segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Tecla que falta no Teclado Brasileiro



O complicado da internet é a preguiça de se comunicar direito. Ao meu ver, é só isso. As pessoas realmente têm um pouco de preguiça de pesquisar, ir atrás e tudo mais. Mas ao mesmo tempo, temos preguiça de digitar, explicar direitinho o que queremos ou o que estamos respondendo. Isso, infelizmente, gera uma série de ambiguidades.

Imagine uma situação: Você está no MSN com alguém, dai essa pessoa te pergunta: “Onde eu acho um McDonald's aqui perto de casa?”. Dai você responde: “Se você googlear você acha”.


Dá para saber que tipo de humor você usou? Pode ser tanto de ajuda quanto de sarcasmo! E isso é uma peculiaridade da linguística brasileira. Me lembro da primeira vez que meu professor de inglês disse que, no exterior, as pessoas se comunicam por palavras. No Brasil, nos comunicamos com palavras e com tons de voz. Lá fora, é fundamental que saibamos utilizar todas as expressões idiomáticas “educadas”, porque não existe o jeitinho de pedir. O jeitinho de falar. Aqui, uma mesma frase pode ser dita com jeitinho, numa entonação simpática e agradável e também pode ser dita num tom extremamente rude e mal-humorado.


Na internet, não tem como ouvirmos o tom que a pessoa quis transmitir. E dai, a maioria interpreta como sendo o tom negativo. No caso do MSN, que eu citei ali em cima, o interlocutor pode interpretar sua resposta tanto como uma ajuda, quanto como sarcasmo. Ele pode entender a resposta: 1- “Olha, não sei, mas se você jogar no Google, com certeza vai achar um McDonalds perto de você.” ou então como 2- “Tá me achando com cara de lista telefônica? De guardinha de metrô? Já ouviu falar de um lance chamado Gúgou? SE VIRA!”.


No exterior, palavras bastariam. Mas, no Brasil, quando inventarem teclas para digitar frases com “jeitinhos” de falar, a comunicação vai ficar bem mais fácil!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre a Liberdade de Expressão





Um dia, Voltaire disse: “Não concordo com uma só palavra do que dizes. Mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. E, desde então, as pessoas vêm repetindo essas palavras incansavelmente, no decorrer dos séculos e séculos, muitas vezes sem entender o real sentido da expressão. É uma das frases mais pesquisadas e citadas no Google.

Na época em que a expressão foi usada pela primeira vez, a França enfrentava o auge do absolutismo. As pessoas comuns (leia-se, que não tinham nenhum título de nobreza, nem riqueza) viviam espremidas entre o cetro do rei e o peso da bíblia. De um lado, as espadas da guarda real, do outro, a ira divina. Era obedecer ou morrer e ir para o inferno. E Voltaire cunhou a expressão, defendendo a submissão à lei e o desapego às tradições e superstições. Todos, sem exceção, deveriam agir nos critérios impostos por uma lei anteriormente apresentada. Se o mais alto dos reis a desobedecesse, seria apenas mais um "salteador de estrada ao qual se chama de 'Sua Majestade'", nos dizeres do próprio iluminista.

Essa semana, o Supremo Tribunal Federal se pronunciou sobre a polêmica “Marcha da Maconha”. Depois de muito se discutir sobre a legalidade ou não do movimento, os reais e falsos objetivos, os envolvidos - e toda a poeira que se levanta sempre que alguém menciona a palavra “Maconha”- chegou-se à conclusão de que o movimento é legítimo e legal. No fim de todo o rebuliço, o STF se pronunciou respeitando o bom-senso: a “Marcha da Maconha” está em perfeita consonância com os ditames Constitucionais. E ai veio a chuva de críticas.

A primeira falha, ao meu ver, é no nome do movimento. "Marcha da Maconha"? Dá para entender errado mesmo. Tinha que ser "Marcha pela Regulamentação do Uso da Maconha", ou algo do gênero.

A nossa Constituição Federal, promulgada em 1988, logo após o regime ditatorial, é considerada por muitos como uma das maiores conquistas do povo brasileiro. Tem o apelido de Constituição Cidadã. E lá, está disposto de forma clara que é livre a manifestação de pensamento (art. 5º, inciso IV), bem como que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente (art. 5º, inciso XVI). Ou seja, direito de livre expressão e livre reunião.

Inicialmente, cabe esclarecimentos de que as pessoas envolvidas na discussão de forma séria dividem-se em dois grupos: os que acreditam que problemas como o tráfico de drogas e de armas, a violência e a corrupção não estão sendo satisfatoriamente resolvidos de acordo com os sistemas de combate atualmente adotados. Assim, uma ampla discussão deve ser feita no sentido de se achar novas maneiras de combate e, uma dessas formas, seria a regulamentação do uso da maconha, seja para uso medicinal, seja para o controle efetivo do governo (meios de produção, distribuição, tributação, etc). O outro grupo defende que qualquer manifestação acerca da regulamentação da maconha, em qualquer circunstância, seria apologia ao crime, já que o uso de drogas está previsto como crime em lei específica. E defendem, obviamente, que a situação deve permanecer assim, já que consideram o uso da maconha como prejudicial à sociedade, à saúde e aos bons costumes.

No meio dessa salada toda, bagunçando, estão as opiniões preconceituosas e as oportunistas. Movimento de maconheiro de um lado. Movimento para a liberação da diversão do outro. Uns aproveitam para defender suas famílias, apontando o fim do mundo que desfila das ruas. Outros aproveitam para abastecer seus carregamentos e fumar em paz no meio da muvuca do calçadão de Ipanema.

Cada um pensando no seu próprio umbigo.

É como a Marina diz: O que não podemos esquecer é que os baderneiros (tá, grude seu rótulo, chame de “maconheiros”, “marginais”, se quiser. Que seja!) existem em qualquer movimento social e são seu calcanhar de Aquiles. Seja no MST, na Marcha da Maconha, nas torcidas organizadas, sempre vão existir pessoas desvirtuando esses movimentos. É onde surge o ponto fácil de ser criticado. E a opinião pública é manipulada (e, muitas vezes, manipuladora) em cima desses pontos fracos. Quem não se aprofunda no tema pode se apegar facilmente a essas “alças” de discussão e pré-fabricar sua opinião.

Enquanto isso, os verdadeiros problemas persistem.

O STF fez muito bem. Não estamos adentrando no mérito da questão: Legaliza ou não? Libera ou não? Discriminaliza ou não? A questão não é essa. O fato é que, sendo um movimento pacífico, que prega a discussão de um problema social grave, em perfeita consonância com a Constituição, todo mundo deveria defender até a morte o direito das pessoas em participar ou não da manifestação, mesmo que não concorde de maneira alguma com o que está sendo dito. Ou você faz isso, ou então para de ficar citando Voltaire, pelo amor de Deus, já que você não concorda com ele.

SOBRE A OPINIÃO PÚBLICA: A dificuldade em se cumprir a lei, pelo Estado, está na mentalidade absolutista dos administradores. Mas por parte da população, está na submissão a tradições, superstições, fanatismos e costumes, muitas vezes arcaicos. Não basta que a lei evolua. A mentalidade das pessoas, suas crenças e tradições, também devem crescer. Não adianta termos a legislação mais avançada do mundo, se as pessoas continuam se esquivando dos problemas para andar em suas Tupperwares (lê-se Táper Uéres! HeuEHUe) com ar-condicionado, vivendo em suas penitenciárias privadas. Levando um susto toda vez que alguém fala “Maconha”, ou “Força Jovem” ou “MST”. Era exatamente contra isso que Voltaire lutava, lá na França do século XVIII – e enfrentaria dificuldades até hoje, talvez maiores ainda!

É fácil empurrar a sujeira para baixo do carpete. É confortável não tocar na ferida, quando a parte ruim do problema não te atinge. E é fácil citar Voltaire pra cima e pra baixo, achar bonito, colocar na folha de rosto do trabalho de conclusão de curso. Realmente acreditar no que está dizendo e colocar em prática, é outra história. Falar e não fazer se chama preguiça. Ou hipocrisia. Você escolhe.

Aposto que, depois de ler esse texto, vai ter gente me chamando de maconheiro. Mesmo eu nunca tendo usado qualquer tipo de droga. Nem pretendendo fazê-lo. Pra você ver como funciona a coisa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Velhinho das Mensagens



Acredito que, para todo mundo, entrar na faculdade é meio que abandonar seu velho mundo e conhecer um mundo novo, totalmente diferente. Na verdade, não é bem abandonar. Mas confrontar seus valores e seu meio de vida com o de centenas de outras pessoas bem diferentes de você. Se antes, “diferente” era aquele coleguinha que sentava na sua frente, que torcia para o Vila Nova, mais gordo ou que não escovava os dentes, na faculdade a coisa era bem mais contrastante. “Diferente” era o cara que fumava maconha, ou que tinha 40 anos, ou que era Bombeiro ou era filiado ao PMDB. Enfim, o “diferente” era bem mais “diferente” que o que você via no ensino médio.
É um crescimento pessoal de 50 anos em 5, conviver de verdade com toda essa diversidade.

E é quando você faz 18 anos, tira carteira de motorista, se alista no exército (para os homens), vota de verdade, etc e tal.

O fato é que, além de todas essas diferenças no convívio, sua rotina ainda está vulnerável a uma série de maluquices. Você não precisa mais pedir para sair de sala (aliás, você pode até ficar fora dela o tempo que quiser, sem ninguém dar a mínima); vê pessoas deixando torneiras, luzes, computadores, ventiladores (ar condicionado não tem nem na sala do diretor) ligados por horas, dias e até finais de semana inteiros; pessoas de todo tipo entram no meio das aulas, de repente, para pedir dinheiro pra viajar de volta pra casa, para bancar um curso de teatro, para entregar panfletos, e mais um punhado de coisas.

E lá que eu vi o velhinho das mensagens pela primeira vez. Primeiro ano de faculdade, eu careca com medo de levar trote. Ele coloca a cabeça por um vão estreito da porta, olha para o professor ou professora e, sem esperar autorização, ele sai entregando mensagens espíritas de carteira em carteira. “Mas que porra é essa???” eu pensei da primeira vez.

Dai, mais ou menos toda semana, era a mesma coisa. Cabeça no vão da porta, falta de autorização, mensagens de carteira em carteira. Ficava todo mundo sem jeito, uns rindo, outros achando bonitinho. Uns professores faziam que não viam e continuavam dando aula, outros cumprimentavam, outros forçavam uma intimidade (“Ô, tio, já tava com saudade do senhor!”). A verdade é que ficava todo mundo sem saber o que fazer. E acabavam lendo os pedacinhos de papel com mensagens sobre otimismo, fé, perseverança, caridade.

Durante os meus cinco anos de faculdade, vi as situações mais hilárias com o velhinho. Ele já entrou em dia de prova, já deixou os professores mais carrascos sem jeito. Não tava nem ai. A sala era um silêncio só, ninguém nem respirava direito, com medo do carrasco e, de repente, lá estava o velhinho colocando a cabeça na brecha da porta e distribuindo mensagens sem autorização do escrotão. Todo mundo vibrando com a coragem do mensageiro e dando trela do ditador perdendo a compostura.

No fim da faculdade, com a colação de grau, a gente também tem que se despedir desse ambiente bacana. Bibliotecários, seguranças, vendedores, professores, colegas - e uma ou outra figura lendária perdida nos corredores. Precisamos falar tchau pra todo mundo. E o velhinho também ficou pra trás. Pelo que eu saiba, ninguém nunca perguntou o nome dele. Não sei o que ele faz, onde mora e, principalmente, por quê ele distribui essas mensagens na Faculdade? Foram cinco anos de curso. Eu poderia fazer coleção de papéizinhos (me arrependo amargamente de não ter guardado todos!). Já era.

Nunca mais vi o velhinho. Alguns colegas diziam que ele morreu, que voltou para o Maranhão, que mudou para a casa dos filhos. Mas ele ficou cristalizado lá na faculdade, nos tempos de maluquice e diferenças.

E hoje, trabalhando no Tribunal de Justiça, depois de quase 9 anos desde a primeira vez que eu vi aquela figura, ele bate na porta da minha sala. Que surpresa. Foi quase como se a faculdade batesse ali na porta também. Os bancos antigos, as bancas de livros, os servidores... todo mundo batendo ao mesmo tempo na porta. Mas foi só uma batida. Ele abriu um pouco a porta, colocou a cabeça no vão, olhou pra mim e para os outros dois colegas de sala e saiu distribuindo mensagem pra nós três. Sem pedir autorização. Era ele mesmo!

Aproveitei pra perguntar o nome dele. Seu Militão. Eu nunca que ia adivinhar!

Eu não vou fazer um esforço para criar uma situação fantástica aqui. Falar que eu tinha um problema me atordoando, e não achava solução, dai um dia apareceu o velhinho, conversou comigo e me deu uma mensagem com a solução para os meus problemas. Isso acontece nos filmes.
E talvez por esperar que as coisas sempre aconteçam como nos filmes é que as pessoas têm ficado cada vez mais frias, mais desesperadas, mais descrentes e mais amargas. Tudo ao mesmo tempo. Eu não preciso de situações aparentemente milagrosas para perceber que esse velhinho tá ai pra me ensinar. Ele faz o seu trabalho de formiguinha todos os dias, entregando suas mensagens a centenas, dezenas, milhares de pessoas sabe-se lá onde! Sem pedir moedas, sem esperar autorização, sem exigir reconhecimento. Ele só está lá, onde acha que tem que estar. Não precisa divulgar sua bandeira para gerar o desconforto. Não precisa de reafirmações para não desanimar. O seu silêncio e, ao mesmo tempo, sua presença marcante entram, da mesma forma, na sala de estudantes, no gabinete do juiz, na sala de office-boys, no bar, na farmácia. E, no entanto, a maioria é cega para perceber esses pequenos aspectos interessantes da vida. Essas pessoas malucas que significam tanto! Que vivem tão bem, para si e para os outros.

Eu não vou achar estranho se, durante minha vida toda, o sr. Militão entrar mais um punhado de vezes no meu escritório, gabinete, sala de concurso, maternidade, velório ou em qualquer outro lugar em que ele não precise pedir autorização para distribuir suas mensagens. Na verdade, até torço pra isso acontecer sempre.

A propósito, a mensagem que ele deixou hoje foi sobre ser feliz.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Jogo do Atlético/GO

Esse não é um texto de um especialista em futebol. É o texto de um torcedor indignado.




Nesse fim de semana do dia 15/05/2011 aconteceu a final do 68º Campeonato Goiano de Futebol. Atlético Goianiense x Goiás. E eu fui ao Serra Dourada para ver o Atlético entrar em campo.

Quando digo isso, não estou exaltando o time rubro-negro. O Atlético foi o time mais previsível de todos os tempos. Não surpreendeu seu torcedor, de forma alguma. Foi o mesmo time oportunista, de jogo amarrado, que segura a bola e faz falta em 80% das disputas de bola em que está envolvido. Um time extremamente limitado, com pouca capacidade criativa. Mas de uma sorte extrema e que sabe aproveitar as poucas oportunidades que tem. Isso é e vem sendo o Atlético Goianiense nos últimos 3 ou 4 anos. Salvo raras exceções.

Temos que reconhecer, o Márcio fez participações fundamentais no jogo. Bom jogador, ele.

Quanto ao Goiás... ah! O Goiás. Faz tempo que não o vejo jogar. Alguém passou nesses campos de terra e pegou uns 13 ou 14 jogadores de várzea e ofereceu a eles camisas oficiais do Goiás, em troca de entrar em campo para cumprir tabela. Sumiram com o time esmeraldino oficial!!!

Antes fosse. O Goiás vem gastando milhões com salários e benefícios de jogadores que, vez ou outra, parecem estar enganando o torcedor. Mas, é como eu sempre disse: é foda torcer para o time dos outros. O Goiás, infelizmente, não nos pertence. Pertence a Hailés e Edminhos da vida. Os mesmos donos da HP, empresa de transporte público. E você pode até dizer que eu não conheço nada de futebol, não sei do que eu tô falando. Bom, de ônibus eu conheço. E acho que, se chamam o time do Flamengo de bonde sem freio, o do Goiás é um ônibus da HP no eixão, às 18h.

A parte mais difícil de tudo é saber que as coisas não vão mudar tão cedo. E aguentar atleticano enchendo o saco na segunda-feira.

Convenhamos: um time que se sagra campeão com dois empates, nos jogos de ida e volta, contra o “timinho vagabundo” do Goiás (nas palavras deles próprios), sair esbanjando desse jeito?

Anotem: se o Goiás não melhorar, ano que vem é série C. E se os atleticanos (jogadores e torcedores) não enxergarem a pequenez do próprio time e não tirarem os olhos do próprio umbigo, vão despencar da série A direto para a série C.

Me desculpem pelas opiniões rasas e pelo texto mal escrito. Mas encarar a segunda é FODA (feira, divisão, que seja)!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Adeus, Michael" e adeus, Steve Carell

O último episódio da estrela de “The Office” foi um episódio de despedida, tratando sobre episódios de despedida, com lágrimas reais. Atenção: contém menção a cenas do episódio 22 da sétima temporada (S07E22).





Episódios de despedida são tão difíceis quanto despedidas na vida real: não importa o quão divertidas, doces ou sentimentais elas sejam, nos deixam, por definição, insatisfeitos. Afinal, alguém que você gosta está indo embora. Ou, neste caso, alguém mesquinho, narcisista, patético, exagerado, causador-de-vergonha-alheia e que você gosta está indo embora. Procure no dicionário pela definição de “Michael Scott”.

Como resolver um problema tão grande quanto a saída de Michael? O melhor seria retomar as origens da série (contrariando à evolução natural do roteiro, que vem tornando os personagens mais profundos e acolhedores), mostrando Michael em seu melhor estilo: egoísta, dramalhão e sem-noção? Ou seguir no curso do desenvolvimento lógico dos fatos, com um final bem sentimental (ou, ao menos, tão sentimental quanto pode ser “The Office”, sem deixar de ser “The Office”)?

Os produtores, roteiristas e o próprio elenco escolheram a segunda opção. E foi uma jogada inteligente.


O programa passou sete temporadas construindo uma saga para Michael, na qual ele (muito) lentamente passa de um pequeno ditador narcisista, com algumas poucas qualidades, para um ser humano reconhecedor de suas próprias falhas, dotado de empatia e honestidade. Em alguns momentos, até mesmo introspectivo. Não é uma história que todos aprovam, já que a graça do personagem está justamente em suas piores características. Mas foi o que, pouco a pouco, os criadores do show implementaram. E foi o que se tornou a realidade do Michael.


Metaforicamente, a gente pode ver essa evolução na cena em que Michael joga no lixo a caneca estampada “Melhor Chefe do Mundo”, que ele mesmo comprou para si, e coloca no lugar um “Dundie Award” de melhor chefe, supostamente entregue pelos funcionários do escritório. Obviamente, mais à frente as coisas voltam ao normal, com Michael resgatando a caneca do lixo.


Ao mesmo tempo em que é um episódio comum, este tem uma outra dimensão, um pouquinho mais complicada. “The Office” faz parte de um estilo de comédia conhecida nos Estados Unidos como “mockumentary”, que seria um falso documentário. Uma série que, de forma propositalmente desajeitada, imita o formato de um documentário real, debochando do estilo. Nesse episódio em especial, por trás da graça de se imitar um documentário, a série adicionou o coração dos verdadeiros envolvidos no programa: temos a impressão de assistir uma gravação real sobre pessoas e fatos, em vez das peripécias improvisadas pelos atores e atrizes.


Um aspecto muito interessante são as repetidas referências ao filme “O Mágico de Oz”, durante o episódio, que nos fazem lembrar da famosa e enigmática frase, dita por Oz a Dorothy, no fim do filme: “Não preste atenção naquele homem por trás da cortina”. (http://youtu.be/YWyCCJ6B2WE) A beleza da frase está justamente no fato de que, quando o mágico a disse, ele já havia sido exposto como o próprio homem por trás da cortina. Todo mundo já tinha matado a charada, ele não tinha mais o que fazer. A listinha de nomes que Michael risca, enquanto distribui presentes (e momentos) esdrúxulos aos seus funcionários, o coloca na posição do próprio mágico. Além disso, uma boa parte de “Adeus, Michael” foi escrita, dirigida e interpretada no espírito dessa cena do filme. O episódio nos deixa ver o artifício por trás da falsa realidade de documentário. Por vezes, chega a deixar transparecer que estamos assistindo a um programa estrelado por um aclamado ator profissional, bastante famoso e que, infelizmente, precisou sair para se concentrar em sua carreira no cinema.


O episódio especial de uma hora ainda vai mais além, deixando claro que uma boa parte da emoção que estamos experimentando vem do fato de ter permitido, desde o começo, que Steve Carell e todos os outros atores entrassem em nossos lares, pelo menos uma vez por semana, nos últimos sete anos; e além disso, nos mostra que essa nossa consciência, ou auto-consciência, não diminui em nada a melancolia que sentimos.


Os fãs da série já tiveram oportunidade de ler várias matérias sobre “The Office”, contando como foram os bastidores da saída de Carell: com bastante dificuldade, aparentemente, já que Carell é conhecido como um cara amável, na maior parte das vezes sentimental, com quem seria bastante divertido de trabalhar. E, em vez de empurrar esse sentimento para os bastidores, “Adeus, Michael” fez questão de abraçá-lo. Durante vários pontos, os personagens – principalmente Michael – experimentam sentimentos fortes, e muitas vezes confusos, que chegam a destoar das cenas que devem ser interpretadas. Considerando o quanto a série é franca, de qualquer forma, foi um elemento que só acrescentou e contribuiu para a vibração triste e doce do episódio.


O close maravilhoso de Michael na copa – olhos marejados, enquanto escuta seus funcionários na outra mesa, reclamando de bobagens – foi um dos closes mais penetrantes de Steve, em todos esses anos do seriado. E quando o diretor Paul Feig cortou para uma entrevista com o próprio Michael, ele também estava chorando lá. Ou deveríamos dizer que Carell estava chorando? Considerando o contexto, não faz a menor diferença. Afinal de contas, não se tratava apenas de um escritório dizendo adeus ao seu chefe, mas também a atores e atrizes dizendo adeus a um colega com quem trabalharam desde o início de 2005.


Embora a relação entre Jim e Michael tenha mudado bastante durante todos esses anos, ainda é difícil encontrar elementos para explicarem a luta daquele contra as lágrimas, na conversa final entre os dois. Dois terços das irritações pelas quais Jim passou, em todas as temporadas, foram por causa da idiotice ou da covardia de Michael. E, ainda assim, lá estava ele, com os olhos molhados, em frente a um Michael também emocionado, dizendo-lhe que ele foi o melhor chefe que já teve. Soa muito mais como uma expressão de amor e respeito entre atores colegas do que entre funcionários de um escritório mas, no contexto, a ambiguidade funcionou perfeitamente.


As múltiplas cenas de Michael tentando (e falhando) acertar os três pontos na cesta de basquete, no depósito, também tiveram uma carga dramática adicional. Intercaladas durante a narrativa do episódio, ficamos sem saber se é Michael ou o próprio Carell brincando com a bola. Simultaneamente, enquanto vemos Michael falando do pequeno espantalho que deu de presente a Oscar, não sabemos se é um chefe rindo do presente que deu a seu funcionário, ou se é uma entrevista de bastidor, na qual o próprio ator, Steve Carell, ri da reação de seu colega Oscar Nunez. “Meu espantalho”, fala Michael/Steve, engasgando com a própria gargalhada, “pareceu que foi feito por um macaco de 2 anos de idade! E, mesmo assim, ele aceitou! Acho que ele tem o pior conceito sobre mim, de todos eles!”. Cenas que deixam transparecer, de certa forma, o homem por trás da cortina. Ou, pelo menos, acrescentam uma ambiguidade interessantíssima ao episódio.


Até mesmo Dwight teve um momento sentimental, embora não tenha derramado tantas lágrimas. Aconteceu na cena de entrevista em que ele lê uma carta de recomendação escrita por Michael. Na hora, Dwight estava com muita raiva por Michael não tê-lo indicado como seu substituto no escritório. E a carta, elogiando-o e enchendo-o de adjetivos, o amoleceu.


As cenas finais, no aeroporto, são fantásticas. Ao passar pela segurança do embarque, os últimos atos de Michael como participante no documentário fictício foi perguntar à equipe de produção fictícia quando é que as gravações iriam ao ar. E então, depois, remove seu microfone sem fio e o entrega ao cara do som, antes de rumar para o portão de embarque. A câmera não para de rodar. No caminho rumo ao corredor de embarque, Michael é surpreendido pela Pam, que aparece correndo e lhe dá um último abraço. A única funcionária da qual não conseguira se despedir fora ela. E essa cena afasta, por alguns instantes, a dimensão de “documentário fictício”.


Isso porque o abraço entre Michael/Steve e Pam/Jeena Fischer ocorreu a uma distância discreta, longe da captação dos microfones. Essa ausência de som e a posição dos atores torna impossível descobrir o que eles estão conversando. E torna o fim platônico. Pam foi o espantalho real, comparativamente ao “Mágico de Oz”: aquela que deu o adeus final. E por ser um adeus silencioso, de certa forma representa a despedida a todos os telespectadores – silenciosos a assistir, do outro lado da tela – a um personagem que, durante tanto tempo, os entreteve.


Baseado no texto original de Matt Zoller Seitz, disponível em: <http://www.salon.com/entertainment/tv/feature/2011/04/28/office_steve_carell_farewell>

CONTO - A NOITE DO NATAL (parte final)

O fim de semana foi um verdadeiro suplício. Giovane estranhou quando não encontrou o amigo no Oliveira's, na sexta à noite.

O que aconteceu foi que, assim que saiu do bar na quinta feira, Natal não conseguiu mais pensar em outra coisa que não a moça ruiva. Chegou em casa, tomou um banho, colocou seus pijamas e entrou na cama, para não sair mais do apartamento até segunda feira.

Todos os dias, sonhava com um monstro enorme, de cabelos ruivos e dentes afiados, correndo atrás dele e do Visconde de Sabugosa. Um dia, chegou a sonhar com uma vagina vermelha carnívora. Era a ruína completa de qualquer masculinidade que porventura viesse a ter nascido em sua alma.

Faltou ao trabalho na terça. Tinha certeza de que a ruiva viria bater à sua porta. Precisava estar preparado. Comprou alguns vinhos baratos na venda da esquina, umas torradinhas com patê de frango na padaria e deu uma limpeza geral na casa. Não sabe porquê, mas deixou um bastão de beisebol atrás da porta da lavanderia.

O relógio da sala apitou as 19 horas. Era agora. Podia ser a qualquer momento. Por mais de duas vezes, pensou em desistir. Sair de casa correndo e deixar a moça bater na porta até enjoar e ir embora. Mas a mediocridade de sua vida lhe fazia lembrar do discurso do Giovane a todo instante. Precisava enfrentar seus medos para ser feliz. Precisava ser feliz, custasse o que custar.

Olhou no relógio, eram 20h30. Nada da ruiva ainda. Já havia tomado banho, passado seu melhor perfume. Sentou-se no sofá da sala e ligou no Jornal Nacional para relaxar. Sua atenção, entretanto, estava longe. Seus olhos não saiam da porta.

Às 21 horas, começou a acreditar que a garota não viria mais. Havia pesquisado na internet e se apegava às estatísticas que vira para, nervosamente, não desistir de esperá-la. Mais de 80% das pessoas praticava sexo depois das 20h45 da noite. Desses, 25% era com garotas de programa. Ou seja, quanto mais a hora passava, maior a probabilidade de a ruiva bater à porta.

Quando o relógio da sala indicou meia-noite, desistiu. Caminhou para o banheiro, descalçando os sapatos marrons no caminho. Colocou a pasta de dente na escova e...

Toc toc toc.

Natal parou. O coração gelado. Os pêlos da nuca arrepiados.

Seria possível? Como é que o porteiro deixara a moça ruiva entrar sem lhe interfonar antes? Estourou um cano de pensamentos em sua mente. Lembrou do bastão de madeira atrás da porta da lavanderia. Correu para calçar novamente os sapatos e, tropeçando, alcançou o controle da TV para desligá-la. Será que a mulher estaria a trabalho? Teria deixado algum cliente antes de vir bater à sua porta? Quantas bocas indiretamente beijaria, essa noite? Isso para não pensar em outras partes do corpo...

Toc toc toc.

Aproximou-se do olho mágico. Meio receoso, não sabia de quê.
Do outro lado, o porteiro esperava impaciente.

Ao ver a figura do rapaz da portaria, uma sensação de paz tremenda invadiu o espírito de Natal. Seria isso a Felicidade?
Abriu a porta.
   - Olha, senhor Natal, me desculpe incom...
   - Não é incômodo algum, Rodovalho.
   - Só vim ver se tá tudo bem com o senhor. Faz mais de quatro dias que eu num vejo o senhor sair...
   - Ah, está tudo bem sim, Rodovalho. Só tive alguns problemas de caráter personalíssimo.
   - Dai o Jordânio, amigo do senhor, ligou lá na portaria e pediu pra eu vim ver...
   - Giovane. Tá bem, obrigado e boa noite!

Fechou a porta, sem dar maiores atenções ao porteiro.
Essa noite, dormiu tranquilo.

Quando abriu os olhos na manhã seguinte, quarta-feira pesada, sentiu toda a amargura da realidade entrar pela fresta das pálpebras. O fantasma da moça ruiva ainda o rondava. Com muito esforço, arrastou seu corpo para fora da cama e foi trabalhar.

No fim do expediente, enrolou até as 18h30 no escritório. Nunca fizera a jornada completa no trabalho – sempre saía 17h48, 17h36, 17h54 – mas, nesse dia, teimou em não ir para casa. Tomou uma cerveja no Oliveira's às 19h20. Aquela mulher, da qual nem sabia o nome, estava estraçalhando sua rotina.

Às 20h03 entrou no apartamento e fechou a porta.

Mal colocara o casaco sobre o sofá, ouviu a batida na porta. Toc toc toc.
A tranquilidade de não ter ouvido o interfone antes lhe dava a segurança de saber que não era a ruiva. Entretanto, ao tomar o rumo da porta para atendê-la, essa mesma tranquilidade foi aniquilada. O interfone tocou.

Tululú... tululú... tululú...

Não sabia se atendia a porta ou o interfone primeiro. Caminhou para a porta. O instinto lhe dizia o contrário.

Toc toc toc.
Tululú... tululú... tululú...

Parou, suando frio. Encarou o telefoninho branco na parede. Encarou a porta.

Toc toc toc.
Tululú... tululú... tululú...

Preferiu atender o interfone. Era o Rodovalho.
   - Seu Natal, acabei de deixar entrar uma moça, ela disse que era conhecida do senhor. Agorinha mesmo ela deve bat...

Largou o interfone pendurado, correu para a lavanderia e pegou o bastão de beisebol.
Tirou o celular do bolso e discou 190.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

CONTO - A NOITE DO NATAL (parte 02)

Natal sabia que seria difícil. Na verdade, passou mais de duas horas observando garotas bonitas e jovens entrando e saindo do bar do Oliveira. Nenhuma parecia digna de uma oferta de cinquenta reais para transar. Afinal, deveria ser uma ocasião especial.

Até que uma garota ruiva entrou no bar. Chamou a atenção de Natal no mesmo instante. Relutante, o homem acabou admitindo para si mesmo que aquela, sim, merecia seus cinqüenta reais. Coincidentemente, a garota sentou-se no banco ao seu lado.

Suando frio, permaneceu olhando pra frente, sentindo a presença da moça. Pensou em mil formas de quebrar o gelo, mas só se lembrava de futebol. Garotas não gostam de futebol. Nem de adolescentes na puberdade que não sabem conversar direito. E, apesar de ter ido na “casa das primas” com seu pai, Natal sabia que, no fundo, ainda não tinha perdido a virgindade.
   - Só o ataque do Fluminense pra me deixar desse jeito. - a moça disse.
   - Hã?
   - Futebol ainda me mata. Preciso beber!

A ruiva tinha acabado de falar em futebol? Era isso? Custou a acreditar no que ouviu. Era bom demais para ser verdade. E facilitava bastante as coisas! Era só imaginar que a moça era um dos seus amigos e conversar normalmente. E evitar olhar nos olhos, claro.
  - Martini?
  - Sem azeitona.
  - Araújo, um Dry para a moça aqui também, por favor.

A garota se ajeitou no banco, olhando para Natal, com olhar meio intrigado:
  - Achei que aqui se chamasse Oliveira's.
  - E se chama mesmo.
   - Mas você não pediu o Martini para o Araújo?
  - Pedi.
  - E qual a relação?
  - Acho que todo mundo tem essa dúvida.
  - Isso aqui deveria se chamar Araújo's.
  - Talvez o Araújo ali se chame Araújo Oliveira.
  - Hum. E se chama?
  - Não.

A tática não estava funcionando muito bem. Já estava tratando a moça do mesmo jeito que tratava Giovane. Conversando do mesmo tanto. Precisava ser mais receptivo. A ruiva continuou olhando para Natal. Perguntou:
  - E você?
  - Eu o quê?
  - Como se chama?
  - Rogério Natal dos Santos! Muito prazer! E a senhorita?

A moça deu um sorriso.
  - Nossa... não precisa me chamar de senhorita.
  - Me desculpe.
  - Também não precisa pedir desculpa!

Aquilo não estava evoluindo. Quanto mais tempo precisasse conversar com a moça, maior a possibilidade de se enrolar. Precisava resolver logo. Não iria se casar com ela, afinal de contas. Era só questão de sexo. Tentou:
  - Olha, moça...
  - Acho que o Araújo não te ouviu aquela hora.
  - Araújo! Martini aqui! Vamos, homem!

Natal não sabia quando, mas em algum ponto da noite tinha pegado um palito de dentes e agora arranhava a madeira do balcão. A tensão de estar ao lado da garota lhe causava uma espécie de sensação de pré-coma alcoólico, sem álcool. Só percebia flashes das coisas que fazia.
  - Olha, moça, eu tenho cinqüenta reais aqui e...
  - Dá muitos Martinis!
  - É... mas, na verdade, eu não quero beber isso tudo...
  - Bom... então dá várias porções de coxinha.
  - Verdade. Agora que você falou... acho que eu nunca pedi a coxinha daqui.
  - Podemos pedir, para experimentar.
  - Ou podemos ir lá pra casa...

Era isso? Aquelas palavras saíram mesmo da sua boca? Tinha chamado a ruiva para ir para o seu apartamento? Que orgulho!
  - Hum... tudo bem! - concordou a ruiva.
  - Legal.
  - E onde é que os cinqüenta reais entram?
  - Bom, achei que você fosse...

Silêncio constrangedor.
  - É, eu sou.
  - Então é ai que os cinqüenta reais entram – arrematou, com uma gargalhada forçada e fora de contexto. Que não funcionou, então tratou de ficar sério de novo.

Os dois ficaram em silêncio. Enfim, tinha conseguido! Iria encarar, verdadeiramente, pela primeira vez, seu maior medo. Mas Natal não estava à vontade com aquela história toda de profissionalismo, de ter que pagar e tudo mais. Tinha que camuflar, para si mesmo, aquela situação patética.
  - Olha só, moça, já que combinamos essas coisas, eu queria pelo menos que...
  - Que seja natural.
  - Isso.
  - As pessoas me pedem isso o tempo todo.

Na verdade, a garota havia percebido toda a dificuldade do Natal em lidar com a situação. Não apenas com o sexo pago, mas com o próprio fato de ela ser uma mulher. Natal era um fracasso total. E ela estava se sentindo o máximo!
- Tudo bem, querido. E o que você quer que eu faça?
- Olha... vamos fazer assim: Semana que vem, estarei em casa após as 19 horas, todos os dias. Toma o endereço. Não vou mais sair de casa depois que eu chegar do expediente.
  - Sim?
  - Então, o que eu quero é que você apareça de surpresa.
  - Hum... como assim?
  - A gente combinou que você vai lá em casa. Mas não vamos combinar o dia. Não pode virar compromisso. Apareça o dia que você quiser, desde que seja semana que vem. Toma os cinquenta reais.

A moça pegou a nota. Raspou a unha sobre a superfície para checar se não era falsa. Virou o Martini e se levantou.
  - Então está combinado. Semana que vem, quando você menos esperar, estarei batendo à sua porta.

Esticou o braço com a nota de cinquenta reais a Natal.
  - E hoje eu não estou a trabalho. Você não é meu cliente.

Quando a ruiva já estava perto da porta de saída, Natal gritou:
  - Ei! Como é seu nome?

Sem parar de andar, a moça virou, lançou-lhe um beijo e sumiu pela porta.

(CONTINUA...)