, de maneira direta. Antes, com a Embrafilmes, o governo federal arrecadava recursos e depois os destinava ao órgão para aplicação discricionária. Com a Rouanet, o recurso sai diretamente das empresas para aplicação em projetos aprovados pelo Ministério da Cultura, procedendo-se, após, ao abate no pagamento do imposto de renda da empresa financiadora.

Pelo Fundo Nacional de Cultura, o governo investe verbas diretamente na concessão de prêmios, financiamento de intercâmbios culturais e apoios diversos a projetos que não se enquadrem nas outras hipóteses, mas que tenham relevância cultural.

E pelos incentivos fiscais diversos, projetos que não se encaixem nas outras hipóteses, mas que possuam relevância e consistência, ficam autorizados a buscar apoio financeiro junto a empresas, com o posterior desconto no imposto de renda dos investidores.

Todas as hipóteses devem ser examinadas e autorizadas pelo Ministro da Cultura. Reformas recentes, no sentido de ampliar estes mecanismos, têm sido frequentemente discutidos.

A POLÊMICA

Esclarecidos de forma rápida os mecanismos e objetivos da lei, podemos partir para a questão principal: é justo que a Lei seja aplicável a projetos de grande porte, como os filmes produzidos pela Globo Filmes, artistas consagrados como Caetano Veloso, Alcione e Capital Inicial, e festivais de grandes proporções, como o Rock in Rio?

A lei não estabelece limites. Desde que seja um projeto cultural de relevância, viabilidade econômica e consistência, está ao alcance da lei Rouanet.

Mas a questão que se discute vai um pouco além da mera legalidade, para longe dos requisitos puramente objetivos. Quando se discute a eficácia e adequação na aplicação da lei, deve se buscar os reflexos sociais e o impacto da interpretação dos objetivos da lei.

Primeiramente, fica mais do que claro que, aos grandes projetos, restaria vedada a incidência da Rouanet pela via do Fundo Nacional de Cultura. Os próprios requisitos objetivos já definem as hipóteses cabíveis. Ademais, incentivos e privilégios concedidos pelo Estado devem sempre, em toda e qualquer situação, estar embasados em justificativas reais de desigualdade. É o famoso lema: para que todos sejam tratados como iguais perante a lei, os desiguais devem ser tratados de maneira desigual, na medida de sua desigualdade. E, no caso, não há desigualdade prejudicando os grandes projetos que justifiquem o privilégio concedido.

Logo de cara, já descaracteriza-se a grande crítica feita pela maioria dos críticos de plantão: dinheiro público não deve financiar artistas já consolidados, que ganham milhões. E não financiam.

Restariam as outras modalidades.

O Mecenato é um dos mais utilizados pelas grandes produções. E é o menos conhecido pelo grande público. Profissões como a de produtor cultural ou a de captador de recursos dependem desse tipo de procedimento. E foi ele o responsável pela origem do ramo do marketing cultural – que nada mais é que o esforço dispendido por produtores e captadores para convencer os departamentos financeiros e de marketing das empresas a investirem em seus projetos. A empresa, convencida do retorno comercial, investe no projeto apresentado e, em contra partida, “ganha” a publicidade da marca. Além, claro, de seu imposto de renda parcialmente abatido. Cabe aos produtores e captadores convencerem à empresa investidora de que o negócio compensa.

E o grande problema da Lei Rouanet reside ai: o tal do “compensa”. Não sejamos inocentes, claro, em achar que todos são movidos apenas por interesses angelicais! Mas, nesse caso, o interesse puramente econômico minou o objetivo inicial da Rouanet de estimular a produção cultural nacional, priorizar nosso produto cultural interno e reforçar a regionalização das manifestações culturais. Virou tudo um grande negócio.

A Rouanet virou refém das grandes empresas e dos grandes artistas. Ou dos que têm condição de estabelecer um bom departamento de marketing cultural. Afinal, dificilmente uma empresa deixará de investir em artistas consagrados, com visibilidade nacional, para estimular o regionalismo, bancando um projeto com repercussão local. A verba, no fim das contas, acaba bastante mal distribuída. Talvez até mais do que se fosse administrada por um órgão estatal, como era antes.

Num país utópico, onde empresas bem intencionadas se desenvolvem apegadas aos objetivos fundamentais da República, a lei daria certo. Mas no nível de desenvolvimento atual, o que acontece é que as grandes empresas se aproveitam da necessidade de patrocínio que grandes eventos possuem para divulgar suas marcas com um custo/benefício tentador. Tentação esta, obviamente, irresistível quando se trate de filmes fortemente produzidos, álbuns de artistas consagrados e festivais de visibilidade internacional.

Assim, ao tratar da questão, não devemos olhar os projetos, festivais, obras, discos e artistas que se beneficiam da Lei Rouanet como vilões. São eles apenas beneficiários de uma lei que não impôs mecanismos de contenção de interesses puramente comerciais de grandes empresas – estas sim as vilãs – deixando interesses regionais, artistas de pouca visibilidade e projetos de pouco alcance de público em segundo plano, sem ter a quem recorrer.

E, falsos moralismos à parte, poderíamos julgar tão duramente empresas capitalistas que lutam para obter suas parcelas de lucro, quando a lei oferece brechas tão facilmente aproveitáveis? A única culpada é a própria lei.

Desvios na aplicação dos recursos obtidos, concessões irregulares ou em desacordo com o que estabelece a legislação, obviamente, não entram nessa análise por serem manifestamente ilegais (caso recente observado no Rock in Rio).

A conclusão a que se chega é que não existe nada de errado, ou de ilegal, em grandes projetos se beneficiarem da Lei Rouanet. O que não quer dizer que não exista injustiça.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira



4. A origem da nobreza

Depois de pouco tempo no Brasil, a corte começou a enfrentar as consequências do exagero e da esbórnia da nobreza. Os suprimentos começaram a faltar, e a riqueza não circulava. Para não depender de empréstimos contraídos junto a outras nações, D. João VI teve uma ideia que, durante um bom tempo, funcionou: criou o Banco do Brasil.

Assim, com uma moeda própria e a circulação interna das riquezas, a economia fluiria de forma mais eficiente. E, melhor, o banco seria como uma fábrica de dinheiro particular do rei. Apesar de ser dinheiro sem lastro econômico, serviria por certo período. Deu certo por, aproximadamente, dez anos.

Inicialmente, para a implementação do banco, seu capital seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Capital este a ser implementado por acionistas, obviamente. A responsabilidade do rei era apenas criar o banco. E emitir o papel-moeda posteriormente.

Para tanto, a monarquia criou um mecanismo de compensação. Aqueles que corajosamente investiram no banco, receberam em troca títulos de nobreza, cargos na corte, dentre outras compensações. Nesse período, muita gente ficou rica do dia para a noite ou, se não chegou a ficar rico, pelo menos nobre virou.

O banco não deu certo, porque em 1820 a reserva de ouro que garantia a moeda representava apenas 20% do dinheiro em circulação. Os outros 80% eram dinheiro sem lastro. E, logo, o banco estava arruinado.

Os títulos e cargos, entretanto, continuaram. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, estima-se que, nesse período, foram distribuídas 4048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes da Ordem de Cristo, 1422 comendas da Ordem de São Bento de Avis e 590 comendas da Ordem de São Tiago.

Nos dizeres do historiador John Armitage, citado por Laurentino Gomes em seu livro, “indivíduos que nunca usaram esporas foram crismados cavaleiros, enquanto outros que ignoravam as doutrinas mais triviais do Evangelho foram transformados em comendadores da Ordem de Cristo”. Uma situação ridícula aos olhos de europeus e que, por um bom tempo, virou piada pelas ruas de Portugal.

Mais uma vez, temos uma pista de como nossa sociedade se formou. Títulos de nobreza falsos, sem lastro, que nada significavam, senão troca de benefícios econômicos foram distribuídos como panfletos no sinaleiro. O governo beneficiava aqueles que lhe favoreciam, criando uma sociedade inteira de falsos nobres.

Enquanto nos antigos e tradicionais reinos da Europa os nobres realmente mereciam os títulos adquiridos, aqui pelo Brasil, por mais grossos e rústicos fossem os cidadãos, viravam nobres apenas por alimentar a ganância e as regalias do rei.

Alguma semelhança com os dias atuais?

Fonte:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.