terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Sorriso do Palhaço


Quem é que faz rir aquele que faz rir? (atenção, pode conter spoilers)

Selton Melo, no significativo cartaz de "O Palhaço"

Em seu mais novo filme, “O Palhaço”, Selton Melo nos conduz ao mundo mágico e ao lado realista do circo, sem apelar para pieguismos ou saudosismos exagerados. Com uma sensibilidade emocionante, nos apresenta a rotina de um grupo mambembe nos anos 70, que segue por cidadezinhas do interior do país buscando espectadores cada vez mais escassos.

Benjamin, personagem vivido por Selton, é o administrador do circo Esperança, juntamente com seu pai, Valdemar, interpretado magistralmente pelo ator Paulo José. No picadeiro, os dois atuam como a dupla de palhaços Pangaré e Puro-Sangue, em meio a outras atrações inusitadas como a dupla de malabaristas “russos”, o levantador de peso sentimental, o contorcionista, o anão, a dupla de músicos, a mulher-coragem, a gorda do sutiã e o apresentador.

Benjamin não está satisfeito com os rumos que sua vida leva. Faz graça para entreter seus espectadores, mas não vê mais graça na vida que tem. Não se acha engraçado. E as circunstâncias o levam, meio que sem querer, a buscar mudanças.

O interessante é notar que, apesar de Selton Melo estar por trás de Benjamin, também está por trás das câmeras e do roteiro do filme. Assim, mesmo que Benjamin se veja como desinteressante e repetitivo, sua vida não o deixa perder a graça. Benjamin é um palhaço porque nasceu palhaço. Sua vida o faz rir (e a nós também). Com a direção, Selton perpetua a comédia que vemos no picadeiro, fazendo-a transcender às lonas. Ainda que a vida real por trás das maquiagens seja dura e pouco chamativa (o que fica evidente nos diferentes tipos de fotografia, responsabilidade de Adrian Teijido, usados durante os esquetes no picadeiro e nos bastidores das apresentações do grupo), a comicidade continua pelo tipo de direção escolhida por Selton.

O estilo contemplativo de filmagem, que muitas vezes se funde com o olhar curioso da única criança do grupo circense, dá equilíbrio ao clima cômico da obra. Aliás, é legal notar que a criança representa uma infância sóbria, sem o excesso de fantasia, que ao mesmo tempo que se diverte vendo as palhaçadas de Pangaré e Sangue-Puro, tem maturidade para identificar os problemas da vida real, dos bastidores. E que, em todo caso, será a responsável pela perpetuação da arte e do grupo.

Um dos aspectos mais bacanas do filme é que, para contar os dramas de um palhaço, Selton Melo escolheu compor o elenco por comediantes da velha guarda. Jorge Loredo, Ferrugem, Tonico Pereira e Moacyr Franco, antigos “palhaços”, conhecidos de todos os brasileiros. E, justamente por isso, o filme acaba se tornando uma singela homenagem a todos eles, com seus dramas pessoais, suas dificuldades, mas que nunca os impediu de nos fazer rir. E, ao contrário de filmes pura e explicitamente comerciais (como “Muita Calma Nessa Hora”, por exemplo), que reúnem elencos recheados de celebridades para faturar alguns tostões (e, talvez por isso mesmo, se utilizem de roteiros mal feitos, cheios de recortes, para acomodar todos esses nomes), os palhaços de Selton Melo nos brindam com um show de atuação, confirmando o peso que seus nomes possuem na comédia e, muito mais do que isso, na dramaturgia brasileira.

E, nesse ponto, imprescindível abrir parênteses para falarmos de Moacyr Franco. O ator e cantor encarna a figura de um austero delegado interiorano, que aparece em uma sequência de pouco mais de 3 minutos. Foi o suficiente para lhe garantir o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, no Festival de Cinema de Paulínia. Durante a exibição do filme no Festival, a atuação foi maciçamente aplaudida, a cena aberta. E, dizem, durante as filmagens, logo após o estalo da claquete, elenco e produção aplaudiram emocionadamente Moacyr. Foi a estreia dele nos cinemas.

Pois bem, mas, de repente, em sua busca por um sentido maior na vida, Benjamin nos apresenta a questão: Quem é que faz o palhaço rir? Quem faz rir aquele que faz rir? O próprio roteiro nos dá a resposta. No picadeiro, Pangaré e Puro-Sangue são o motivo da graça. Fora do circo, a própria vida proporciona a graça que Benjamin busca, frequentemente se surpreendendo com os outros palhaços – o delegado (Moacyr Franco), Jorge Loredo (chefe da repartição pública), Tonico Pereira (excelente, no papel de gêmeos, donos de uma oficina mecânica de beira de estrada) e Ferrugem (funcionário público).

No fim das contas, o filme é um ensaio sobre a comédia, de forma geral. Acostumados que estamos com a comédia nordestina, principalmente pela riqueza cultural dessa região do Brasil (que nos proporcionou talentos como Ariano Suassuna, Chico Anísio, Renato Aragão, Falcão, Tiririca, Regina Casé, dentre tantos outros), nos acomodamos a esperar que a comédia venha só de lá. Selton nos mostra a comédia mineira. O estilo de vida do interior de Minas Gerais é pano de fundo para o drama cômico pelo qual passam os personagens.

E esse lado da comédia vem com um outro aspecto interessantíssimo.

A atividade circense privou Benjamin de ter documentos civis. Não tem RG, CPF, nem comprovante de endereço. Só a certidão de nascimento. Ele é mais um cidadão brasileiro que apenas “nasceu”, não tem registros civis. E, por motivos diversos, precisou voltar à sua cidade natal para regularizar sua situação. Precisou regressar à sua cidade natal para assumir, integralmente, sua identidade. E, coincidentemente (mas, muito provavelmente, não), a cidade natal de Benjamin é Passos (Minas Gerais), cidade natal também de Selton Melo. Lá chegando, Benjamin recupera muito mais do que sua identidade de cidadão. Recupera o sentido da sua vida.

Em entrevistas recentes, Selton Melo tem indicado cada vez mais sua busca em aprofundar-se por outros ramos da dramaturgia e do cinema, revelando insatisfação em assumir apenas papéis de humor em filmes populares. Em “O Palhaço”, além de dirigir e atuar, ele é corroteirista, coprodutor e coeditor. Como os grandes diretores, ocupou-se de todos os principais aspectos. E, por ironia do destino (ou do roteiro mesmo), assim como Benjamin, ao regressar à sua cidade natal talvez tenha encontrado um pouco mais do que vem buscando em sua carreira. Sem dúvida alguma, deu um passo importantíssimo na consolidação de sua identidade como diretor. Podemos esperar muita coisa boa ainda pela frente!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

De intenções, a Rouanet está cheia!



Num país onde cada vez se critica mais sobre o que cada vez se sabe menos, um tópico favorito é: Lei Rouanet. A aplicação dela é correta, no modo como se faz atualmente?

Vemos eventos de grande porte como o Rock in Rio e obras ambiciosas como Tropa de Elite beneficiadas por uma lei que, teoricamente, deveria contemplar apenas pequenos artistas. É justo reclamarmos?

ORIGEM E JUSTIFICATIVA DA LEI

Em 1991, a inflação brasileira era monstruosa. A economia estava de mal a pior, os salários eram baixos (e estagnados!) e o nepotismo e a corrupção eram doenças crônicas que infestavam, visceralmente, alguns órgãos públicos. Diante disso, medidas tendentes à descentralização governamental foram tomadas, dentre elas a extinção da Embrafilmes – um dos órgãos  responsáveis pela gestão cultural da sociedade brasileira.

Nesse contexto, o presidente Fernando Collor sancionou a Lei nº. 8.313, batizada com o nome do então Ministro da Cultura, Sérgio Paulo Rouanet, conferindo um caráter pouco mais privado à gestão cultural.

Atingia-se dois objetivos com uma só medida: primeiramente, transferia-se a responsabilidade de parte dos subsídios culturais ao setor empresarial e, de quebra, protegia a cultura nacional, atacada pela invasão cultural do exterior, consequência da política neoliberal.

A Lei funciona em três frentes: através do Mecenato; do PRONAC via Fundo Nacional de Cultura; e do PRONAC via incentivos fiscais aleatórios.

No Mecenato, que é a forma mais conhecida de aplicação da Lei Rouanet, o investimento na cultura  ocorre no âmbito privado, de maneira direta. Antes, com a Embrafilmes, o governo federal arrecadava recursos e depois os destinava ao órgão para aplicação discricionária. Com a Rouanet, o recurso sai diretamente das empresas para aplicação em projetos aprovados pelo Ministério da Cultura, procedendo-se, após, ao abate no pagamento do imposto de renda da empresa financiadora.

Pelo Fundo Nacional de Cultura, o governo investe verbas diretamente na concessão de prêmios, financiamento de intercâmbios culturais e apoios diversos a projetos que não se enquadrem nas outras hipóteses, mas que tenham relevância cultural.

E pelos incentivos fiscais diversos, projetos que não se encaixem nas outras hipóteses, mas que possuam relevância e consistência, ficam autorizados a buscar apoio financeiro junto a empresas, com o posterior desconto no imposto de renda dos investidores.

Todas as hipóteses devem ser examinadas e autorizadas pelo Ministro da Cultura. Reformas recentes, no sentido de ampliar estes mecanismos, têm sido frequentemente discutidos.

A POLÊMICA

Esclarecidos de forma rápida os mecanismos e objetivos da lei, podemos partir para a questão principal: é justo que a Lei seja aplicável a projetos de grande porte, como os filmes produzidos pela Globo Filmes, artistas consagrados como Caetano Veloso, Alcione e Capital Inicial, e festivais de grandes proporções, como o Rock in Rio?

A lei não estabelece limites. Desde que seja um projeto cultural de relevância, viabilidade econômica e consistência, está ao alcance da lei Rouanet.

Mas a questão que se discute vai um pouco além da mera legalidade, para longe dos requisitos puramente objetivos. Quando se discute a eficácia e adequação na aplicação da lei, deve se buscar os reflexos sociais e o impacto da interpretação dos objetivos da lei.

Primeiramente, fica mais do que claro que, aos grandes projetos, restaria vedada a incidência da Rouanet pela via do Fundo Nacional de Cultura. Os próprios requisitos objetivos já definem as hipóteses cabíveis. Ademais, incentivos e privilégios concedidos pelo Estado devem sempre, em toda e qualquer situação, estar embasados em justificativas reais de desigualdade. É o famoso lema: para que todos sejam tratados como iguais perante a lei, os desiguais devem ser tratados de maneira desigual, na medida de sua desigualdade. E, no caso, não há desigualdade prejudicando os grandes projetos que justifiquem o privilégio concedido.

Logo de cara, já descaracteriza-se a grande crítica feita pela maioria dos críticos de plantão: dinheiro público não deve financiar artistas já consolidados, que ganham milhões. E não financiam.

Restariam as outras modalidades.

O Mecenato é um dos mais utilizados pelas grandes produções. E é o menos conhecido pelo grande público. Profissões como a de produtor cultural ou a de captador de recursos dependem desse tipo de procedimento. E foi ele o responsável pela origem do ramo do marketing cultural – que nada mais é que o esforço dispendido por produtores e captadores para convencer os departamentos financeiros e de marketing das empresas a investirem em seus projetos. A empresa, convencida do retorno comercial, investe no projeto apresentado e, em contra partida, “ganha” a publicidade da marca. Além, claro, de seu imposto de renda parcialmente abatido. Cabe aos produtores e captadores convencerem à empresa investidora de que o negócio compensa.

E o grande problema da Lei Rouanet reside ai: o tal do “compensa”. Não sejamos inocentes, claro, em achar que todos são movidos apenas por interesses angelicais! Mas, nesse caso, o interesse puramente econômico minou o objetivo inicial da Rouanet de estimular a produção cultural nacional, priorizar nosso produto cultural interno e reforçar a regionalização das manifestações culturais. Virou tudo um grande negócio.

A Rouanet virou refém das grandes empresas e dos grandes artistas. Ou dos que têm condição de estabelecer um bom departamento de marketing cultural. Afinal, dificilmente uma empresa deixará de investir em artistas consagrados, com visibilidade nacional, para estimular o regionalismo, bancando um projeto com repercussão local. A verba, no fim das contas, acaba bastante mal distribuída. Talvez até mais do que se fosse administrada por um órgão estatal, como era antes.

Num país utópico, onde empresas bem intencionadas se desenvolvem apegadas aos objetivos fundamentais da República, a lei daria certo. Mas no nível de desenvolvimento atual, o que acontece é que as grandes empresas se aproveitam da necessidade de patrocínio que grandes eventos possuem para divulgar suas marcas com um custo/benefício tentador. Tentação esta, obviamente, irresistível quando se trate de filmes fortemente produzidos, álbuns de artistas consagrados e festivais de visibilidade internacional.

Assim, ao tratar da questão, não devemos olhar os projetos, festivais, obras, discos e artistas que se beneficiam da Lei Rouanet como vilões. São eles apenas beneficiários de uma lei que não impôs mecanismos de contenção de interesses puramente comerciais de grandes empresas – estas sim as vilãs – deixando interesses regionais, artistas de pouca visibilidade e projetos de pouco alcance de público em segundo plano, sem ter a quem recorrer.

E, falsos moralismos à parte, poderíamos julgar tão duramente empresas capitalistas que lutam para obter suas parcelas de lucro, quando a lei oferece brechas tão facilmente aproveitáveis? A única culpada é a própria lei.

Desvios na aplicação dos recursos obtidos, concessões irregulares ou em desacordo com o que estabelece a legislação, obviamente, não entram nessa análise por serem manifestamente ilegais (caso recente observado no Rock in Rio).

A conclusão a que se chega é que não existe nada de errado, ou de ilegal, em grandes projetos se beneficiarem da Lei Rouanet. O que não quer dizer que não exista injustiça.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira



4. A origem da nobreza

Depois de pouco tempo no Brasil, a corte começou a enfrentar as consequências do exagero e da esbórnia da nobreza. Os suprimentos começaram a faltar, e a riqueza não circulava. Para não depender de empréstimos contraídos junto a outras nações, D. João VI teve uma ideia que, durante um bom tempo, funcionou: criou o Banco do Brasil.

Assim, com uma moeda própria e a circulação interna das riquezas, a economia fluiria de forma mais eficiente. E, melhor, o banco seria como uma fábrica de dinheiro particular do rei. Apesar de ser dinheiro sem lastro econômico, serviria por certo período. Deu certo por, aproximadamente, dez anos.

Inicialmente, para a implementação do banco, seu capital seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Capital este a ser implementado por acionistas, obviamente. A responsabilidade do rei era apenas criar o banco. E emitir o papel-moeda posteriormente.

Para tanto, a monarquia criou um mecanismo de compensação. Aqueles que corajosamente investiram no banco, receberam em troca títulos de nobreza, cargos na corte, dentre outras compensações. Nesse período, muita gente ficou rica do dia para a noite ou, se não chegou a ficar rico, pelo menos nobre virou.

O banco não deu certo, porque em 1820 a reserva de ouro que garantia a moeda representava apenas 20% do dinheiro em circulação. Os outros 80% eram dinheiro sem lastro. E, logo, o banco estava arruinado.

Os títulos e cargos, entretanto, continuaram. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, estima-se que, nesse período, foram distribuídas 4048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes da Ordem de Cristo, 1422 comendas da Ordem de São Bento de Avis e 590 comendas da Ordem de São Tiago.

Nos dizeres do historiador John Armitage, citado por Laurentino Gomes em seu livro, “indivíduos que nunca usaram esporas foram crismados cavaleiros, enquanto outros que ignoravam as doutrinas mais triviais do Evangelho foram transformados em comendadores da Ordem de Cristo”. Uma situação ridícula aos olhos de europeus e que, por um bom tempo, virou piada pelas ruas de Portugal.

Mais uma vez, temos uma pista de como nossa sociedade se formou. Títulos de nobreza falsos, sem lastro, que nada significavam, senão troca de benefícios econômicos foram distribuídos como panfletos no sinaleiro. O governo beneficiava aqueles que lhe favoreciam, criando uma sociedade inteira de falsos nobres.

Enquanto nos antigos e tradicionais reinos da Europa os nobres realmente mereciam os títulos adquiridos, aqui pelo Brasil, por mais grossos e rústicos fossem os cidadãos, viravam nobres apenas por alimentar a ganância e as regalias do rei.

Alguma semelhança com os dias atuais?

Fonte:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira

Palácio de São Cristóvão
 
  1. A casa do traficante negreiro

Assim que a família real portuguesa chegou ao Brasil, viu-se livre da ameaça de Napoleão Bonaparte. Mas, de repente, pegou-se num problema tão grande quanto: onde estamos?
Apesar de os planos para vir ao Brasil e, quem sabe, transferir a sede do poder português, não serem propriamente de última hora, o planejamento foi precário. Assim, a estrutura brasileira de forma alguma estava preparada para receber os únicos reis e rainhas que já pisaram em solo americano.
Não havia um palácio esperando a realeza.

Elias Antônio Lopes, um traficante de escravos da época, aproveitou-se da situação e doou seu palácio particular ao rei, juntamente com as terras da chácara de São Cristóvão, a ele vinculadas. Era 1808.

O palácio foi, posteriormente, batizado de Quinta da Boa Vista e se transformou em residência oficial do monarca durante todo o período em que permaneceu em solo brasileiro.

Como recompensa, Elias Antônio Lopes foi agraciado com a comenda da Ordem Militar de Cristo e nomeado tabelião e escrivão da Vila de Parati.

Não bastasse isso, em 1810, Elias foi condecorado como cavaleiro da Casa Real e agraciado como alcaide-mor e senhor perpétuo da Vila de São José del-Rei. Também foi nomeado corretor e provedor da Casa de Seguros da Corte.

Todos esses títulos de nobreza foram decorrentes, direta ou indiretamente, do presente dado a Dom João VI. Ou seja, foi um investimento acertadíssimo por parte do traficante.

Por fim, foi designado responsável pela arrecadação de impostos em diversas localidades da corte. O que, por si só, já evidencia quanto dinheiro ele conseguiu ganhar depois de feita a doação do palácio.

Esse é mais um episódio que nos leva a questionar sobre nossas origens. A primeira morada do rei, em solo brasileiro, foi doado por um traficante, contrariando uma infinidade de princípios administrativos de que temos conhecimento (impessoalidade, moralidade, dentre outros). O governo brasileiro (ainda que vinculado a Portugal) já começou de rabos presos com um traficante. De escravos, não de drogas. O que é pior.

A política “rabo preso” da realeza luso-brasileira ficou tão evidente que, durante todo o resto de sua vida, o traficante Elias (que não é o Maluco) ganhou presentes, títulos e riquezas sem muito esforço.

A questão dos títulos de nobreza, a gente vê no próximo post.

Fonte:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo : Editora Planeta do Brasil, 2007.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira



2. Polícia para quem precisa

Um fato interessante sobre o período colonial está relacionado à escravidão.
Depois de anos acostumados com a mão-de-obra barata vinda dos milhares de escravos negros africanos, a sociedade brasileira colonial achava esse tipo de relação de trabalho mais do que comum. Aliás, mais do que um simples costume, ter escravos era sinal de status. Fazia parte da estrutura social, de forma visceral.

Dessa forma, era normal passear com escravos, depender deles, maltratá-los e castigá-los. As punições, inclusive, eram feitas em qualquer lugar. Nas praças, na porta de casa, nos quintais, enfim, em qualquer canto. Os açoites ou chibatadas, punições mais severas, eram feitas nos troncos, em praça pública.

Quando D. João VI veio para o Brasil, fugindo de Napoleão, trouxe consigo toda a sua corte. Nobres, funcionários, familiares, enfim. Muita gente que nunca tinha vindo ao Brasil (inclusive o próprio rei) deparou-se com um mundo totalmente novo nas terras além-mar.

Naturalmente que o nível de desenvolvimento social da colônia era diversas vezes mais baixo que o da metrópole e o do resto da sociedade européia. Assim, toda essa gente portuguesa estranhou muito o que encontrou por aqui, principalmente no que tange à educação e ao refinamento dos colonos.

Uma das primeiras atitudes do rei quando se instalou no Brasil foi, imediatamente, cuidar dos modos da colônia. Já que iria morar no Rio de Janeiro por um bom tempo, que fosse em uma cidade digna. Que estivesse em um patamar pelo menos próximo do de sua cidade natal.

Estabeleceu, então, a Intendência Geral de Polícia da Corte, que era uma espécie de prefeitura misturada com Secretaria de Segurança Pública, nomeando Paulo Fernandes Viana como o “agente civilizador”. Seria ele responsável por melhorar a qualidade das ruas da colônia, providenciar iluminação, aterrar pântanos, cuidar do suprimento de água e comida na cidade, dentre outros.

Nessa perspectiva, o açoite de escravos em vias pública foi considerado bárbaro, não condizente com uma cidade de nível europeu, tida como civilizada. E para combater isso, o “prefeito-delegado” passou a proibir essa prática. Determinou, inicialmente, que o castigo a escravos deveria ser feito no interior das residências, longe dos olhos do resto da população. E, posteriormente, estatizou esse tipo de punição.

Assim, foi instituído um “carrasco” ou “executor” das punições, funcionário público, responsável por cumprir com os castigos determinados pelos donos dos escravos. O direito de dar chibatadas passou a ser exclusividade do Estado. E longe dos olhos do público. Familiar?

Quem é que sabe o que acontece nos porões das Delegacias, atualmente? A maioria das pessoas aceita ou até defende a tortura como fim de obtenção de confissões. Ou de castigo a criminosos. O sentido é o mesmo. Todos acham necessário. Desde que longe dos olhos do público. Talvez o costume atual esteja tão arraigado justamente por ter raízes tão antigas. Somos escravistas até hoje.

Fontes de pesquisa:

Site - http://pt.wikipedia.org
Livro – GOMES, Laurentino. 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Origens sombrias da cultura brasileira


  1. 1. Nosso nome de batismo

O Pau-Brasil, cujo nome científico é Caesalpinia echinata, é um tipo de árvore nativa da Mata Atlântica. Recebeu esse nome em razão da resina cor de brasa que tinge sua madeira. Antes de receber esse nome em português, entretanto, seu nome em tupi já era ibira pitanga, ou "madeira vermelha".

Após a descoberta do Brasil, a primeira grande atividade econômica explorada pelos portugueses na então Terra de Santa Cruz era a extração da madeira e da resina de Pau-Brasil para uso como tintura em manufaturas de tecidos de alto luxo. Com o crescimento da importância dessa atividade e a abundância da matéria-prima, em pouco tempo a colônia portuguesa passou a se chamar Brasil.

A extração desenfreada e sem qualquer fiscalização do Pau-Brasil levou à sua drástica diminuição em território brasileiro, chegando às beiras da extinção. Devido a isso, a metrópole passou a exercer fiscalização intensa sobre a atividade na colônia. Não só devido ao risco para a espécie, mas, sobretudo, para evitar o contrabando e a exploração por estrangeiros.

Especula-se que o nome correto da pessoa nascida no Brasil, de acordo com as origens dos nomes de nacionalidade de outros países, deveria ser “brasiliense” ou então “brasiliano”. Não é à toa que, em outras línguas, nosso nome seja traduzido como “brazilian” (inglês, irlandês, latim), “brasilianer” (alemão), “brasiliano” (italiano), dentre outros. Mas nosso nome não segue à lógica padrão, porque não está ligado, originariamente, ao nome de nosso país.

Brasileiro, em sua origem, é definido como “aquele que transporta/produz/extrai pau-brasil”. E, posteriormente, de maneira ainda mais forte, passou a significar “aquele que trafica pau-brasil”.

Apenas depois de dado o nome ao país – Brasil – e de plantada a semente do patriotismo é que buscou-se um cuidado maior com a designação de nossa nacionalidade, vinculando a palavra única e definitivamente.

Nossa maldição já começa de nossos nomes. Somos, originariamente, traficantes. Nascemos de uma atividade ilegal. Dai como temos responsabilidade ainda maior em nadar contra a corrente da História e modificar nossos costumes, buscando verdadeiramente os objetivos traçados por nossas leis.



Fonte de pesquisa:

Site - http://pt.wikipedia.org

Origens sombrias da cultura brasileira




Depois de boiar por muito tempo, decidi ler o livro 1808, do Laurentino Gomes. Está entre os mais vendidos no Brasil, durante muito tempo.

Livros, filmes e álbuns best-seller não costumam me chamar a atenção simplesmente por estarem nessa condição. Mas é sempre bom dar uma olhada para saber do que se trata.

A linguagem é excelente. E a pesquisa realizada pelo autor para escrever o livro foi muito bem feita e bastante profunda. Recomendo muito.

Entretanto, como eu sei que muita gente não vai animar pegar para ler – seja por falta de tempo, falta de costume, ou falta de interesse no assunto – eu decidi escrever alguns posts sobre fatos históricos interessantes que eu vi no livro, jogando algumas análises e pesquisas que eu fiz na internet. Ressalto que as opiniões são só minhas e não do Laurentino! Apenas citei os fatos e curiosidades históricas que o autor mencionou.

São fatos importantes para a gente perceber nosso papel na História, nossa responsabilidade como brasileiros e os desdobramentos disso tudo. No mínimo, ajudam a explicar o porquê disso tudo que anda acontecendo no nosso país (corrupção, violência, pobreza, etc).

Espero que todo mundo ache tão interessante quanto eu.